Retrospectiva – Economia em 2021

Com a quebra de expectativa em relação aos frutos da retomada das atividades, 2021 ficou marcado para o Brasil como...

Com a quebra de expectativa em relação aos frutos da retomada das atividades, 2021 ficou marcado para o Brasil como o ano da alta inflação – sentida em todo o mundo, mas amplificada por fatores internos – e da baixa criação de postos de trabalhos, sendo estes com pouca qualidade e remuneração média inferior a períodos anteriores. Decerto, os indicadores econômicos, mesmo com o avanço da vacinação, foram um balde de água fria. No entanto, apesar do problema em parte ser de ordem técnica, há fatores políticos que, se ajustados, podem contribuir para a recuperação da economia brasileira.

Inflação em alta

Fator de maior preocupação, dado o histórico da economia brasileira, a inflação alta foi o principal ponto em 2021. Correspondente ao aumento geral no nível dos preços, com impacto negativo direto no poder de compra das famílias, a inflação acumulada em 12 meses é a maior desde novembro de 2003 (10,74%). Não sendo apenas um fenômeno brasileiro, mas global, como fruto da pandemia e do aumento de gastos do governo para conter os efeitos negativos do fechamento das atividades, a inflação é sentida, sobretudo, pelas idas aos supermercados e aos postos de gasolina.

Não é pra menos, visto que a demanda pela exportação fez com que o preço dos produtos internos subisse, ao passo que a valorização de commodities como o petróleo subiu o preço da gasolina, diesel, gás de cozinha e até do etanol – pelo fato de ser um substituto direto.

Em contrapartida, o Banco Central já trabalha para frear a alta inflacionária, com elevações periódicas da taxa básica de juros – a Selic, que está atualmente em 9,25%. No entanto, apesar de ser um movimento necessário, a alta dos juros também implica em aumento do endividamento público e privado e dificuldade para geração de novos investimentos uma vez que a tomada de crédito e empréstimos fica mais cara.

Enquanto o cenário não se estabiliza, o fantasma da fome já atinge mais de 19 milhões de brasileiros e mais de 115 milhões estão vivendo com insegurança alimentar, demonstrando que a inflação é ainda mais perversa com aqueles que tem menos.

Emprego

Com a reabertura da economia, o cenário não é de todo mal, visto a criação de novos postos de trabalho. O desemprego caiu para 12,1%, atingindo agora 12,9 milhões de brasileiros. No entanto, os dados mostram que esses novos empregos são, em geral, de menor qualidade – com remuneração menor e diminuição dos direitos trabalhistas. Nesse sentido, cresce também o fenômeno da informalidade, com quase 38 milhões de trabalhadores sem vínculo de trabalho.

Como consequência da baixa na mão de obra, o PIB brasileiro teve um crescimento tímido e momentos de recessão técnica foram sentidos.

Câmbio/Dólar

Como produto da pandemia, o movimento de fluxo de investimento em países em desenvolvimento para países desenvolvidos também foi sentido no Brasil. Na prática, o mercado de investidores buscou economias mais consolidadas e seguras para resguardar seu capital durante o período de combate mais acentuado contra à Covid-19. Como consequência, esse movimento causou depreciação do real em relação ao dólar, encarecendo os produtos importados e favorecendo o setor de exportação do país.

Ademais, de ordem política, o risco de descontrole fiscal – ocasionado por instabilidade entre os poderes e insegurança quanto ao controle da pandemia – também desvalorizou nossa moeda. Na prática, se o governo não dá sinais seguros e coesos de suas ações, com possibilidade de aumentos repentinos e expressivos de gastos e fragilidade institucional o mercado se posiciona de maneira desfavorável.

Somado a isso, a letargia política para emplacar as propostas de reformas e projetos de privatizações e concessões também contribuiu para a desvalorização da moeda.

Risco Fiscal

De outro modo, como versão mais rebuscada e duradoura que o Auxílio Emergencial, e programa de reformulação do Bolsa Família, o governo tenta emplacar, à duras penas, o Auxílio Brasil. O novo programa de transferência de renda condicionada promete elevar o valor pago às famílias para R$400 e ampliar a base de beneficiários. No entanto, para além das beneficies e necessidade de pensar na distribuição de renda num período que a população sofre com a inflação e o desemprego, o Auxílio Brasil implica em desobediência ou realocação de recursos para manter a regra do teto de gastos.

Nesse sentido, com declarações diretas de que o teto seria violado, os investimentos foram afugentados e houve fuga de capital estrangeiro. Assim, para mitigar esse efeito, o Governo Federal se movimentou para reajustar o orçamento de 2022, passando a propor a PEC dos precatórios – que é basicamente a renegociação de débitos do governo com a expansão do prazo de pagamento. Apesar de ser uma manobra acertada do ponto de vista político, visto que possibilitaria a criação do Auxílio Brasil, a manobra foi vista como negativa para o mercado.

Energia

A energia elétrica também tem sido um ponto de tensão durante a pandemia. Em todo mundo, a alta das commodities energéticas impulsiona a escassez e alta no preço da energia. No Brasil, o cenário não é diferente. A crise energética é impulsionada pela falta de chuvas que obriga a imposição de novas tarifas para custear a escassez, elevando o preço pago na conta de luz em todo o país. Nesse sentido, o cenário parece estar melhorando em dezembro desse ano, o que pode ser uma predição para 2022.

Reformas e Privatizações

Não houve em 2021 um avanço consistente de nenhuma privatização anunciada pela equipe econômica. Correios, Eletrobrás e até Petrobras ganharam espaço no noticiário com o presidente dando suas vendas como certas, mas nada foi decidido. Com projetos confusos, todas as privatizações ficaram paradas no Congresso. E o efeito disso é que o governo não conseguiu arrecadar o esperado com as vendas, diminuir a dívida pública e melhorar a situação fiscal.

As reformas administrativa e tributária, por sua vez, também ficaram paralisadas. Os projetos do governo até saíram, mas encontraram um ambiente inóspito no Congresso. Isso porque, no caso da tributária, outras propostas já tinham discussões avançadas. No caso da administrativa, uma forte resistência do funcionalismo público minou as chances de se diminuir o tamanho do Estado. Com pouco capital político, Guedes deixou assuntos de lado, principalmente porque o próprio presidente se mostrava abertamente contra as medidas.

Pontos positivos

Para além das dificuldades econômicas enfrentadas, o ano de 2021 também teve alguns acertos. Um dos primeiros deles foi a votação e promulgação da autonomia do Banco Central.  Agora, a instituição passa a ter mandato de diretores e presidente não vinculados ao poder executivo. Na prática, significa que o Banco Central tem mais autonomia para resguardar as diretrizes econômicas, diminuindo a possibilidade de intervenção política na instituição.

Outro ponto para ressaltar foi a consolidação do PIX como uma das principais plataformas de transferência de valores digitais do país. Atual responsável por boa parte das movimentações financeiras, o PIX representa rapidez, eficiência e abre as portas para a democratização dos serviços do sistema financeiro e bancário.

Ademais, os programas estabelecidos pelo governo para conter os malefícios econômicos causados pela pandemia, como o incentivo de renegociação para empréstimos de micro e pequenos empreendedores e a desoneração da folha de pagamento, também foram benéficos.

Por último, o leilão do 5G superou as expectativas e foi mais um ponto positivo não só para economia, mas para o desenvolvimento tecnológico do país. De outro modo, também resta torcer para que os impasses orçamentários sejam superados, afim de que os objetivos do novo programa social de transferência de renda – Auxílio Brasil – seja efetivado.