Série “Pensadores”: Thomas Paine, Por Ighor Branco.

Ativista político e grande intelectual liberal, Thomas Paine, apesar de britânico, tem uma história de vida de influência em vários países. Filho de pais pobres e nascido em Norfolk, Inglaterra, Paine viveu intensamente algumas das principais revoluções que sacudiram o século XVIII, como a Revolução Americana e a Francesa.

Amigo de notáveis figuras da história como Benjamim Franklin – intelectual; inventor; um dos mais conhecidos Pais Fundadores e responsável por levar Paine até as Treze Colônias (atual EUA) no período revolucionário – o filósofo britânico, apesar de sua origem humilde, sempre buscou o conhecimento e a ação política.

REVOLUÇÃO AMERICANA

Além de influenciar as manifestações dos chamados “jacobinos” britânicos, Paine ficou famoso após a circulação do seu panfleto mais popular – no limiar da Revolução Americana –, Common Sense, publicado pela primeira vez em 10 de janeiro de 1776, vendendo seus mil exemplares impressos imediatamente. No final daquele ano, 150.000 cópias – uma quantidade enorme para a época – foram impressas e vendidas.

Segundo historiadores, Common Sense teve um papel fundamental em convencer os colonos a pegar em armas contra a Inglaterra. No texto, Paine argumenta que o governo representativo republicano é superior a uma monarquia ou a outras formas de governo baseadas na aristocracia e na hereditariedade. O panfleto mostrou-se tão influente que John Adams teria declarado: “Sem a pena do autor do Common Sense, a espada de Washington teria sido levantada em vão”.

REVOLUÇÃO FRANCESA

Após a independência americana, Paine retornou à Europa, onde escreveu uma defesa contundente da Revolução Francesa e dos princípios iluministas com seu texto Direitos do Homem – em contraposição com os escritos do intelectual conservador Edmund Burke. Mais tarde, em 1793, curiosamente, o próprio Paine foi preso pelos jacobinos e acusado de traição em razão de sua oposição aos métodos revolucionários de Robespierre e seu grupo – mais especificamente à pena de morte, ao uso em massa da guilhotina e à execução de Luís XVI.

Nesse sentido, o filósofo britânico pode ser visto como intelectual incompreendido pelo seu tempo. Assim, mesmo tendo sido de fundamental relevância para os eventos políticos de sua época, por conta da defesa intransigente das suas concepções – que hoje se mostram muito mais alinhadas à realidade – Paine foi tachado de radical e faleceu solitário sem usufruto das suas contribuições.

HOJE, PAINE SERIA TIDO COMO MODERADO

Defensor da propriedade privada, da ação estatal na economia apenas para regulação e garantia do funcionamento do livre mercado, dos direitos individuais, da liberdade de expressão e de tantos outros preceitos liberais, Thomas Paine foi visto como radical na sua época, muito por conta da posição favorável a princípios democráticos e do que viria a se chamar de liberalismo social.

Paine ia de encontro não só contra o fanatismo jacobino, mas também contra a hipocrisia girondina – que não defendia o sufrágio universal, mas censitário. Ademais, o filósofo foi um dos primeiros a articular os direitos individuais ao conceito de democracia, uma vez que o liberalismo da época tinha uma visão mais elitista.

Assim, Paine foi um vanguardista, ao identificar que não só as coerções feitas pelo Estado prejudicariam o pleno desenvolvimento dos indivíduos, mas também a extrema pobreza – ou seja, a falta das condições mínimas de vida. Nesse sentido, o autor escreveu um pequeno texto onde propunha uma espécie de imposto sobre as heranças que seria destinado para um fundo que serviria para transferir renda para todos os cidadãos, numa espécie de programa de renda mínima universal.

Por último, Thomas Paine também foi um vigoroso defensor dos direitos das mulheres e das minorias, sobretudo, no que diz respeito ao acesso à cidadania.

Portanto, nos dias de hoje, não é difícil dizer que o incompreendido filósofo britânico do século XVIII, conhecido pela participação direta em revoluções e mudanças de regimes de governo em todo mundo, deve ser revisado e levado em consideração.

Ighor Branco, acadêmico de Ciência Política da UFPE. 

FONTES:
 
- PAINE, Thomas. Senso comum e os direitos do homem. Brasil: L&PM Pocket; 1ª edição (4 de maio de 2009).

- PAINE, Thomas. Justiça Agrária. Brasil: Paco Editorial; 1ª edição (27 março 2019)

- CARVALHO, Daniel. “Parece existir Paine para todas as estações” (Entrevista por Bruno Leal). In: Café História. Disponível em: https://www.cafehistoria.com.br/parece-existir-paine-para-todas-as-estacoes/. Publicado em: 2 ago. 2021.