Série “Pensadores”: Raymond Aron, Por Ighor Branco.

Liberal e tido como um dos maiores pensadores políticos século XX, Raymond Aron foi um filósofo, sociólogo, historiador e jornalista francês. Contemporâneo da Segunda Guerra Mundial e da ascensão das ideias marxistas, Aron dedicou sua vida à produção de análises sobre seu tempo, tendo em vista à defesa da liberdade como valor essencial para a sociedade.

Com análise preditiva afiada a respeito dos desdobramentos da chegada do partido nazista alemão ao poder, Aron foi um grande ativista intelectual. Traçando paralelos entre o nacionalismo cego e a doutrina comunista – que na sua conceção, tentava substituir a religião na sociedade –, o pensador também foi um dos maiores expoentes da democracia.

Esta, em sua visão, seria uma consequência natural de um processo de amadurecimento lógico da sociedade, com um plano de fundo pautado na filosofia liberal. Assim, a democracia, além de produto, seria um meio para o pleno desenvolvimento das pessoas, tendo em vista suas capacidades.

CRÍTICAS À “HIPOCRISIA DA ESQUERDA”

Segundo o autor, que ficou famoso por redigir a obra “O Ópio dos Intelectuais” – referente à doutrina marxista – existia uma espécie de “mito da esquerda”, ou seja, as esquerdas se consideravam guiadas pelos ideais da liberdade contra a tirania, a busca por uma ordem social não tradicional e a defesa da igualdade contra os privilégios. No entanto, a defesa desses valores atingia seu limite quando a luta dos povos se dava nos seus próprios regimes – vide a URSS, Cuba ou China.

Nesse sentido, uma das principais denúncias de Aron – que ainda reverberam nos dias de hoje – é de que a esquerda seria hipócrita: defendia levantes populares desde que não direcionados aos regimes autocráticos de projeto marxista.

CRÍTICA À “REVOLUÇÃO E VISÃO MASSIFICADA DOS INDIVÍDUOS”

Ademais, Aron entendia que as esquerdas europeias, com o fim da 2ª Guerra, viam as revoluções do passado com um espírito saudosista: existia nostalgia com as revoluções históricas e desejo para o futuro em sonhos utópicos.

Ou seja, um imaginário revolucionário era sustentado ao passo que não se confirmava na realidade. As classes trabalhadoras estavam evoluindo no que diz respeito à qualidade de vida, e o regime russo tinha substituído uma elite aristocrática por uma elite partidária – o que culminava apenas em novas formas de opressão e cerceamento dos indivíduos.

Por último, ainda no processo de desmitificação do ideário de esquerda, Aron apontou um problema substancial na lógica marxista: a dificuldade em conceituar e identificar o proletariado. Nesse sentido, definir seria algo simples – se limitado a todos aqueles indivíduos que não seriam donos dos meios de produção.

No entanto, ao observar a realidade, pode-se questionar: o médico que ganha salários elevados sofre a mesma opressão de um enfermeiro? Servidores públicos, que possuem vantagens trabalhistas, com salários pagos pelo Estado, também são proletários? O processo de melhora da qualidade de vida não seria um atenuante nas diferenças de classes sociais ao longo do século XX?

Avançando na análise, Aron se debruçou sobre as possíveis “salvações” para os proletários. Os dois caminhos mais óbvios seriam: a revolução ou a melhora gradual na qualidade de vida.

Observando os dados, o sociólogo chegou à conclusão evidente de que as revoluções estariam preocupadas demais com as abstrações, em detrimento das condições de desenvolvimento e sobrevivência dos indivíduos. E de que os avanços na qualidade de vida teriam sido conquistados, sobretudo, a partir da utilização de instituições democráticas – nesse sentido, é possível dizer que a vida dos trabalhadores melhorou mais com as reformas trabalhistas inglesas do que com os mecanismos de controle impostos pelos países da Europa Oriental.

ADEPTO DA MODERAÇÃO

Por fim, para Aron, a liberdade poderia concebida de várias formas – inclusive com a autorização da intervenção do Estado, em condições necessárias. Nesse ponto, seu liberalismo difere das concepções liberais mais economicistas, como de Hayek que defendia a mínima intervenção. Aron ressaltava, todavia, a ameaça que constitui o igualitarismo doutrinário – típico do ideário marxista –, diante das liberdades formais: “O igualitarismo doutrinário se esforça, em vão, em obrigar a natureza, biológica e social, e dessa forma ele não alcança a igualdade, mas a tirania”.

Portanto, Aron é adepto de uma moderação liberal que teria a forma de um compromisso circunstancial: “A síntese democrático-liberal representa, em nossa época, na Europa, nas sociedades industrialmente avançadas, a expressão mais satisfatória do ideal liberal.”

Ighor Branco, acadêmico de Ciência Política da UFPE. 

 

FONTES:

- ARON, Raymond. O Ópio dos Intelectuais. Brasil: Três Estrelas; 1ª edição. 1 de julho de 2016.

- ARON, Raymond. Paz e guerra entre as nações. Brasil: WMF Martins Fontes; 1ª edição. 2 de maio de 2018.

- Raymond Aron e a religião da esquerda moderna • LIVRES (eusoulivres.org)

- Raymond Aron (institutodehumanidades.com.br)