Série “Pensadores”: Mary Wollstonecraft, Por Ighor Branco.

Tida como uma das fundadoras do feminismo, Mary Wollstonecraft foi uma liberal, escritora, filósofa e ávida defensora dos direitos das mulheres, ainda no século XVIII – bem antes de Simone de Beauvoir. Wollstonecraft faleceu com apenas 38 anos de idade, 11 dias após dar à luz a Mary Shelley, que seguiu os passos da mãe e anos após escreveu o famoso romance ficcional Frankenstein.

Inglesa, Wollstonecraft foi a 2ª de sete filhos de uma família rica que foi a falência. Para se sustentar – e ajudar a mãe e as irmãs a sobreviverem –, trabalhou como governanta em casas de famílias abastadas, de onde tirou grande parte de suas observações sobre a educação deficitária das mulheres da época.

Com poucas oportunidades no campo, Wollstonecraft logo se mudou para Londres, onde desenvolveu seus estudos como autodidata nas línguas alemã e francesa, o que a credenciou para trabalhar como tradutora e resenhista no periódico Analytical Review, de Joseph Johnson – frequentando o mesmo ambiente de inúmeros pensadores iluministas.

Não demorou muito para a escritora desenvolver suas próprias elucidações e tecer suas críticas à estrutura social da época, que na sua avaliação, tratava as mulheres aquém dos homens, sobretudo na educação.

PRINCIPAIS BANDEIRAS

Politizada e integrada ao ambiente urbano, Wollstonecraft se tornou defensora ferrenha da igualdade, da liberdade e da fraternidade, conceitos que emanavam da França pós-revolucionária. Pouco tempo depois, em Paris, publicou sua obra mais famosa: Reivindicação dos direitos da mulher.

Conhecida como uma das primeiras obras feministas da história, a autora denunciou a exclusão das mulheres do acesso a direitos básicos, colocando a educação como base para o fim das desigualdades. Ademais, no que diz respeito ao direito, argumentou sobre a importância do voto feminino e a paridade no casamento – em especial, em relação a bens da esposa, à tutoria dos filhos e ao divórcio.

Wollstonecraft foi a primeira pensadora que sistematizou as principais reivindicações das mulheres, tomando como base conceitos filosóficos vigentes da época. É possível dizer que grande parte da sua produção teórica se alicerça na sua trajetória de vida rumo à autonomia.

TRANSFORMAÇÃO ATRAVÉS DA EDUCAÇÃO

Wollstonecraft defendia que a educação seria a chave para a liberdade das mulheres: “O exercício do entendimento é necessário; não há outro fundamento para a independência de caráter. Eu afirmo explicitamente que elas devem se sujeitar somente à autoridade da razão, ao invés de serem humildes escravas da opinião”. A filósofa insistiu que as mulheres deveriam estudar assuntos sérios, como leitura, escrita, aritmética, botânica, história natural e filosofia moral; e recomendou também exercícios físicos para auxiliar o estímulo da mente.

Embora jovem, Wollstonecraft anteviu um futuro em que as mulheres estariam livres para seguir qualquer carreira e oportunidade profissional. “Embora eu considere que as mulheres comuns são chamadas a desempenhar os papéis de esposas e mães, por motivos intelectuais e religiosos, não posso deixar de lamentar que as mulheres de um tipo distinto não tenham à sua disposição um caminho que as leve a ambicionar um grau maior de utilidade e independência. (…) Quantas mulheres desperdiçaram desse modo a vida, vítimas da infelicidade, quando poderiam estar atuando como médicas, gerindo fazendas, administrando comércios, erguendo-se por meio do próprio esforço, ao invés de baixarem o rosto, encharcadas com o orvalho da sensibilidade”.

Um tanto quanto esquecida nos debates feministas atuais, Mary Wollstonecraft representa um pensamento pioneiro e fundamental no avanço das discussões sobre o papel feminino na sociedade e o direito das mulheres, sobretudo na garantia das mesmas oportunidades, tanto na educação como no mercado de trabalho.

Ighor Branco, acadêmico de Ciência Política da UFPE. 

FONTES:  

- WOLLSTONECRAFT, Mary. Reivindicação dos direitos da mulher. Brasil: Boitempo; 1ª edição. 31 de dezembro de 2016. 

- Mary Wollstonecraft – Wikipédia, a enciclopédia livre (wikipedia.org)

- Mary Wollstonecraft, autora de um dos primeiros textos feministas (uol.com.br)