Série “Pensadores”: Mario Vargas Llosa, Por Ighor Branco.

Detentor de um Nobel de Literatura e tido como um dos maiores escritores da América Latina, Mario Vargas Llosa é conhecido tanto pela sua produção literária, com romances e ensaios consagrados, como pela sua posição política de defesa da liberdade.

Peruano com visão cosmopolita, Vargas Llosa teve a maior parte da sua formação em letras, no direito e na filosofia. Desse modo, escreveu obras importantes como A Cidade e os Cães (1963), Conversa no Catedral (1969) e A Guerra do Fim do Mundo (1981), este sendo um romance que reconta a guerra de Canudos, no sertão da Bahia, numa releitura de Euclides da Cunha.

PRINCIPAIS BANDEIRAS

 Crítico ferrenho do sistema de castas sociais e raciais, o escritor acredita que essa lógica opressora persiste até hoje no Peru e na América Latina. Assim, sua principal bandeira é a luta pela liberdade individual. Vale ressaltar também que suas obras têm grande influência do existencialismo, que marcou geração, e retratam mudanças de concepção pessoal ao longo de sua formação intelectual.

Nesse sentido, o autor fez questão de revelar no livro “O chamado da tribo” que durante sua juventude se considerava de esquerda e admirava figuras como Fidel Castro e a suposta revolução cubana. Com o passar dos anos, o amadurecimento das ideias e as recorrentes decepções ideológicas, sobretudo, por violações das liberdades individuais, Vargas Llosa ‘virou’ à direita e desde então se considera um liberal.

Nessa trajetória, o autor se debruçou sob tantos outros para refletir sobre as bases teóricas do liberalismo, como Friedrich Hayek, José Ortega y Gasset e até mesmo Karl Popper que já foi apresentado nessa série.

IDENTIDADE LIBERAL

 No que diz respeito a terminologia política, Vargas Llosa acredita que grupos de extrema esquerda contribuíram para a estigmatização da palavra “liberal” e prestaram um desserviço ao debate político. Segundo o romancista, a intenção desses grupos era passar uma visão doutrinária e conservadora do liberalismo, caracterizado por governos ditatoriais, o que se provou falso e infundado. Nesse sentido, Vargas Llosa analisa que apesar desse cenário está mudando, o estigma resultou num histórico atraso econômico, sobretudo na América Latina.

Ademais, o autor é enfático ao dizer que o liberalismo deve ser defendido amplamente. Ou seja, não seria possível que um economista competente e verdadeiramente liberal compactuasse com um governo de caráter autoritário ou autocrata. Essa seria a negação do verdadeiro liberalismo e os exemplos da história são claros de que isso nunca resultou em bons frutos.

CULTURA E LIÇÕES

Por último, Vargas Llosa em entrevistas e exercícios de reflexão, trata de um outro perigo dos nossos tempos que é a banalização cultural – isto, na sua visão, seria prejudicial ao papel crítico e cidadão das produções humanas.

Segundo o autor, “Se a literatura e a cultura passam a ser vistas somente como entretenimento, há um empobrecimento do espírito crítico do cidadão. Cultura não é só entretenimento. É fonte de formação de alicerces democráticos”, ressaltou em entrevista para o movimento suprapartidário Livres.

Portanto, uma lição que o escritor deixa é de que uma sociedade que valoriza a liberdade e consome literatura está mais assegurada para não cair nas armadilhas das fake news, do populismo crescente e das violações aos direitos individuais.

Ighor Branco, acadêmico de Ciência Política da UFPE. 

FONTES:

- VARGAS LLOSA, Mario. O chamado da tribo: Grandes pensadores para o nosso tempo. 1ª Edição. Brasil: Objetiva, 13 junho 2013.

- VARGAS LLOSA, Mario. A civilização do espetáculo: Uma radiografia do nosso tempo e da nossa cultura. 1ª Edição. Brasil: Objetiva, 20 junho 2013.

- Mario Vargas Llosa | Fronteiras do Pensamento

- http://nobelprize.org/nobel_prizes/literature/laureates/2010

- Mario Vargas Llosa, liberalismo e cultura - YouTube

- Mario Vargas Llosa – Wikipédia, a enciclopédia livre (wikipedia.org)