Série “Pensadores”: Joaquim Nabuco, Por Ighor Branco.

Considerado um clássico do pensamento político brasileiro, o liberal Joaquim Nabuco tornou-se referência obrigatória no que diz respeito à análise da sociedade imperial do século XIX, da crítica acerca da fundação e organização do Estado monárquico, e, principalmente, do diagnóstico sobre a importância que a instituição escravocrata ocupou no ordenamento econômico e social brasileiro. Joaquim Nabuco pode ser classificado, assim, como um dos grandes intérpretes do pensamento político do Brasil, posto que suas ideias legaram às gerações futuras uma reflexão original acerca da formação da sociedade brasileira e do papel que ela ocupa no mundo.

Jornalista, político, diplomata e intelectual. É difícil resumir um personagem tão marcante da história brasileira em apenas uma ocupação. No entanto, é de conhecimento geral de que os maiores feitos do pernambucano, nascido em Recife, foram na luta contra a escravidão no Brasil. Obras como O abolicionismo, Um estadista do império e Minha formação inspiraram gerações de políticos e intelectuais que buscaram dar concretude às ideias do também deputado; considerado como um autor paradigmático no que se refere ao pensamento político e social brasileiro do período oitocentista.

Joaquim Nabuco vislumbrava a modernização da sociedade brasileira – no sentido institucional –, uma vez que concebia a escravidão como uma marca identitária tão profunda que estava além de ser somente uma forma de organização do trabalho. Nesse sentido, não bastava a emancipação dos escravos, era necessária uma reforma total da sociedade e do Estado, eliminando os males provocados por séculos de escravidão, que contaminaram as leis, as instituições, os hábitos e os costumes do povo brasileiro.

Por conseguinte, no entendimento de Nabuco, não bastaria apenas a abolição como também a universalização dos direitos aos libertos, pois só desse modo seria possível a fundação de uma pátria livre e cidadã.

HISTÓRIA E RELEVÂNCIA

Nascido em família abastada, Joaquim Nabuco sempre foi conhecido pela sua personalidade excêntrica – tido como um bon vivant. No entanto, mesmo vindo de berço de ouro, o intelectual desde cedo teve contato com classes menos favorecidas, sobretudo, pelo seu trabalho de advogado popular e suas andanças políticas.

Com teses à frente de seu tempo, Nabuco acreditava que as mudanças na sociedade deveriam vir de um processo de conscientização impulsionado por meio de um conjunto de instituições. Autodeclarado liberal, o intelectual brasileiro foi um aguerrido defensor do individualismo – tal como colocado por outros pensadores já tratados nessa série –, da laicidade do Estado – deixando claro sua visão de que religião e política deveriam caminhar paralelamente, mas de maneira separada –, e, de modo geral, da liberdade como um princípio norte do convívio em sociedade.

Por defender ideias contrárias às dominantes da época, foi considerado por muitos um radical. Ainda assim, quando afastado da política, escreveu livros e, junto com seu colega Machado de Assis, fundou a Academia Brasileira de Letras. Nabuco, ao fim de sua carreira, ainda atuou como diplomata e teve um papel crucial na mudança de paradigma em relação à política externa empregada no Brasil. Antes, o país virava seus olhos exclusivamente para o eixo europeu, e agora, com a ajuda também de grandes nomes como Barão de Rio Branco, passava a considerar relações mais estreitas com a própria América do Sul e os Estados Unidos.

LEGADO

Como é possível resumir o legado de Joaquim Nabuco ao Brasil? Em síntese, o pernambucano deixou uma lição de moderação liberal nas reformas a serem executadas, a defesa das instituições que garantiam o exercício da liberdade por parte de todos os cidadãos, a coragem para lutar por aquilo que ele considerava questão de justiça e, em matéria de política externa, um sadio realismo que consultava os interesses da Nação, não apenas as mesquinhas perspectivas partidárias ou de pessoas.

A desigualdade social presente ao longo do século XX e até os dias atuais demonstra o quão vivaz e atual são as ideias do político liberal, que sustentou a tese na qual a abolição deveria vir acompanhada da progressiva universalização da cidadania e da democratização do país. Nabuco vislumbrava um Brasil ideal de modo a converter o execrado passado colonial em uma nação que perseverasse a liberdade econômica, a igualdade de condições, a cidadania e, até mesmo, a democracia.

Ighor Branco, acadêmico de Ciência Política da UFPE.

FONTES:

- NABUCO, Joaquim. O abolicionismo. 6ª edição. (Introdução de Marco Aurélio Nogueira). Petrópolis: Vozes, 2000.

- NABUCO, Joaquim. Minha formação. (Introdução de Gilberto Freyre). Brasília: Senado Federal, 1998, (Coleção Biblioteca Básica Brasileira).

- https://www.youtube.com/watch?v=kP4A1K2Siec