Série “Pensadores”: Adam Smith, Por Ighor Branco.

Tido como o pai da economia moderna, Adam Smith foi um dos primeiros pensadores a elevar os conhecimentos econômicos ao posto de ciência. A obra intelectual do britânico, apesar de não ser muito extensa, exerce uma enorme influência até os dias de hoje.

Antes mesmo da publicação da sua obra mais notável “A riqueza das nações”, Smith já era um consagrado escritor e professor universitário. Desde 1752, lecionava Filosofia moral na Universidade de Glasgow, Escócia, mas suas aulas incluíam outros campos do conhecimento, tais como filosofia do direito, retórica, ética e ciência das finanças. Justamente por isso, para os seus contemporâneos, Adam Smith era mais conhecido pelo iluminismo, do que pelo liberalismo.

A RIQUEZA DAS NAÇÕES

Conhecido como um dos maiores clássicos do liberalismo econômico, “A riqueza das nações” é uma obra que sintetiza os pilares do que é entendido como economia de mercado e a liberdade econômica. Destaca-se, por exemplo, a análise que Smith faz sobre a importância da divisão do trabalho: “o maior desenvolvimento nos poderes produtivos do trabalho, e a crescente habilidade, destreza e conhecimento com o qual é dirigido, ou aplicado, parecem ter sido os efeitos da divisão de tarefas”.

A questão central, nesse sentido, é: quais são as variáveis que explicam a prosperidade de algumas nações em relação a outras? Ou seja, quais são os fatores determinantes para que um país se desenvolva e cresça, em relação a outro que engatinhe no desenvolvimento econômico.

Diferentemente dos mercantilistas, Smith acreditava que o incentivo à livre concorrência deveria ser um dos principais pressupostos de uma economia de mercado, uma vez que, na sua visão, as elites comerciais de cada país agiam para capturar o Estado e curvá-lo aos seus interesses.

Grandes comerciantes influenciavam os processos políticos utilizando como apoio um discurso nacionalista que tratava a concorrência como inimiga da nação. Ao mesmo tempo, lutavam para que novos mercados fossem criados, sempre com caráter monopolista e com apoio militar.

Ou seja, os meios que os mercantilistas acreditavam promover a prosperidade estavam embebidos de repressão estatal e controle de fluxo de bens e produtos, o que ia de encontro com sua concepção de liberdade econômica e que, na prática, não era benéfico, não só socialmente – privilegiando poucos e permitindo a expansão da corrupção – mas como para o desenvolvimento econômico.

O liberal subverte essa lógica simplista, trazendo, por exemplo a noção de especialização na economia. Smith, em sua obra, aponta que o comércio é algo que beneficia ambas as partes envolvidas – comerciantes e consumidores. Ou seja, o vendedor ganha tanto quanto o comprador quando ele realiza uma troca comercial.

Por que? Uma resposta pode ser vista pela natureza humana. Quando nós somos livres para comprar o que o mercado pode fornecer, não precisamos nos especializar em construir tudo aquilo que demandamos. Como consequência, o homem pode direcionar os seus esforços e saberes para as coisas que ele mais gosta.

Nesse sentido, transpondo para a economia, uma vez que um indivíduo foca na produção daquilo que ele executa com maestria, a sociedade como um todo tem um ganho de produtividade, barateando o processo – uma vez que se torna cada vez mais veloz – e direcionando cada um para aquilo que faz de melhor. Assim, o ciclo de prosperidade é criado. Esse é um dos pilares do funcionamento da sua principal teoria: a mão invisível do mercado.

 

LIVRE COMÉRCIO E INTERVENÇÃO ESTATAL

Habitualmente, as ideias econômicas de Adam Smith são taxadas como defensoras da não intervenção geral do Estado. No entanto, esse entendimento é equivocado.

A produção teórica do liberal não é apenas uma contraposição a regulações excessivas. Na realidade, é uma resposta ao cenário da época da captura do Estado pelas elites mercantilistas. De outro modo, Smith era um pensador que via no mercantilismo uma força que gerava poucos avanços para a sociedade.

Os maiores problemas para uma nação, portanto, não são apenas quando o governo monopoliza uma área da economia. O declínio de um país surge, assim, quando o Estado se coloca a favor de interesses privados, ainda que isso pudesse impacte o bem público. Desse modo, os custos se tornam públicos e os benefícios privados.

O que o autor sonha, em última instância, é num mundo em que o poder das elites é limitado pelos agentes do Estado, sem que os agentes do Estado deixem, também, de ter o seu poder limitado pela sociedade.

Ighor Branco, acadêmico de Ciência Política da UFPE. 

FONTES:

- SMITH, Adam. A riqueza das nações. Brasil: WMF Martins Fontes; 3ª edição (15 agosto 2016)

- SMITH, Adam. Teoria dos sentimentos morais. Brasil: WMF Martins Fontes; 2ª edição (14 dezembro 2015)

- Adam Smith - Instituto Liberal

- Livres » Adam Smith e o poder das trocas econômicas livres (eusoulivres.org)

- Laissez-faire: o que essa expressão significa e quem a criou? | Politize!