Qual é o papel da China no conflito entre a Rússia e a Ucrânia?

Enquanto nações ocidentais, como EUA e Reino Unido, deixaram expostos rapidamente seus posicionamentos contrários à Guerra travada pela Rússia contra a Ucrânia, a China manteve cautela e, no máximo, se ofereceu para mediar as conversas entre os dois países. Para além da neutralidade aparente, a postura diante do confronto segue uma tradição chinesa nas relações exteriores — conveniente, nesse caso —, de evitar conflitos e prezar por negociações comerciais. Assim, é entendível o discurso do mandatário executivo da China, Xi Jinping, que desde o início da movimentação de tropas fez questão de não usar termos como “invasão”, “guerra” etc.

Há pouco — depois da invasão à Ucrânia —, a ONU votou uma resolução que condena os ataques russos. Cinco países votaram contra e 141, a favor. A China não foi a favor nem contra: absteve-se da votação. Assim, olhando para a história, a posição chinesa é amplamente voltada para os seus próprios interesses: sem querer se indispor ou fechar portas com ninguém.

A China tem adotado uma posição de neutralidade no conflito Rússia e Ucrânia porque o país possui interesses comerciais em várias partes do mundo, inclusive na Rússia e na Ucrânia. Uma posição enfática de condenação ou apoio só iria prejudicar suas relações com a Rússia ou com o Ocidente.

ECONOMIA

A China é o principal parceiro comercial da Rússia — com acordos na casa dos R$100 bilhões —, enquanto os russos também fornecem importantes insumos a Pequim, como gás natural e minério de ferro.

Observando o cenário de sanções impostas à Rússia, é possível avaliar que a tendência é de que as relações entre os dois países se estreitem ainda mais — considerando que a China poderá atuar como intermediador do comércio — garantindo, desse modo, a sobrevivência russa.

GEOPOLÍTICA

Nesse cenário, não se pode desprezar também as questões geopolíticas. A neutralidade da China se dá, em boa parte, por também não ver com bons olhos a expansão da Otan — liderada pelos Estados Unidos. Essa foi uma das razões usadas por Putin para invadir a Ucrânia, que negociava a entrada no grupo ocidental. Não é interessante para a China a expansão da Otan na região porque traz sensação de instabilidade. Dessa forma, a China apoia a Rússia em suas “razões”, mas não em ações.

TAIWAN

O conflito entre Pequim e Taiwan foi citado nos últimos dias e comparado às divergências antigas entre Ucrânia e Rússia. É notório que tanto a Rússia, como a China, enxergam os países como territórios historicamente seus. Taiwan era território chinês até ser separado após a Revolução Chinesa em 1949, quando Mao-Tsé Tung instaurou o governo socialista. O governo derrubado pela revolução se refugiou com milhões de pessoas na ilha de Taiwan, a 130 km do litoral chinês. A ilha se deu autonomia, com o apoio dos Estados Unidos. O governo chinês ameaça invadir o território desde então, mas encontra resistência, sobretudo, americana.

Da mesma forma, a Ucrânia já foi território do Império Russo — Kiev, hoje capital da Ucrânia, chegou a ser capital da Rússia. A Ucrânia seguiu sendo território russo a partir de 1917, data da Revolução Russa e instauração da União Soviética, e se separou com a dissolução do regime, em 1991.

BUSCA POR HEGEMONIA

É inegável que há um movimento da China de se tornar o país com maior protagonismo mundial, tirando a coroa que sempre esteve mais próxima de Estados Unidos e União Europeia. Há estimativas que apontam a China como a principal economia do mundo em poucos anos.

Internacionalistas analisam que Pequim não tem um projeto de hegemonia “violento”, mas vem se preparando para assumir este posto. Segundo estes, a China não precisa de dinheiro externo; é investidora global e fábrica do mundo ocidental. Um exemplo disso é que iPhones, da Apple, são produzidos na China.

Assim, os países ocidentais batalham para manter a supremacia nas decisões mundiais, mas a China tem um projeto a longo prazo. Existe uma mudança na ordem mundial desde o século 20. Pequim está mais bem preparada para esse novo mundo, que não será mais Euro-Atlântico.

No entanto, é preciso avaliar a questão sem análises rasas. Na realidade, tanto a Rússia, quanto a China, possuem interesses diversos e competem entre si. Mas, também convergem em alguns pontos, como a defesa de suas zonas de influência. A China, ao que tudo indica, marcha com planos para se tornar a maior economia do mundo. Tal situação a coloca em rota de colisão com os Estados Unidos, que não quer perder esta condição. Tanto a China quanto a Rússia contestam a hegemonia norte-americana, é um ponto que compartilham em comum.