Aumento de impostos e protestos na Colômbia,

Por Cesar Maia.

A Colômbia tem vivido dias de tensão, e os protestos contra o aumento de impostos se transformou em uma espécie de condenação geral do governo, com a população exigindo ações do governo para combater a pobreza, a violência policial e principalmente as desigualdades nos sistemas de saúde e educação. Os protestos, que já reuniram milhares de colombianos, culpam o governo pelo aumento da corrupção e criticam duramente a proposta para aumento de impostos em plena pandemia da COVID-19.
A determinação do governo colombiano para que a população evitasse sair as ruas durante os protestos de nada adiantou. Mais da metade dos municípios da Colômbia registraram manifestações contra o governo do presidente Ivan Duque. Apesar da maioria delas terem ocorrido de forma pacífica, a violência durante algumas dessas manifestações resultou em 26 mortos, incluindo um funcionário do governo, e mais de 850 feridos, segundo dados oficiais. Organizações de direitos humanos denunciaram inúmeros abusos policiais e
registraram um número maior de mortes, enquanto a comunidade internacional faz um apelo para que seja estabelecido um diálogo entres os envolvidos.
Os protestos começaram no final de abril por causa dos aumentos de impostos propostos sobre serviços públicos, combustíveis, salários e pensões, mas descambaram para reivindicações ainda mais amplas, como reparações a indígenas e afro-latinos. Apesar do governo colombiano, diante da gravidade desse quadro, ter retirado de pauta a reforma tributária proposta, os protestos continuaram e foram agravados por relatos de violência policial e mortes. Em novembro de 2019, a Colômbia também registrou manifestações e protestos,
por motivos semelhantes. Esse sentimento de descontentamento foi potencializado pela pandemia do coranavírus no ano seguinte, quando a situação econômica da Colômbia piorou, e a população sentiu seus efeitos. Aparentemente, o sentimento generalizado de insatisfação voltou a tomar conta dos colombianos.
O governo colombiano, através do Ministério da Defesa, se manifestou dizendo que as forças de segurança buscavam dar proteção a aqueles que se manifestaram de forma pacífica, assim como os que preferiram não ir as ruas. Mas o próprio ministro da defesa usou o twitter para afirmar que “a Colômbia enfrenta a ameaça terrorista de organizações criminais disfarçadas de vândalos, incitando cidades como Cali, Bogotá, Medellín, Pereira, Manizales e Pasto para desestabilizar”. O Presidente Ivan Duque autorizou o uso de militares para controlar as manifestações. Cerca de 1000 agentes do governo foram deslocados para Cali, cidade considerada o epicentro dos conflitos entre civis, policiais e militares. Em cidades como Bogotá e Medellín, controladas por oposicionistas do governo contrários ao uso das forças governamentais, soldados patrulham as ruas.
Analistas da Human Rights Watch criticaram duramente o uso de militares para controlar as manifestações, pontuando que soldados são treinados para conflitos armados e não para a segurança da população. O escritório do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos também condenou a forma como o governo colombiano vem tratando essa questão. Agora o presidente Ivan Duque tenta iniciar conversas com lideranças sindicais e civis, mas ainda não é possível prever os desdobramentos que essa iniciativa pode
ter, uma vez que o descontentamento público com o governo é anterior a reforma tributária, retirada de pauta pelo governo. Vale lembrar que, segundo o instituto de pesquisas Gallup, o índice de rejeição a Duque chegou a 60%, o mais alto desde que assumiu o governo em 2018.

Por Cesar Maia, economista, vereador e ex-prefeito do Rio de Janeiro, diretor de relações internacionais do ILEC.