Sobre a China, Por Paulo Gouvêa da Costa*

É tarefa difícil para qualquer pessoa entender a China e os chineses. E quem definiu com perfeição essa dificuldade foi...

É tarefa difícil para qualquer pessoa entender a China e os chineses. E quem definiu com perfeição essa dificuldade foi Henry Kissinger, o lendário ministro de relações exteriores dos Estados Unidos no governo Richard Nixon. Kissinger entendeu o suficiente da China para levar o presidente republicano e direitista a promover o estabelecimento de relações com aquele que, na época, era um estranho país comunista. E foi ele também que negociou e viabilizou o fim da guerra com o Vietnam.
Sobre a dificuldade de outros países compreenderem a China, Kissinger cita em seu livro On China (Sobre a China na edição brasileira) o abade Régis-Evariste Huc, missionário e viajante do século XIX: “A civilização chinesa se origina numa antiguidade tão remota que são baldados nossos esforços para descobrir seu início. Não há vestígios do estado de infância entre esse povo. Este é um fato muito peculiar com respeito à China. Estamos acostumados na história das nações a encontrar algum ponto de partida bem definido. (…), mas, não é assim com os chineses”.
O próprio Kissinger observa que “uma característica especial da civilização chinesa é que ela parece não ter um início”.
O fato é que todos nós estamos acostumados a lidar com países que têm uma história limitada por dois tempos bem nítidos – seu início, seja por descobrimento, declaração de independência ou o que for – e o tempo atual. E a China, diferentemente de qualquer outro país, não tem começo: sua história vai tão longe para trás no tempo, que, a certa altura, é preciso reconhecer que ela não tem começo. Como disse o abade Huc, não é possível distinguir um momento, um sinal, que marque o início da nação chinesa.
Os chineses acreditam realmente que seu país sempre existiu. E acho que isso determina sua visão do tempo, sua imperturbabilidade e a consequente calma na tomada de decisões. Eles não se deixam conduzir pela pressa dos que entendem que o tempo é curto. Para eles o tempo é longo. A mesma platitude determinada pela lonjura das suas origens é empregada na sua visão de futuro. Essa concepção, aliada à limitada compreensão, pelos chineses, dos mecanismos capitalistas, os coloca nas negociações com um ânimo que custamos a compreender: eles não necessariamente se preocupam com retornos de capital em prazos pequenos. Apostam muitas vezes no longuíssimo prazo, e muito mais em setores estratégicos do que em negócios de lucros rápidos que, no seu pensar, talvez possam ser efêmeros. Negociar com chineses, seja a venda de soja, a compra de vacinas ou a concessão de áreas de exploração de petróleo, não é tarefa para amadores. E muito menos para gente despreparada em relações exteriores.
No passado recente os brasileiros andaram pisando na bola com os chineses. Eles não costumam esquecer desaforos – podem dar o troco logo, podem apenas ameaçar. Mas, se o parceiro insistir em desaforos ou desavenças, um dia leva o troco. Eles têm tempo, eles não esquecem.
Uma das razões do, digamos, preconceito que existe contra a China em determinadas rodas governamentais brasileiras é o fato de ela ser um país comunista. Mas, é oportuno indagar: a China é mesmo comunista? Esta questão remete à emblemática lição de pragmatismo de Deng Xiaoping com sua pitoresca frase a respeito da cor do gato.
Os chineses praticam atualmente um capitalismo desenfreado, em alguns aspectos mais autêntico que o do Brasil. Então porque cargas d’água este enorme país com empresas privadas gigantescas, que trata sua economia do ponto de vista capitalista, por que ele se diz comunista? Porque essa é a justificativa para o que os chefões do país mantenham um sistema de controle pleno da política e dos limites aos direitos e liberdades dos cidadãos. O país é governado pelo Partido Comunista Chinês. E trata-se de um grande engano imaginar que os cidadãos chineses estão ansiosos por ter um sistema democrático, com os direitos individuais que têm os cidadãos do Brasil ou dos Estados Unidos. Só quem conheceu este tipo de governo é que deseja tê-lo em seu próprio país. A China nunca, pelo menos na parte da sua história que conhecemos, teve alguma coisa parecida com democracia. Ela passou direto do regime monárquico absolutista para o regime comunista. O povo sempre viveu sob um sistema que, sob nossa ótica, é ditatorial. Não tem memória de liberdades do tipo ocidental. Então Xi Jinping e seus companheiros do Partido Comunista vão mantendo essa forma de governar sob seu controle, sob a capa de controle do Partido que, supostamente, representa o povo. E, enquanto toca a política com a mão esquerda, vai tocando a economia e os negócios com a mão direita.
É possível que um dia esse jogo que eles fazem com o gato capitalista atrapalhe o resto, confunda a visão das pessoas, permita que elas enxerguem e sintam sabor da liberdade. Mas, isso, não é uma questão para o futuro próximo. O que no momento deve guiar nossa maneira de tratar a China é o espírito capitalista que está encantando os chineses. E que permite que eles possam ser ótimos parceiros de negócios.

*Paulo Gouvêa da Costa, Mestre em Direito do Estado pela USP, Mestre em Política Pública Internacional (MIPP) pela Universidade Johns Hopkins, Ex-Deputado Federal; Ex-Presidente DEM-SC, atual Suplente de Senador. Diretor do Ilec.