Globalização, Brasil e Democracia, Por Paulo Gouvêa da Costa*

Globalização, Brasil e Democracia. Como o tema deste debate é a conexão entre estas três palavras, acredito que o ponto de...

Globalização, Brasil e Democracia. Como o tema deste debate é a conexão entre estas três palavras, acredito que o ponto de partida da abordagem poder ser aquele lá da origem: o conceito de aldeia global concebido pelos amigos Windhan Lewis e Marshall McLuhan no início da década de 1960. O primeiro chamou a Terra de “grande aldeia”, o segundo juntou a aldeia com o termo “global”. Ambos trataram de um mundo apequenado pelo avanço dos transportes e, muito especialmente, pela troca de informações.
Mas, embora eu vá abordar a comunicação, o foco não é a salutar difusão de fatos e comentários que têm como inspiração a verdade. Neste momento – especialmente nesta Aldeia Nacional, brasileira – é inevitável tratar da disseminação da sub-informação, da anti-informação, da massificação do que é falso: a distribuição torrencial de ideias e dados deliberadamente errados, distorcidos, inventados. A propósito, está no Congresso um projeto de lei que, conforme o vice-presidente da Câmara, Marcelo Ramos, se destina a “garantir às pessoas o direito de mentir”.
Nossa aldeia está hoje interconectada pelos mais avançados tambores da comunicação. Para o bem e para o mal. E parece que este último lado está andando mais depressa. Existe um vigoroso esforço para introduzir na mente dos crédulos a simpatia pelos demônios da embromação, da artimanha, do embuste. É essa credulidade que permite ao atual presidente, com tanta facilidade, terceirizar a culpa pelo que acontece de errado no governo. Seus culpados prediletos são o Supremo, os governadores, deputados e senadores, a China, a grande imprensa. Alguém devia perguntar ao Presidente qual é, afinal, a relação desses personagens com a alta dos preços, com a desvalorização do real, o desemprego, a crise energética, a redução dos investimentos no Brasil, com a vacilação na compra das vacinas. E deveriam lembrá-lo também que o Chefe do Executivo é ele mesmo.
É curioso observar que outro adepto da terceirização das responsabilidades é o ex-presidente Lula, suposto antípoda do atual. Na época em que se desenrolavam os empolgantes episódios do Mensalão, já então descoberto e em julgamento, Lula, óbvio chefão da bandalheira, tirou o seu da reta, disse que havia sido traído, golpeado pelas costas, e deixou que fossem para a cadeia seu braço direito José Dirceu, três tesoureiros do PT, deputados, ministros e outros mais do seu time. Eis aí uma obra perfeita de transferência da culpa.
Voltando ao tempo presente, pode-se dizer, sem grande rigor, que três blocos de pessoas elegeram Bolsonaro em 2018. O primeiro é composto pelos que acreditaram e ainda acreditam que seu nome do meio não é fruto do acaso: sentem-se realmente diante de um Messias. Acreditam em tudo que seu mito fala. O segundo é o grupo de neopentecostais mais fortemente ligados à política e com espírito mais conservador que o normal dos conservadores – esses foram atraídos pelo discurso supostamente alinhado com os valores da família. O terceiro foi aquele que deu a mão a Bolsonaro. Decidiu a eleição – porque aceitavam como presidente qualquer um que não fosse do PT ou de seus satélites ideológicos. Alguns deles preferiam Alkmin, Amoêdo, Álvaro Dias ou Meirelles – mas, na escolha final nenhum desses estava lá. Sobrou o Capitão. E ante à alternativa petista, esse pessoal fez do candidato duvidoso o presidente do Brasil.
Mas, o Brasil, já não é o mesmo. E, como James Carvile comprovou, o ponto nevrálgico de uma eleição é a economia. E assim é porque dela depende o bem-estar das pessoas. O ser humano gosta de se sentir bem, gosta de ser feliz. O Presidente, porém, ou não pensa desta forma ou está enganado em relação ao efeito de seus gestos, palavras e atos. O fato é que ele, seja como for, está fazendo a economia adoecer. Em consequência, está erodindo o bem-estar da população. E ao que tudo indica, está erodindo também seu próprio patrimônio eleitoral.
Aqueles decisivos eleitores relutantes de 2018 continuam não querendo o PT e agora também não querem Bolsonaro. Esperam por um candidato que ainda não se materializou. Mas, que significa a esperança de um governo com paz, alegria, responsabilidade, honestidade, tolerância, solidariedade, sabedoria, justiça social, competência, maturidade. E que seja encabeçado por alguém genuinamente democrata e profundamente comprometido com a verdade. É sobre esta base de valores humanistas que se assenta o acordo que o Brasil espera. Essa, hoje, é a tarefa – primordial e patriótica- dos nossos partidos, dos nossos líderes. Uma tarefa que só conseguirão cumprir se vencerem, ou pelo menos equilibrarem, a batalha que está sendo travada dentro da nossa aldeia: a batalha da informação.

*Paulo Gouvêa da Costa é Mestre em Direito do Estado pela USP, Mestre em Política Pública Internacional (MIPP) pela Universidade Johns Hopkins, Ex-Deputado Federal; Ex-Presidente DEM-SC, atual Suplente de Senador. Diretor do Ilec.

Texto que serviu de base para depoimento feito no seminário “Um Novo Rumo para o Brasil”, realizado de 15 a 27 por iniciativa do DEM, MDB, PSDB e Cidadania.