Gilmar, o Supremo dos Onze, Gustavo Krause

Trata-se de um personagem da História do Brasil. Com i ou Y. Não importa. Está inscrito na memória do povo...

Trata-se de um personagem da História do Brasil. Com i ou Y. Não importa. Está inscrito na memória do povo brasileiro.

Sua biografia não é muito diferente dos seus contemporâneos, nascidos fora das capitais dos seus Estados. Gilmar, um pouco tímido, reservado, era estudioso e competitivo. Seu objetivo era a distinção do melhor aluno.

Este pendor de laureado significava algum sacrifício na prática do lazer, especialmente do futebol, o que sobrava, por falta de talento, a ingrata posição de goleiro.

Apesar de ingrata, é a posição mais referida pelos pensadores do futebol dada a prerrogativa de ser o único dos jogadores que, dentro da grande área, pode jogar com as mãos. Um ator singularíssimo.

 No entanto, a evolução tática de futebol passou a valorizar goleiros que sabem jogar com os pés e iniciar as jogadas com o passe. Esta função consagrou-se com a habilidade do goleiro Manuel Neuer, seleção alemã campeã do mundo em 2014 com a retumbante goleada sobre a nossa seleção por 7 a 1. Neuer, habilidoso com os pés, atuava como uma espécie de líbero. O mundo aprendeu. O Futebol agradece.

“Nada me ensinou mais na vida do que o fato de ter sido goleiro”, frase imortalizada pelo prêmio Nobel de Literatura (1957), Albert Camus, Goleiro do Racing Universitaire Algerios, que teve a carreira precocemente interrompida por uma traiçoeira tuberculose. É possível que a experiência tenha influenciado a “Filosofia Do Absurdo”, afinal de contas, o goleiro é único ser que errar não é humano: é um ato desumano de quem é vilão e herói exatamente ao mesmo tempo.

Para Nabokov, o goleiro “é a águia solitária”. Eduardo Galeano sentenciou: “o goleiro sempre tem culpa. Se não tem, paga do mesmo jeito”. E para o inigualável Nelson Rodrigues “um atacante, um médio e defensor podem falhar. Só o arqueiro tem que ser infalível”.

Meu caro leitor, se você desconfiou de que me referia ao Ministro Gilmar Mendes, enganou-se redondamente. Refiro-me a Gilmar dos Santos Neves, elegante, disciplinado (ganhou o prêmio Belfort Duarte concedido, à época, ao jogador que nunca fora expulso de campo ao longo de dez anos) e detentor de um título que nem Pelé possui: Gilmar foi “campeão de tudo” devido ao fato de ter conquistado um título em cada competição que disputou.

Gilmar não foi um supremo entre os onze: foi o Supremo dos 11. A História confirmou: bola, boi e boiada não entraram no seu jogo.