Resenha
Ano III - n. 11 - janeiro / março, 2011

 
Raymond Plant –Community and Ideology. An Essay in Applied Social Philosophy

Antonio Paim *

       Raymond Plant (nascido em 1945), renomado autor de obra dedicada à filosofia política, ocupa também posição relevante na direção do Partido Trabalhistas Inglês. Integra a Câmara dos Lordes com o título de Lord Plant of Highfield.
       A obra em apreço apareceu no auge do debate suscitado pelos denominados comunitaristas e tornou-se uma referência fundamental para o seu estudo, tendo sido das mais oportunas a presente reedição.
       Do ponto de vista político, os comunitaristas resultam da crise do marxismo que se seguiu à denúncia dos crimes do estalinismo pela própria direção do PCUS (o famoso Relatório Krushov, de 1956, três anos depois da morte do velho ditador). Tinham o propósito de desqualificar a economia de mercado e o governo representativo consolidado no Ocidente. Como a alternativa de substituí-lo pelo sistema cooptativo estava desacreditada prenunciando o desfecho que se consumaria com o fim da União Soviética e dos regimes que os russos haviam implantado no Leste Europeu as “viúvas” do comunismo buscavam uma saída para não capitular diante da consigna, então popularizada, segundo a qual “depois do capitalismo teríamos o mesmo capitalismo”
       Basicamente, no plano considerado (sistema político), os comunitaristas apostavam na democracia direta, embora não a tenham apresentado com essa denominação mas com o nome de “democracia deliberativa”. A crítica dessa hipótese, entre nós, foi efetivada pelo Círculo de Estudos do Liberalismo, criado pelo saudoso pensador liberal Ubiratan Macedo (1937/2006) e encontra-se no livro Avaliação crítica da proposta de democracia deliberativa (Rio de Janeiro-Londrina, Edições Humanidades, 2002).
       O mérito de Raymond Plant consiste em esgotar outro ângulo da questão. Trata-se da hipótese de que, estando de posse de uma visão científica (neutra) da natureza humana, os comunitaristas achavam-se em condições de estabelecer o modelo de sociedade que atenderia plenamente às suas necessidades.
       Para tanto, passa em revista toda a bibliografia do aludido grupo, relacionada à idéia de comunidade. Em síntese, propõem-se demonstrar que o individualismo posto em circulação pela sociedade industrial teria minado os valores que tipificariam as comunidades, tanto familiar como social, estruturadas em torno da solidariedade e da fraternidade.
       Escreve Plant: “Pode-se argumentar que não há especificação das necessidades humanas à margem dessa ou daquela sociedade e forma de vida. Para criticar a via seguida por uma sociedade particular, em termos de determinada visão da natureza humana, esta visão da natureza humana tem que ser extraída de outro contexto que não o da sociedade objeto da crítica. Seria isto o que de fato aconteceu. Os grandes comunitaristas germânicos buscaram inspiração na polis grega, como fizeram muitos filósofos idealistas do século XIX que seguiram essa tradição. William Morris (1) derivou seus ideais de um retrato romantizado da sociedade medieval; Leavis (2) da Inglaterra anterior à Revolução Industrial; Eliot (3) em grande medida do legado eclesiástico de Elisabeth (4) e, no continente, Maurras (5) da França pré-revolucionária.” (edição citada, pág. 81)
       Por esse caminho, Plant chega à noção de escolha. De modo esquemático, a opção por determinada forma de estruturação da sociedade corresponde a uma opção. A superioridade do que se convencionou denominar de “sociedade aberta” consiste em que proporciona a convivência pacífica entre as diferentes opções.
       Textualmente: “Em última instância, a resposta à questão dá-se em termos de escolha. A existência de perspectivas ideológicas conflitantes, bem como os conflitos conceituais que engendram, impõe à pessoa escolher o que deseja em relação às limitações morais. Não existem padrões impessoais aos quais apelar sem levar em conta a questão como um todo. Tampouco podemos apelar para os “fatos” desde que, em circunstâncias importantes, a própria descrição dos fatos é disputada entre as ideologias; também não podemos apelar para a tradição na medida em que o ponto de vista cristão, liberal humanista e eventualmente marxista podem ser considerados parte da tradição européia ocidental; não podemos apelar para Deus como sendo correspondente a uma visão impessoal porque isto poderia decidir a questão em favor do cristianismo. A par disto, como esperamos ter deixado claro não podemos apelar para fatos indubitáveis sobre a natureza humana ou a estrutura da sociedade humana. Nenhuma instância conclusiva, nenhuma ideologia encontra-se acima de nós de modo a nos dispensar da escolha. A pressão da comunidade do trabalho em favor dos valores da fraternidade, participação, individualidade nos conduz à esfera de valores de índole liberal e isto é importante para nos darmos conta de que somente têm autoridade sob a condição de que com eles estejamos comprometidos.” (p.83)
       
       NOTAS
       
       (1) William Morris (1834/1896), um dos fundadores do movimento socialista britânico. Como pintor, buscou exaltar a atividade artesanal, insistindo em que a sua dimensão básica seria artística. Expressou o que entendia por sociedade socialista, no livro utópico intitulado Notícias de lugar nenhum.
       (2) Frank Raymond Leavis (1875/1978), renomado poeta e crítico literário, dedicou vasta ensaística à recuperação de certa tradição literária de seu país que, a seu ver, asseguraria a volta ao culto de valores que teriam sido abandonados.
       (3) T. S. Eliot (1888/1965), poeta, crítico literário e dramaturgo, norte-americano naturalizado inglês, situado entre os maiores poetas da língua inglesa.
       (4) Elizabeth I (1533/1603), rainha da Inglaterra desde 1558 até à morte, estruturou a Igreja Angliana mantendo características exteriores do catolicismo romano mas regendo-se pelo protestantismo calvinista.
       (5) Charles Maurras (1868/1962) fundou o movimento chamado Action Française, de inspiração ultra-conservadora, simpatizante dos “governos fortes” surgidos na Europa na década de vinte do século passado.
       

Raymond Plant
Bacharelou-se no Kings´s College, de Londres, aos 21 anos de idade, tendo concluído o doutorado na Universidade de Hull. Seguiu carreira acadêmica, inicialmente como professor no King´s Coollege, de Londres. Ensinou também nas Universidades de Oxford e Southampton. Na condição de destacado dirigente do Partido Trabalhista, tem pertencido aos governos dessa corrente. Integra a Câmara dos Lordes. Autor de extensa bibliografia, dentre a qual tem encontrado a maior acolhida o livro intitulado Political Thinkers.

OUTRAS RESENHAS
 
Tony Blair – A Journey.My Political Life
João Paulo M. Peixoto

Mario Vargas Llosa – Sabres e utopias. Visões da América Latina (2009).
Antonio Paim

 
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