Resenha
Ano IV - n. 17 - julho / setembro, 2012

 
Matias Spektor- Kissinger e o Brasil. Rio de Janeiro: Zahar, 2009

João Paulo M Peixoto *

       Seja do ponto de vista político, comercial ou econômico, têm prevalecido na histórica relação entre Brasil e Estados Unidos da América a cooperação e amizade, não obstante alguns períodos de tensão.
       Pelo lado americano, tanto faz que o presidente seja democrata ou republicano, sempre falou mais alto o interesse comum, embora nem sempre convergente.
       Do lado brasileiro, por sua vez, na democracia ou no autoritarismo, valores e objetivos superiores sempre marcaram tal entendimento.
       
       No Brasil, a admiração latente ou não, pelos valores e modo de vida norte-americano sempre estiveram presentes, baseando uma convivência sempre pacífica. Ajudada pela imagem positiva junto ao gigante do norte, potencialidade e poder do Brasil os ianques sempre viram no gigante do Sul um parceiro a ser respeitado e um aliado a ser cultivado e preservado. Tendo o pragmatismo exercido um papel preponderante para sedimentar o diálogo e certas parcerias entre as duas nações.
       Matias Spektor dedica-se ao longo dos 7 capítulos, mais o epílogo e a conclusão, a narrar a história da operação levada a cabo pelas duas nações no decorrer das últimas três décadas do século XX, particularmente durante o regime militar, na tentativa de construir uma parceria diplomática, objetivando promover a ascensão do Brasil baseada em propósitos comuns. Na expectativa de que o Brasil pudesse compartilhar os custos elevados para manter a ordem internacional concebida pelos Estados Unidos.
       
       O livro, inserido também no campo geral de estudos sobre política externa durante o regime militar (1964-1985), trata de uma etapa crucial [mas não só dela] nas relações Brasil e Estados Unidos.
       
       Fotos inéditas e boas entrevistas são partes interessantes da obra que abarca vários períodos e eventos marcantes da década de 1970 do século passado.
       Embora o volume trate de períodos conturbados das relações entre os dois países, aborda também períodos marcantes dessa experiência diplomática. Cobre tanto a lua de mel marcada pelo estabelecimento de uma comissão de alto nível destinada a balizar os temas de interesse comum, como a tensão assinalada pelo rompimento por parte do governo nacional, do acordo militar entre Brasil e Estados Unidos.
       A negociação em torno da independência de Angola, que posicionaram os dois países em lados opostos, constitui-se em tema de interesse subjacente, embora inserido no contencioso diplomático geral a marcar o relacionamento de ambos.
       
       Sendo os estudos voltados para os Estados Unidos da América, um campo ainda não devidamente explorado pela academia e especialistas brasileiros, seja na Ciência Política, nas Relações Internacionais bem como em outras áreas do saber, o livro em apreço se reveste especial significância.
       
       Que venha uma leva de ‘americanistas’, na academia ou fora dela, a exemplo do que ocorre já ocorre no sentido inverso, com os brasilianistas. A academia e a diplomacia estatal terão muito a se beneficiarem. Não só nos estudos comparados como na própria análise histórica e política da nação líder global. Que este livro seja mais um trabalho acadêmico a incentivar uma trilha a ser percorrida. Esperando que ultrapasse as fronteiras acadêmicas e diplomáticas, e possa alicerçar ações em outros campos. Como tem acontecido na esfera comercial.
       
       Aliás, o presente ‘Kissinger e o Brasil’, já lança outros desafios, bem como outras luzes sobre as dinâmicas do relacionamento entre os dois países. Bem-vindo particularmente no momento em que essas relações entram numa fase bastante promissora.
       
       Em pleno século XXI, porém, pode-se esperar muito mais dos dois gigantes atuando concatenados na arena global. Era o que se esperava do diálogo praticado durante aquela época, como demonstra o autor. Por que não esperar mais ainda do quem tem sido nos tempos atuais?
       Boa leitura.
       
       
       


       Matias Spektor é professor adjunto da Fundação Getúlio Vargas onde coordena o Centro de Relações Internacionais e edita a série de livros de bolso “Entenda o mundo”. Doutor em relações internacionais pela Universidade de Harvard.

       

       

João Paulo M Peixoto
Pesquisador Associado do Centro de Estudos Avançados em Governo e Administração Pública da UnB e professor associado internacional do VILLA Victoria University of Wellington, New Zealand. Seu livro mais recente (Org.) é “Governando o Governo: modernização da administração pública no Brasil”. Foi assessor dos Ministérios da Educação e Fazenda no Brasil servindo também em organizações internacionais

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