Resenha
Ano III - n. 9 - julho / setembro, 2010

 
Arno Wehling – De formigas, aranhas e abelhas. Reflexões sobre o IHGB.

Antonio Paim *

       Na condição de Presidente do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, Arno Wehling adotou como paradigma, para exame do papel e do desempenho da Instituição, a comparação efetivada por Francis Bacon (1561/1626) entre o que seriam estilos característicos dos insetos e aqueles emergentes na filosofia de seu tempo. Esse autor é justamente um dos expoentes na busca por uma alternativa à Escolástica, que identifica com o “estilo das aranhas”, posto que extrairiam de si mesmas o material requerido para constituição de suas teias. Os empiristas, por sua vez, agem como as formigas que se limitam a acumular provisões de que careceriam para sobreviver. Francis Bacon, em sua obra seminal Novum Organon (1620), assim denominado a fim de explicitar contrapor-se a Aristóteles, adotado pelos escolásticos recomenda a posição intermediária, a seu ver típica das abelhas (não se limitam ao material colhido, modificam-no).
       
       Arno Wehling adota uma postura científica equivalente à recomendada por Francis Bacon. Antes de evidenciá-lo, permito-me registrar que o autor do paradigma, em sua obra, está atento ao curso que vinha sendo empreendido pelo conhecimento.
       Na consideração dessa que seria a fase inicial da filosofia moderna é muito comum partir-se de avaliações desequilibradas da Escolástica. Essa filosofia, predominante na Europa Medieval, desenvolveu amplamente a elaboração conceitual (tarefa primordial da filosofia, dimensão que nem sempre se tem presente) privilegiando o discurso, através das famosas “disputationes”. Destinando-se a tornar o raciocínio dedutivo o mais consistente possível, não havia lugar para a indução, vale dizer para a experiência. Os descobrimentos abalaram profundamente esse estilo de pensamento.
       
       A experiência dos navegadores choca-se de pronto com a visão mediterrânea do mundo presente à Geografia de Ptolomeu (Século II). Na obra, escrita entre 1480 e os fins do século, As relações do descobrimento da Guiné e das ilhas doa Açores, Madeira e Cabo Verde, Diogo Gomes investe diretamente contra Ptolomeu na divisão que faz do mundo: “a setentrional diz que não era povoada pelo excesso de frio e da parte equinocial do meio-dia também escreve não ser habitada por motivo do extremo calor. E tudo isto achamos ao contrário.” Conclui com esta afirmativa inusitada para a época: “E eu digo com verdade que vi grande parte do mundo.” O geocentrismo de Ptolomeu era uma parcela substancial do saber escolástico, como se veria subsequentemente nas disputas em que se envolveu Galileu.
       
       A observação do que se passava no mundo, exaltada pelo navegador português, desembocaria na física newtoniana. Recusando progressivamente a nova postura, a Escolástica acabaria inteiramente ultrapassada, o que, entretanto, não autoriza desconhecer que corresponde a momento destacado da estruturação da cultura ocidental.
       
       O paradigma adotado por Arno Wehling reflete com propriedade a circunstância vivida pela historiografia brasileira. Sendo o IHGB resultado do encontro de uma diretriz para a constituição da disciplina História do Brasil extraordinária novidade em seu tempo incumbe-lhe zelar por esse patrimônio e, ao mesmo tempo, não torna-lo impeditivo da inovação.
       
       Escreve o autor: “Uma instituição com quase dois séculos de existência, num país de quinhentos anos, que, por sua vez tem menos de duzentos como ente soberano, possui um valor simbólico evidente. Por via de conseqüência, possui também uma tradição acumulada que precisa ser considerada, ao mesmo tempo que enfrenta a necessidade de inovação”. (pág. 9)
       
       O livro caracteriza com toda amplitude o trabalho desenvolvido pelo Instituto Histórico. Ao mesmo tempo, chama a atenção para o fato de que a grande figura que poderia ser considerada a fonte inspiradora dos homens que se incumbiram de sua criação Leopold von Ranke (1705/1886) deixara-lhes como advertência a crítica aos que só valorizavam o presente, recusando o passado, do mesmo modo que os arautos da proposição oposta “que faziam do tempo presente uma jeremíada, lamentando os bons tempos perdidos no passado” ao escrever “que a cada época, a nossa como a todas, está traçada sua própria missão, sendo dever dos homens que nela vivem ajuda-la a que se cumpra do melhor modo possível.”
       
       No caso da Instituição considerada, trata-se de Pensar o Brasil. Talvez se possa dizer, a partir do valioso material que Arno Wehling coloca à nossa disposição, que o mérito da sua existência consistiria em apontar-nos as questões que corresponderiam a “continuidades estruturais”. Tê-las presente no trabalho historiográfico exige, como insiste o autor, que os suportes científicos a que estejamos recorrendo sejam fundados “em pressupostos éticos que podem ser consubstanciados no conceito de humanismo”. O inevitável confronto de pontos de vista, numa sociedade democrática como aquela em que vivemos e pretendemos viver, corresponde à “afirmação da identidade num clima de tolerância e respeito à alteridade, já que o modo simplista de valorizar a própria sociedade e desprezar as demais foi o caldo de cultura de onde brotaram os ditadores contemporâneos, com seus discursos homogeneizadores e seus campos de concentração.” (p. 68)
       
       Enumerando as questões estruturais, a partir das indicações proporcionadas por Capistrano de Abreu (1853/1927) sem pretender, como diz, que seriam exaustivas, escreve Wehling: “...lembre-se as implicações para a existência brasileira de questões como a da continentalidade do país e da unidade da língua, que de tão evidentes tornaram-se despercebidas; a da unidade cristã e da pluralidade confessional da religião; a do patrimonialismo e seus derivados mandonistas e populistas; a da escravidão, com todos seus desdobramentos sociais, econômicos e culturais; a da dependência econômica e insuficiente geração de renda; a da precária generalização da educação e da saúde pública; a das instituições públicas, oscilando entre o excesso e a carência no exercício das funções estatais; a do “estar no mundo” do País, pela consideração da posição internacional do Brasil em âmbito regional, entre os países emergentes e como sujeito no grande tabuleiro da globalização; da identificação de valores básicos em efetivo significado social.” (pág. 46)
       
       Praticamente todos os temas enumerados figuram entre os estudos desenvolvidos no país. Mesmo a unidade nacional, aparentemente ausente, acha-se subjacente a muitas das questões consideradas. Deve-se registrar que, nem todas as controvérsias e disputas existentes obedecem ao propósito de ampliar o diálogo fugindo à polêmica que é a regra pela qual se pauta o discurso acadêmico. Em geral, sua inobservância provém daqueles que pretendem instrumentalizar a historiografia. Os mais afoitos o confessam publicamente como os autores da Nova história crítica do Brasil (São Paulo, Editora Nova Geração, 1993) onde se lê: “A história é uma arma para mudar o mundo”.
       
       Nunca é demais exaltar a obra dos fundadores da historiografia brasileira. Entre outras coisas, localizaram e difundiram a documentação que lhes permitiu fixar os incidentes mais expressivos. Ao fazê-lo, contudo, cumpre levar em conta, como faz Arno Wehling, que a fidelidade ao seu espírito significa “fazer agora, não o que eles fizeram, mas o que possivelmente fariam se estivessem em nosso lugar.”

Arno Wehling
Arno Wehling é professor titular de história na UFRJ e na UNI-RIO e preside o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro desde 1996, tendo contribuído decisivamente para reafirmar a vocação daquela instituição de constituir-se no baluarte máximo da seriedade e da excelência da historiografia nacional. Exerceu as funções de reitor da Universidade Gama Filho

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