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Ano I - n. 4 - abril / junho, 2009

 
Cidadania Já

Paulo Saab *

       “As iniciativas do Estado não atendem ao requisito de proteger os interesses dos cidadãos e promover o bem estar comum.”
       
       A Constituição, os direitos e os deveres
       Quando tive meu primeiro acesso a informações notei, lá pelo jurássico período do início da década de 60 do século passado, que nosso país se chamava Estados Unidos do Brasil. Depois passou a República Federativa.
       
        Seria interessante, antes de mais nada e pela experiência que tenho adquirido defendendo a Educação, que começasse explicando de forma sucinta e objetiva cada item do que vou mencionando.
       
       Pode parecer irônico, presunçoso, não sei bem a palavra que cabe aqui, mas a verdade é que essa simples frase acima pode não ser entendida por significativa parcela da população do país. Que não vai ler este artigo. Mas, o registro fica feito.
       Por que Estados Unidos, por que República Federativa?
       
       O que é isso?
       
       A resposta óbvia à primeira indagação sugere cópia direta dos Estados Unidos da América. O Brasil pensou tornar-se também um país formado por Estados (as unidades da federação) unidos de forma a constituir um país. Exatamente como ocorre no norte da América.
       
       Sendo bastante simplista, os Estados Unidos da América nasceram da vontade comum de treze estados iniciais, daquele território, desejoso de formar uma nova pátria onde todos estivessem sob a mesma bandeira, valores e ideais.
       
       De livre e espontânea vontade inicialmente (depois consolidando a União com a vitória de Abraão Lincoln sobre os estados Confederados do Sul) uniram-se, apuraram seus valores e redigiram uma carta constitucional que vigora até hoje, desde 1787,com apenas 27 emendas.
       
       No Brasil nunca houve Estados Unidos. Nascemos como colônia, persistimos como Vice-Reino, subimos a sede de Reino no período da vinda da família Real, nos tornamos Império, viramos República e sempre, desde a chegada de Pedro Álvares Cabral, o Brasil foi um país dividido em regiões sem autonomia própria. As Capitanias Hereditárias não davam a mínima característica de país ao Brasil.
       
       Segundo o professor doutor Renaldo Gonsalves, em sua brilhante tese de doutorado “Federalismo e Educação no Brasil”, o conceito básico de Federação é assim definido: “O conceito básico, mais freqüente de Federação, é o encontrado no federalismo americano que se traduz como "descentralizado, com grande autonomia na esfera estadual e com delegação de poderes limitados ao governo central pelos estados da federação".
       
       Isto significa que no cenário político dos EUA, os governos estaduais são o
       "centro" do poder. Há também um forte sistema de "checks and balances" entre os três poderes constituídos - o executivo, legislativo e o judiciário.
       
       O controle político dos estados junto com o sistema de "checks and balances" reduz o poder do governo central.
       
       Este modelo não se aplica ao Brasil. Na transição do Império para a República a autonomia dos estados foi outorgada, o centro do poder é o governo central, os "checks and balances" são frágeis permitindo a possibilidade de transitar para um regime autoritário sem ruptura institucional. Os estados têm pouca autonomia para legislar. As soluções se encontram, quase sempre, na esfera federal.”
       
       Feitas as ressalva iniciais, para deixar o leitor em pleno conhecimento de que somos um país formado pela união indissolúvel dos Estados, mas que depende essencialmente do Poder Central, havendo quase nenhuma autonomia para decisões estaduais, podemos prosseguir.
       
       Dentro desse conceito de República Federativa, ainda que dominada pelo Poder Central (a União) temos a nossa Constituição. Muitas. A última delas e que está em vigor é a de 1988. E até outubro de 2007, já tinha sido objeto de 55 emendas.
       
       A Constituição, Carta Magna, Lei Maior, é o que diz o que é, como é, como se regula, vive, relaciona e harmoniza, a vida de seus cidadãos e com os demais países do mundo. A nossa diz tudo isso.
       
       E, por mais defeitos que possa ter, ela é a nossa Constituição e precisa ser respeitada e cumprida acima de tudo. Aperfeiçoada se possível. Mas só a emendam ao sabor dos interesses de momento.
       
       A Constituição deveria ser próxima da perfeição e pétrea (imutável). Como algumas cláusulas que contém essa qualidade.
       
       Admitindo (ou nos consolando) do que é a nossa, e à ela devendo o merecido respeito e cumprimento, como mencionei, chegamos a um impasse inicial. Podem pesquisar: os brasileiros em geral desconhecem até que temos uma Constituição, não sabem o que é isso e, pior de tudo, jamais a leram e não têm idéia do que ela contém.
       
       A Constituição da República Federativa do Brasil diz logo de saída:
       
       “Nós, representantes do povo brasileiro, reunidos em Assembléia Nacional Constituinte para instituir um Estado Democrático, destinado a assegurar o exercício dos direitos sociais e individuais, a liberdade, a segurança, o bem-estar, o desenvolvimento, a igualdade e a justiça como valores supremos de uma sociedade fraterna, pluralista e sem preconceitos, fundada na harmonia social e comprometida, na ordem interna e internacional, com a solução pacífica das controvérsias, promulgamos, sob a proteção de Deus, a seguinte CONSTITUIÇÃO DA REPUBLICA FEDERATIVA DO BRASIL.”
       
       A título de ressalva, penso que valeria a pena esta frase ser cunhada e fixada nas paredes dos gabinetes de nossos políticos, governantes e pretendentes a tal, para servir de oração diária , posto que parece em desuso o conceito maior ali contido.
       Seguindo:
       
       O título primeiro fala dos princípios fundamentais de definição do próprio Estado. O título segundo começa bem: Dos direitos e Garantias Fundamentais. E já expõe o artigo primeiro com a assertiva : Dos Direitos e deveres individuais e coletivos.
       
       Estamos no artigo quinto de nossa Constituição que todo brasileiro, toda brasileira, a partir dos 5 anos de idade deveria saber de cor e entender seu significado :
       “Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País, a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade” nos termos seguintes.
       
       Seguem-se setenta e sete incisos que ficam como lição de casa para o leitor pesquisar na própria Constituição, porque ali está a essência do que deveríamos e podemos ser .
       
       Abro um parêntese: a partir da leitura ou releitura de minhas colunas e editoriais publicados no Diário do Comércio de São Paulo, poderá ficar evidente que a distância a que ainda estamos de um país ideal se mede pelo descompromisso das autoridades públicas nacionais de atentarem e fazerem cumprir esses princípios basilares que nossa Carta Maior especifica como vontade do povo brasileiro.
       
       “O Brasil precisa não só de lendas eternas como Pelé, mas de milhões de pelezinhos no conhecimento, nas ciências e no desenvolvimento.”
       
        A formação de novos cidadãos – Direitos,obrigações,faculdades
       Sinto-me incomodado ao ouvir aqui, ali e acolá, as pessoas bradando quase sempre sem fundamento que “exige seus direitos”. Quem o faz, na maior parte das vezes, não tem idéia sobre o que está falando.
       
       Se o desconhecimento das normas constitucionais é generalizado, se quem teve oportunidade de estudar Direito não conhece o universo total das leis, a pessoa que invoca, numa situação de desconforto, os seus “direitos” está exprimindo apenas sua vontade de ver um desejo, uma satisfação, uma necessidade pessoal, ser reconhecida e posta em prática.
       
       É muito comum, especialmente entre a camada mais pobre da população essa invocação aos “direitos”, traduzidos quase sempre no apelo à autoridade pública para uma benfeitoria ou regularização de situação em torno do local de fixação de moradia ou necessidade de atendimento de saúde ou, pode até haver, demanda por escola na região.
       
       É comum também, em geral na mesma camada da população, ouvir-se o clamor por justiça quando algum crime, alguma violência, alguma infração ocorre alcançando a família ou vizinhos, amigos, do reclamante.
       
       Tudo isso forma um quadro que revela apenas o quanto o Brasil é ainda carente em infra-estrutura, em atendimento aos cuidados mínimos e básicos das camadas de quase nenhum poder aquisitivo e quanto essa mesma população sofre pela falta de recursos mínimos de dignidade.
       
       Embora seja comum que essas mesmas pessoas sejam decorrência de fluxos migratórios anteriores ou atuais e não disponham de qualificação intelectual nem financeira para desenvolver suas vidas, a verdade é que a realidade que as cerca, em qualquer pedaço do chão brasileiro, exige de quem se propõe a ser autoridade e governante, buscar soluções que propiciem essa dignidade de vida.
       
       O foco não é, como pensa o que pede por seus “direitos”, o correto.
       
       Os verdadeiros “direitos” de cada cidadão brasileiro, seja ele pobre,rico ou intermediário sobrevivente, estão claramente tipificados na Constituição brasileira e transcendem as questões do cotidiano. Aplicam-se à vida inteira .
       
       São parte, inclusive, da Declaração dos Direitos Humanos .
       
       Quem pede por seus direitos para ter, por exemplo, sua moradia regularizada, num terreno invadido, numa região onde a autoridade pública opta por dar essa regularização e colocar alguns equipamentos urbanos por ser mais fácil e de menor custo, está na verdade sendo tão vítima da circunstância da sua vida quanto da ausência de políticas públicas ao longo da história do país que impediu o crescimento e o desenvolvimento que propiciasse educação, saúde, condições de igualdade de oportunidade para cada um. E isso se aplica ainda ao tempo presente. Sem perspectiva palpável de mudança imediata.
       
       A classe média também tem seu inferno astral.
       
       E ela quem faz tudo certinho. Paga seus impostos, taxas, tarifas com um esforço e sacrifícios tão exaustivos quanto repetitivos ao longo do tempo. A classe média brasileira não tem formação de cidadania (imagine o leitor as demais). Tem a educação básica de sobrevivência num clima de civilidade e urbanidade aprendido dentro de casa, herança da educação dos pais e resquícios de aprendizado escolar básico.
       
       Tal qual a população pobre do país, a perspectiva da classe média tem sido não a de crescer , prosperar,evoluir, mas a de sobreviver. Num patamar um pouco mais digno.
       
       Aparentemente.
        Ter que pagar impostos, por exemplo, para a saúde pública como a CPMF, extinta finalmente em 2007, e ainda necessitar ter um plano de saúde particular, caríssimo, para um atendimento abaixo da expectativa,em geral, é também indigno.
       
       Ter que pagar IPVA, Seguro Obrigatório, pedágios elevados, ser multado a cada esquina (também por deseducação ) e ficar horas e horas no congestionamento, na cidade ou na estrada, é também indigno. Sem mencionar as estradas federais, um verdadeiro risco de acidente a cada metro.
       
       Faz tempo que Einstein provou que tudo é relativo. No Brasil, como existem iguais mais iguais que os outros, até a relatividade é relativa.
       
       É neste clima que nos formamos e formamos novos cidadãos.
       
       Esta é uma das razões pela qual tenho o maior respeito por professores. O fato de ser um no caso é irrelevante, ainda que de meu lado, como professor universitário, tenha também com meus iguais, problemas, anseios, alegrias e frustrações.
       
       Falo agora do professor e da professora do ensino fundamental, do ensino médio. Quem carrega o piano, para usar a expressão popular, nas salas de aula país afora enfrentando todo tipo de adversidade. Ocioso seria relacioná-las agora. Não é este o objetivo deste artigo. O objetivo, como já está claro, é chamar a atenção do Brasil para a necessidade de ações para, pela educação, desenvolver a cidadania já.
       
       Nada poderá ser pensado e feito a respeito se o primeiro passo não for o professor, a professora, a escola, a estrutura de educação e saúde das famílias dos alunos, hoje diversificadas em sua base em função das circunstâncias da vida .
       
       Como presidente do Instituto da Cidadania Brasil, atividade que exerço voluntariamente e com muito orgulho, dentro de uma parceria com a Secretaria da Educação do Estado de São Paulo, visito as escolas públicas, notadamente as mais distantes do centro (eufemismo para periferia) onde converso com os estudantes entre 14 e 18 anos sobre cidadania, educação, caminhos, vida, perspectivas, motivando a escola e os estudantes a participar do projeto “Construindo a Nação”. Nessa caminhada, tenho percorrido bairros distantes e diferentes, onde encontro sempre algo em comum : o interesse e a dedicação dos diretores, coordenadores, professores, funcionários, em exercer suas atividades dando o melhor de si.
       
       Não menciono isto por demagogia que não é meu estilo. É por sentir na pele a realidade dura da falta de condições para um ensino que precisa ser decente para todos.
       
       Numa dessas escolas, a título de exemplo, cheguei para falar com os alunos logo após o encerramento da refeição que a escola forneceu naquele dia (macarrão e salsicha) e perguntei à senhora que carregava os bancos para formar um auditório onde eu poderia encontrar a diretora da escola. Era ela.
       
       Aprendi mais uma lição de vida valiosa. Isso depois de recobrar os sentidos pelo fora dado. Livrei-me de vez dos clichês e preconceitos para aprender como é a realidade no “campo”. Esse é um só exemplo.
       
       Em um único semestre de visita a essas escolas (ensino médio na ampla maioria; algumas com fundamental e EJA –Escola para Jovens e Adultos) aprendi mais sobre educação no Brasil do que sendo professor universitário e dedicado ao tema.
       
       
       Acrescento aqui que essa experiência riquíssima vai ampliando minha visão na medida em que, também pelo Prêmio Construindo a Nação, tenho visitado os Estados onde já se implantou . Até 2010 pretendemos estendê-lo a todo o país, mediante a parceria que o Instituto da Cidadania Brasil,criador e implantador do projeto, firmou com a Confederação Nacional da Industria, via seu Conselho Temático Permanente de Responsabilidade Social.
       
       Em cada escola, com cada aluno, cada professor, cada pessoa, aprendo um pouco mais sobre a Educação em nosso país e renovo minha energia e interesse em lutar por ela.
       
       Esta luta tem muitas razões. Outra importante é buscar impedir que o padrão de comportamento ético da chamada classe política produza efeitos negativos na compreensão de nossa juventude, de nossa população, do que é o normal, o saudável, o sério, o justo, na vida do país.
       
       O exemplo nocivo que muitas autoridades de diversos níveis e escalões tem oferecido ao país não pode se tornar referência, paradigma, do que seria a missão de quem participa da vida pública. E meu desejo é o de que todos os brasileiros ganhem formação, conhecimento, compreensão,discernimento, do que seja a vida pública e dela participe de forma altiva e certa.
       
       
       “Não dar prioridade à educação é condenar o País a eternos mensalões. O investimento da sociedade precisa ser concentrado nessa formidável massa de brasileiros”
       
       Valorizar os educadores
       A sociedade brasileira precisa voltar-se urgente para dar um novo papel às escolas no processo de formação de nossos cidadãos (para economizar, fique registrado, sempre que eu disser cidadão, aluno, professor, está sub-entendido, sem nenhuma outra conotação que me refiro também às cidadãs, alunas, professoras, etc.).
       É preciso valorizar e preparar os educadores e gestores da Educação frente a novos e complexos desafios. E mesmo os velhos que persistem.
       
       Falar é fácil. Como fazer isso?
       
       Se o Brasil foi capaz de, no ano de 2001, enfrentar e vencer, numa ampla mobilização nacional, o apagão do fornecimento de energia elétrica, por que não pode organizar uma mobilização de toda a sociedade voltada para um projeto educativo para o país de curto, médio e longo prazos, com metas, objetivos, recursos e pleno envolvimento de todos para alcançá-los?
       
       Não se trata de um projeto de governo. Mas de todos os brasileiros independente de cor partidária ou grupo de poder.
       
       É uma mobilização de todos os segmentos que formam a sociedade brasileira em favor da educação. Acima da disputa pelo poder. Certamente, governar um Brasil mais educado, mais próspero, mais desenvolvido, com melhor qualidade de vida, é desejo do político responsável.
       
       Por que não acontece nada nem parecido com isto?
       
       Porque a própria sociedade brasileira ainda não se conscientizou, na profundidade e comprometimento exigidos, que é preciso dar à Educação prioridade absoluta .
       
       Porque aos detentores do poder, não importa quais, não interessa, até pela falta de pressão da sociedade, mudar a situação existente porque ela gera os votos dos mais humildes, dos necessitados, dos incapazes de discernir.
       
       É preciso romper o circulo vicioso que começa justamente na falta de informação, de alfabetização completa, de conhecimento do jogo político, por parte da maioria da massa brasileira.
       
       As lideranças brasileiras, políticas e/ou empresariais, que já entendem ser necessário investir maciçamente na Educação e de forma supra-partidária, precisam se unir para empolgar o país na formação de um grande projeto nacional, pertencente a todos, a cada brasileiro.
       
       Outro aspecto de enorme relevância que tem ficado evidente no contato que o Prêmio Construindo a Nação propicia a quem se envolve no projeto é a importância do relacionamento da escola, dos alunos, e, por extensão, da própria sociedade , com as comunidades onde as escolas estão situadas.
       
       Constato com freqüência que quanto mais carente é a comunidade, quanto mais distante é o município, mais próxima a escola é da comunidade. O esforço para essa aproximação é visível por parte das escolas quando a comunidade é retraída ou mais afastada geograficamente. A necessidade da sobrevivência de ambos, escola e comunidade, é um fator de aproximação e ainda que seja por interesse, traz um resultado prático útil para as duas partes que se beneficiam da conjugação de esforços e interesses.
       
       Em muitos casos, e exemplos palpáveis, existem escolas destacadas pelo Construindo a Nação, onde os alunos realizam feiras e exposições envolvendo a produção decorrente de matéria-prima da região, gerando receita para a escola e seus alunos/famílias participantes.
       
       Em São Paulo, maior cidade do país, na periferia da capital, as escolas públicas possuem um maior envolvimento com as comunidades geralmente carentes do que as situadas em bairros mais desenvolvidos. Em contra partida flagrante, é raro o envolvimento de comunidades onde estão situadas escolas particulares .
       
       A experiência tem revelado que as instituições de ensino fundamental e médio da rede pública, em todo o Brasil, têm um grau de amadurecimento em relação ao envolvimento da própria escola com a sociedade, a partir de sua comunidade,maior do que a rede privada.
       
       As escolas particulares giram muito mais em torno do mundo de cada uma. São mais isoladas e menos abertas para a participação de pais, amigos, vizinhos, no encaminhamento de suas questões,sejam elas positivas ou negativas.
       
       Aqui não há juízo de valor. Não questiono se isso é melhor ou pior, certo ou errado. Constato apenas uma realidade da educação no Brasil. Por óbvia necessidade as escolas públicas são mais abertas, envolvem-se mais e as particulares são mais fechadas. Isso produz, para o aluno da escola particular, um degrau de distanciamento a mais em relação ao aprendizado do que é a efetiva realidade brasileira. Os alunos das escolas públicas estão em contato direto com essa realidade. Certamente, o mundo, o Brasil, como são de verdade, estão fora da realidade circunstancial do universo interno das escolas particulares, por melhor que seja sua qualidade de ensino. Tem-lhes faltado a “humildade” de expor seus alunos à crueza do dia-a-dia que cerca milhões e milhões de alunos que estudam em escolas com recursos materiais e realidade comunitária mais carentes.
       “Os meios de comunicação deveriam dar mais atenção ao processo educativo do povo brasileiro”.
       
       A participação da Mídia no processo educativo do país.
       Entendendo a mídia como o conjunto dos meios de comunicação de massa,abrangendo rádio, televisão, revistas, jornais, Internet e outros segmentos, confesso de público minha divisão interna em relação ao trabalho por esses veículos desenvolvido. Comecei minha vida profissional, em 1971, como repórter de uma emissora de rádio em São Paulo (Jovem Pan) .Por dez anos seguidos estive em emissoras de rádio e de televisão e no jornal Folha de São Paulo . No Diário do Comércio de São Paulo escrevo desde 1982.
       
       Assim, senti na carne as limitações (e penalidades) do período em que a censura prevaleceu no Brasil. Durante os governos militares, até o início da “distensão lenta e gradual” promovida pelo então presidente militar, general João Figueiredo, após um início tímido na gestão do general Ernesto Geisel , houve dura censura à imprensa (à toda a mídia) brasileira. Vivenciei isso. Os detalhes hoje já são parte do amadurecimento na vida.
       
       O importante, todavia, de se destacar é que após cerca de duas décadas com as janelas fechadas, sem entrar luz nas redações, houve a abertura e o sol ofuscou um pouco a visão da mídia que, ainda hoje, tenta se encontrar, encontrar a melhor forma de cumprir sua missão.
       
       No aspecto da informação, da denúncia, da combatividade, a mídia brasileira, de um modo geral e com as ressalvas de praxe, tem sido excelente. Em meu modo de ver, ainda há certo embaçamento quanto ao papel formador da mídia. São poucos os veículos que dão espaço para essa importante questão de formação cultural, intelectual, social, da população brasileira.
       
       A importância e a influência da mídia, especialmente a televisão, sobre as camadas mais populares dos brasileiros é inquestionável. O rádio também tem esse papel, numa menor escala. O rádio é mais útil na prestação de serviços. A televisão é mais entretenimento e notícia e, também, em muitos casos, má formação, por estimular programação de nível popularesco, medíocre, que nada acrescenta na formação do caráter das pessoas, certamente, os mais jovens em primeiro lugar.
       
       Não vou entrar na discussão das questões pertinentes ao amplo tema comunicação de massa. Não posso, entretanto, como jornalista profissional da ativa que já trabalhou e trabalha em veículos de alta respeitabilidade, deixar de mencionar que se existe boa vontade em relação à educação, cultura, formação, inexistem ações mais concretas pela dominação do interesse da resposta imediata de audiência, patrocínio e sustentação. Certamente sei que sem isso não existiria mídia. Poderia ser apenas estatal, dominada pelo grupo de poder que estivesse instalado no Planalto. Há governos que tentam se impor aos veículos de comunicação, pelo controle da publicidade oficial que é vultosa.
       
       É preciso que a iniciativa privada invista e muito em propaganda, publicidade, nos veículos de comunicação, para não deixar as emissoras e os jornais e revistas, etc. sob influência perniciosa do dinheiro público destinado à propaganda oficial.
       
       É preciso que a mídia em geral, dentro dos conceitos do regime de liberdade de mercado que está consagrado na Constituição, possibilite o maior acesso de diversificados anunciantes para não se tornar refém de patrocinadores.
       
       É preciso, como forma de garantir sua sustentabilidade, perenidade, sem se submeter a controles externos de verbas oficiais ou poucos grupos anunciantes, que a mídia vença sua etapa atual de não abrir espaço informativo às ações empreendedoras da sociedade civil na proporção necessária para formar cidadãos decentes e, indo além, informar ao Brasil que há muita gente, fazendo muita coisa boa, em contraponto ao contingente de maus brasileiros que estão sugando a riqueza e as entranhas nacionais em favor próprio.
       
       O papel da comunicação de massa para mudar a mentalidade e ajudar a formar um caráter nacional que seja justo, equilibrado, ético, e não “macunaímico” é decisivo. Mas a pressão do resultado cotidiano ainda faz com que o papel formativo e educativo seja tímido.
       
       Ouço aqui e ali de colegas jornalistas que o interesse é pela audiência e se oferece ao público aquilo que dá audiência. É uma velha tese que minha ida ao “campo”, ao contato direto com nossos estudantes, desmente. Críticas ao conteúdo e à “moralidade” de nossa programação, falando genericamente, são formuladas pelos estudantes adolescentes com maturidade e precisão.
       
       Recomendo aos interessados montar grupos de estudos, de discussão, entre especialistas nessa arte e estudantes das escolas de todo o país para ouvi-los sobre mídia e mesmo sobre o país em geral. Vão se surpreender com os resultados positivos. E vão perceber como a mensagem que a mídia está enviando é aquém das expectativas de quem deseja ,pela educação,mudar sua vida e o Brasil.
       Como tenho sempre a preocupação em não ser injusto, ressalto que há quem faça programas educativos e formadores, de qualidade e no geral existe preocupação, repito , com a questão.
       
       Entre o que se faz e o que o país necessita, há ainda uma longa distância a ser percorrida.
       
       “Está mais do que na hora (como se diz em casa com as crianças) dos nossos políticos e governantes criarem vergonha na cara.O STF pode e deve ajudar nisso”
       
        Comportamento ético da classe política e seus efeitos no do cidadão comum.
       
       Chamei a atenção em editorial publicado em outubro de 2007 (Indecência Generalizada) a respeito do desvirtuamento dos valores que reduz a ação cidadã dos integrantes da chamada vida pública à uma defesa de seus interesses próprios, fornecendo maus exemplos para a sociedade em geral. A partir desse tipo de comportamento comum dos que exercem cargos relevantes, perdeu-se também na própria sociedade o constrangimento para qualquer tipo de infração que vise o ganho fácil, rápido, sem risco. Ou melhor, com risco somente para o erário.
       
       No Brasil contemporâneo espalhou-se de tal forma o conceito de que tudo é permitido que as pessoas que trabalham e levam a vida cumprindo suas obrigações, mesmo quando seus direitos são tolhidos de forma truculenta, acomodam-se no conformismo de achar que “é assim mesmo”.
       
       Sempre combati o “jeitinho brasileiro”. Tenho dito enfaticamente que essa questão de nos orgulharmos de sermos capazes de “levar vantagem” é um tiro no pé. Se alguém leva vantagem, alguém perdeu um direito ou uma possibilidade.
       
       Voltemos à Constituição. A essência da construção de um país mais justo, mais equilibrado, passa pela igualdade de todos perante a lei e pela igualdade de oportunidades .
       
       Não deve haver diferenciação. Todo ser humano é igual e novamente recorro à nossa Lei Maior lembrando o mencionado na abertura desse artigo de que não deve haver preconceito de qualquer natureza.
       
       Nossos governantes são os primeiros a violar essa regra básica ao instituir a discriminação, criando categorias raciais com cotas e pré-condições numa distinção de cor que desiguala os brasileiros.
       
       Em vez de oferecer a propalada igualdade de oportunidade para todos, opta de forma eleitoralmente demagógica por criar segmentos apartados carimbando-lhes uma desigualdade de natureza que a Constituição nacional proíbe.
       
       “Não há um dia sequer que termine sem que deixe de ser noticiada uma “novidade” no campo da ousadia criminosa. O que há com o Brasil, afinal, onde não existe mais constrangimento, pudor ou ética?”
       
       
       O poder e os valores
       
       O comportamento de nossa elite dirigente, ainda que parte ponderável dela possa ser de origem humilde, é a de enxergar na massa, especialmente a votante, um contingente de apoio que será perene quanto mais depender dos favores do poder público, especialmente, de programas de governo que garantem a subsistência miserável, tornando permanente o estado de dependência e pobreza.
       
       Faço essas observações baseado em mais de trinta anos de jornalismo e contato com governantes, políticos, membros de organizações e entidades sejam de que natureza forem. Na teoria todos são favoráveis à educação, mas na prática, a prioridade que se atribui ao tema é a de manutenção da situação para fins de não engajamento nem questionamento eleitoral.
       
       Parte da culpa por essa situação que, somada ao “jeitinho brasileiro”, mantém os grilhões pesados que impedem o gigante brasileiro de andar a passos mais rápidos e firmes, é da chamada iniciativa privada que, igualmente, preocupada (até nem tiro essa razão) com os resultados imediatos dos empreendimentos (sim ,sou amplamente a favor do lucro que gera investimentos, empregos, impostos, etc.) não vislumbra uma necessidade de a médio e longo prazos formar novos cidadãos capazes de gerar sua própria renda e se tornarem consumidores sem dependências, visando fazer a economia girar .
       
       Atitudes vindas de governantes e políticos, que desvirtuam as finalidades sociais efetivas, contaminam muitas vezes o mundo dos negócios (ou vice-versa se os governantes forem “suscetíveis”, como quase sempre são) e são determinantes na formulação das políticas internas das empresas em relação aos seus investimentos e comportamento público. São obrigadas a se adaptar aos mandamentos de plantão e os exemplos, normalmente, não são construtivos.
       
       Como fica o cidadão, a cidadã, o estudante, a estudante, o aposentado, a aposentada, o trabalhador, a trabalhadora, o empresário, a empresária,de qualquer nível , que diante de um quadro confuso, onde inclusive, a violência urbana exerce pressão , perdem a noção do que é de fato certo ou errado?
       
       Enquanto a maioria silenciosa da classe média em suas ramificações econômicas, pasma, assiste e paga a conta, sem perceber, o seu nível de discernimento ,de indignação, vai se esvaindo, porquanto a repetição infinda de atos desabonadores no seu cotidiano a faz acreditar que aquilo é o normal, é o certo , para sobreviver.
       Que inversão perversa de valores.
       
       A proliferação dos maus exemplos, que tendem a se estender como um organograma esquematizado, viram referencial do tipo salve-se quem puder. E muita gente não entende porque o Brasil não evolui no aspecto da melhoria da qualidade de sua representação e a situação chega a ponto de até o leite ser adulterado. O crime não tem limites quando sabe que não haverá punição e/ou as leis o favorecem.
       
       Quando os governantes, os políticos, os magistrados (alegando cumprimento estrito da lei) são tíbios, condescendentes, apadrinhadores, coniventes e em alguns casos já comprovados, cúmplices, não há cidadão ou cidadã comuns que não sejam influenciados de forma negativa.
       
       Evidentemente, como já mencionei, essas opiniões são fruto de anos e anos de vivência e não contém o dom de serem a verdade absoluta,mas a impressão resultante de experiências repetidas.
       
       
       A apatia que decorre de todo esse quadro sobre a possibilidade de as pessoas comuns se interessarem por participar da vida política do país, é alarmante. Usei a expressão apatia para ser educado. Há verdadeira ojeriza, repúdio.
       
       O que favorece aos interesses de quem com má-fé se vale da política.
       Favorece quem, para atender aos seus próprios interesses, prejudica o país porque este não forma novas gerações capazes de entender como funcionam (ou deveriam funcionar) as instituições e se afastam da participação.
       
       Como se diz popularmente fiquei rouco de tanto ouvir negativas e algumas até ofensivas, ao perguntar a milhares de pessoas, em diferentes públicos de diferentes auditórios, em todo o país, quem gostaria de participar de um partido político, de ser candidato a cargo eletivo , ingressar na vida política do país.
       
       Unanimidade nacional, “Deus me livre” ganhou de “não me meto nessa coisa suja” e de “não sou louco nem ladrão”.
       
       A pergunta “para que serve um Senador, um Deputado Federal”, só não teve a resposta “para roubar”, em auditórios onde havia maior cerimônia, mas os entreolhares não escondiam a vontade do desabafo, embora não totalmente verdadeiro.
       
       Até papel de advogado do Congresso e dos políticos e governantes em geral tenho que fazer, primeiro porque a generalização é injusta e segundo porque a população precisa de fato aprender para que serve, como funciona a instituição Brasil e começar a participar. Parte do meu trabalho apostolar de percorrer as escolas para falar aos estudantes em início de idade eleitoral tem esse caráter didático não partidário.
       
       Resumindo esse ponto: a influência do cotidiano brasileiro, pautado na infração,na impunidade, na manutenção das pessoas na ignorância e na ausência de projetos educativos desenvolvimentistas, no favorecimento aos interesses eleitorais imediatos, cria um circulo vicioso danoso ao Brasil que precisa ser rompido pelos investimentos maciços na Educação, seja a alfabetizante, seja a de conhecimento.

Paulo Saab
Professor dos cursos de pós-graduação da Fundação Armando Alves Penteado- FAAP, renomada instituição acadêmica paulista e articulista regular do Diário do Comércio de São Paulo. Preside o Instituto Brasileiro de Desenvolvimento da Cidadania -Instituto da Cidadania Brasil que, em parceria com a Secretaria Estadual de Educação, desenvolve programa de formação para o exercício da cidadania em escolas do ciclo básico.

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