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Ano IV - n. 17 - julho / setembro, 2012

 
A Dama de ferro, o Oscar e o Brasil

Luiz Alberto Machado *

       Estado grande X Estado forte
       
        Luiz Alberto Machado
       
       
       “Olhando bem nos meus olhos, ela disse que seria muito razoável na conversa com o presidente [Reagan], desde que eu consiga o que eu quero. Flexibilidade era uma palavra quase tão odiosa para a primeira-ministra quanto magnanimidade.”
       Nicholas Henderson
       (embaixador britânico)
       
       Como milhares de brasileiros, fui dormir mais tarde na noite do último domingo de fevereiro, a fim de acompanhar a entrega do Oscar. E fiquei particularmente feliz com a escolha de Meryl Streep como melhor atriz em razão de seu estupendo desempenho no papel de Margaret Thatcher. Confesso que o filme em si não me agradou tanto, mas a atuação de Meryl Streep fez com que muitas vezes fosse impossível imaginar que os espectadores não estivessem diante da própria “Dama de Ferro”.
       Embora não tenha ficado tão impressionado com o filme, não há dúvida de que há momentos fantásticos nele, especialmente para se fazer uma comparação sobre o comportamento de figuras públicas dos dois países. A cena de Margaret Thatcher comentando o aumento do preço do leite e a cena da conversa dela com o filho – morando na época na África do Sul – quando ele afirma que não poderia ir à Inglaterra porque o custo da viagem comprometeria seu orçamento, mostram bem como são diferentes as atitudes das lideranças políticas dos dois países. Já imaginaram quantos políticos brasileiros têm noção do preço do leite? E já imaginaram o filho de algum integrante do primeiro escalão deixar de atender a um convite por causa do preço da passagem?
       O filme me fez recordar a palestra proferida por Margaret Thatcher em São Paulo, pouco depois de ter deixado o cargo de primeira-ministra. Na ocasião, ela falou com absoluta convicção a respeito de sua experiência e das mudanças que havia promovido no Reino Unido, dando ênfase aos processos de privatização e de desregulamentação, ao enfrentamento dos sindicatos e ao temor quanto ao futuro da moeda única.
       Embora muitos anos tenham se passado, há trechos da referida palestra que são ainda muito oportunos para a atual realidade brasileira, que apresenta uma série de inegáveis avanços na comparação com alguns anos atrás, mas revela ainda problemas que justificam ainda a denominação de potência do futuro.
       A propósito – e tendo em conta que a situação poderia ser pior, como nos mostra a realidade argentina – vale lembrar uma frase inteligente de Roberto Macedo, ex-secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda e atual assessor da diretoria da Faculdade de Economia da Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP): “Enquanto a Argentina sonha com um passado que não volta, o Brasil sonha com um futuro que não chega”.
       À medida que o tempo vai passando, vejo o Brasil cada vez mais perto do futuro sonhado e a Argentina mais longe do passado brilhante.
       
       Foi exatamente falando sobre esse aspecto que Margaret Thatcher iniciou sua palestra no auditório lotado do hotel Maksoud Plaza, naquela tarde de 1994:
       
       Quando visitamos um país pela primeira vez – e no meu caso, esta é a primeira vez que venho a este continente – carregamos conosco nossa bagagem intelectual e emocional. E para uma ex-primeira-ministra, este poderá ser um fardo pesado. Vejo este extraordinário país – o quinto maior do mundo em extensão territorial e o sexto mais populoso – sob o ponto de vista dos meus onze anos e meio de experiência em Downing Street, 10. E fico surpresa tanto pelas semelhanças como pelas diferenças entre a situação que herdei em 1979 e a do Brasil em 1994, quinze anos depois.
       
       Primeiramente, falaremos das desalentadoras semelhanças. Há o problema da inflação – embora a sua seja muito mais grave do que a nossa o era; problema da tomada excessiva de empréstimos pelo governo e da dívida pública acumulada – nesse ponto também as coisas aqui se deterioraram muito mais do que na Grã-Bretanha sob meus antecessores; e o problema do controle exagerado do Estado sobre o setor industrial – e nesse ponto eu estou ciente dos progressos sendo feitos pelos senhores através das privatizações.
       
       Porém, existe uma diferença crucial entre o momento histórico em que nós britânicos começamos a atacar seriamente nossos problemas econômicos e o atual momento brasileiro. Na Grã-Bretanha há 15 anos havia um cinismo em relação ao futuro do nosso país, beirando mesmo o desespero. Predominava o sentimento de que o nosso destino era o declínio; não apenas um declínio econômico relativamente aos países vizinhos e concorrentes, mas um sentimento de declínio absoluto, trazendo consigo uma deterioração do padrão de vida e amargos separatismos sociais. Ou seja, nós já começávamos a aceitar nossa decadência.
       
       Sentimentos desse tipo não existem no Brasil. As altas taxas de crescimento econômico que o Brasil vem obtendo há vários anos demonstram que, apesar de algumas políticas econômicas falhas, existe uma imensa força subjacente neste país. A economia brasileira não é apenas a maior da América Latina, mas é também a décima do mundo. O sucesso do setor privado brasileiro é excepcional, conseguido através do talento empresarial associado ao trabalho árduo tradicional. Todas estas diferenças podem ser resumidas em uma única palavra – “potencial”. O Brasil e o mundo sabem que este país é uma superpotência econômica em potencial. Em contrapartida, seria justo afirmar que, quando assumi o governo em 1979, muitos, ou pelo menos a maioria dos especialistas já consideravam a Grã-Bretanha um fracasso. Nossa obrigação era provar o contrário.
       
       A esperança não é apenas uma das três virtudes teológicas: ela é também um excelente recurso quando precisamos entusiasmar toda uma população a respeito de medidas que garantam o futuro a longo prazo de um país. Não é preciso muito tempo aqui no Brasil para se perceber que, apesar das desilusões e das dificuldades, este é um lugar onde a esperança surge espontaneamente.
       
       Mas otimismo também tem seus perigos. Ele pode impedir a adoção de medidas dolorosas e sua continuação até que produzam resultados. No Brasil, a economia teve um bom desempenho, até mesmo quando as finanças do país foram mal gerenciadas. E por esta razão, acho até que muitos preferiam acreditar que a imensidão deste país e seu dinamismo seriam suficientes para se produzir sucesso duradouro.
       
       E, além disso, durante muitos anos não faltaram economistas, “desenvolvimentistas”, prontos para nos explicar que todas as dificuldades dos países em desenvolvimento eram causadas ou por acontecimentos mundiais imprevisíveis ou pelo egoísmo dos países ricos. Outra contribuição feita por tais especialistas foi fomentar a adoção de quase todas as medidas que hoje consideramos auto-destrutivas: a criação de barreiras tarifárias; controles sobre participações e investimentos estrangeiros; estatismo; direcionamento do setor industrial por parte do Estado e manipulação dos preços agrícolas. O surpreendente é que tantos países em desenvolvimento tenham se saído relativamente bem, apesar das políticas econômicas que vigoraram por tantos anos.
       
       Sei que também falo pelos brasileiros quando digo que este país merece ser mais do que apenas um eterno “potencial”. O Brasil é o país do futuro, mas para tanto é preciso decidir que o “futuro” é amanhã, e não um momento longínquo do porvir. E, como bem sabem, isto significa que as decisões difíceis têm que ser tomadas hoje.
       
       
       Encerrada a palestra, ela se dispôs a responder algumas perguntas. A primeira delas, feita por um empresário de enorme prestígio, foi antecedida de um prolongado preâmbulo a respeito das diferenças entre o Reino Unido e o Brasil, um país em desenvolvimento. Concluído o preâmbulo, o empresário perguntou se em função de tamanhas diferenças ela não achava que seria necessário um Estado mais atuante no Brasil?
       Sem esconder uma ponta de irritação, Margaret Thatcher respondeu que ele não devia ter entendido nada da palestra, pois ela jamais havia defendido a ideia de um Estado pouco atuante. Em lugar disso, afirmou: “defendo um Estado pequeno e forte e o que me parece é que o que vocês têm no Brasil é exatamente o inverso, ou seja, um Estado grande e fraco”.
       Ao me lembrar dessa passagem, tenho a firme sensação de que se passaram muitos anos, mas a observação de Margaret Thatcher permanece mais atual do que nunca, num país que possui 37 ministérios e despesas improdutivas sendo realizadas em larga escala pela máquina pública, obrigando o governo e as empresas estatais a cortarem investimentos, em clara contradição com o discurso de posse presidencial, quando Dilma Rousseff afirmou que “um fator importante da qualidade da despesa é o aumento dos níveis de investimento em relação aos gastos de custeio”.
       
       O que fica evidente no comportamento de nossos governantes – e não me refiro especificamente aos atuais governantes – é a completa falta de convicção com que tomam decisões fundamentais para a população de suas cidades, seus estados ou do país. Retrato de uma época caracterizada por uma política de coalizões e governos de coligação, em que os partidos deixaram de ter qualquer fundamentação programática, como é o caso dos partidos norte-americanos, ou ideológicos, como foram por muito tempo os partidos europeus.
       No caso de Margaret Thatcher, isso não acontecia por duas importantes razões. A primeira ligada às convicções pessoais da Dama de Ferro. A segunda, ao sistemático respaldo de thinktanks que ela fez questão de valorizar antes e ao longo de seus mandatos.
       O interessantíssimo livro Reagan e Thatcher: uma relação difícil, de Richard Aldous (Record, 2012), cuja leitura recomendo vigorosamente, aborda esses dois aspectos, com os quais encerro o presente artigo.
       Sobre suas convicções ela jamais deixou qualquer dúvida. Recém-eleita primeira ministra, ela discursou numa reunião do Congresso norte-americano realizada no plenário do Senado em dezembro de 1979. De forma incisiva, como era habitual, ela empolgou os presentes ao responder perguntas sobre economia (p. 35):
       
       A estratégia é reduzir o papel do Estado em favor do papel do cidadão, primeiro reduzindo os gastos públicos, o que é difícil, mas necessário; e, em segundo lugar, começando a dar incentivos aos indivíduos. A Grã-Bretanha se tornou uma sociedade que mais distribui riqueza do que a gera. É preciso lembrar que os governos não criam riqueza; quem cria riqueza é o povo.
       
       Sobre o papel dos thinktanks, Margaret Thatcher afirma ter tido um apoio fundamental de pelo menos três deles, o Centre for Policy Studies (CPS), o Adam Smith Institute e o Institute of Economic Affairs, este último fortemente influenciado pelas ideias de Friedrich Hayek, o economista austríaco laureado com o Prêmio Nobel em 1974.
       Alfred Sherman, um dos fundadores do CPS, declarou em 1975 que a tarefa era “conquistar círculos de formadores de opinião e de políticos para uma visão de causa e efeito em questões sociais com referências práticas ao papel do mercado e à natureza contraproducente da maior parte da intervenção do pós-guerra” (p. 33)
       Mais tarde, em 1985, diante de comentários de que Margaret Thatcher não era uma pensadora política original na mais plena acepção do termo, Sherman afirmou (p. 34):
       
       Ela é uma consumidora de ideias, ela as usa, ela as aplica. Isso não é algo singular, mas é raro, principalmente numa Grã-Bretanha que, nos últimos séculos, simplesmente adquiriu uma tradição anti-intelectual e filisteísmo. Não era assim. Na era vitoriana, os políticos eram pessoas de ideias: Disraeli, Gladstone, Peel, Salisbury. O filisteísmo é um processo bem recente – coincide com o declínio da Grã-Bretanha.
       
       Que diferença com o Brasil de hoje!
       
       
       Referências
       
       ALDOUS, Richard. Reagan e Thatcher: uma relação difícil. Tradução de Dinah de Abreu Azevedo. Rio de Janeiro: Record, 2012.
       
       BOSCOV, Isabela. A leoa no inverno.Veja, 22 de fevereiro de 2012, pp. 94-97.
       
       GARFINKEL, Bernard. Margaret Thatcher. São Paulo: Nova Cultural, 1987. (Os Grandes Líderes)
       
       SAKATE, Marcelo. Gasto sem qualidade.Veja, 22 de fevereiro de 2012, pp. 56-57.
       
       THATCHER, Margaret. Os desafios do século XXI.São Paulo: Instituto Liberal, Série Ideias Liberais, N° 7, Ano I, 1994.
       
       Referência cinematográfica
       
       Título: A Dama de Ferro (The Iron Lady)
       Direção: Phyllida Lloyd
       Roteiro: Abi Morgan
       Produção: Inglaterra/França, 2011
       Distribuidora: Paris Filmes
       Gênero: Biografia e Drama
       Elenco: Meryl Streep, Jim Broadbent, Richard E. Grant, Harry Lloyd, Anthony Head, Roger Allan, Olivia Colman, Susan Brown, Alexandra Roach
       Duração: 105 minutos

Luiz Alberto Machado
Diplomou-se em economia, em 1977, pela Mackenzie, que se situa entre as mas conceituadas universidades da capital paulista. Especializou-se em Desenvolvimento Latino Americano, na Universidade de Boston (Estados Unidos). Vice-Diretor e Professor Titular da Faculdade de Economia da Fundação Alves Penteado (FAAP). Conselheiro do Instituto Fernand Braudel de Economia Mundial , sediado em São Paulo.

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