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Ano III - n. 10 - outubro / dezembro, 2010

 
A eleição presidencial de 2010: a sétima face de Lula

Rubens Figueiredo *

       Para entender o processo de sucessão do presidente Lula é preciso entender o que foi o governo Lula. Multifacetado, midiático, escandaloso, coincidente com uma forte expansão econômica mundial (até 2008), redutor da pobreza, associado ao que existe de mais atrasado no mundo em termos de política externa. O governo Lula atuou em tantas frentes, empunhou tantas bandeiras, atirou em tantas direções, imiscuiu-se em tantos assuntos (de Honduras ao Oriente Médio...), fez tanta “auto propaganda”, justificou-se tanto, que só é possível compreendê-lo utilizando-se categorias de análise capazes de enquadrá-lo em suas múltiplas dimensões.
       
       Para tanto, a idéia é dividir a atuação do governo em seis esferas ou faces: a conservadora, a popular, a subterrânea, a operacional, a egocêntrica-teatral e a controladora. Como resultado dessa metralhadora giratória de iniciativas, emerge uma situação político-econômica-social e a imagem de um presidente que se aproxima do plano mitológico Este quadro representa o pano de fundo das eleições de 2010, na qual os atores políticos se movimentaram.
       
       As seis faces: o conservadorismo
       
       Podemos chamar a primeira face de conservadora. Lula, desde 2001, e ao contrário do que propugnou em toda sua carreira sindical e política, emitiu sinais de respeito e profunda consideração àquilo que a esquerda costuma chamar desairosamente de “mercado”. Após atacar com toda virulência e durante anos a política “neoliberal” de seu antecessor, Fernando Henrique Cardoso, Lula resolveu assinar um armistício com a livre iniciativa e as práticas “burguesas”.
       
       Já em 2001, Lula divulgou a “Carta ao povo brasileiro”, na qual se comprometia a respeitar contratos e honrar a dívida pública. Também inovou no plano político. Escolheu para vice presidente ninguém mais ninguém menos que José Alencar, empresário então filiado ao Partido Liberal – mais uma heresia para os padrões petistas. Não satisfeito, foi buscar, para alçar à condição de presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, marcado com um duplo pecado original: banqueiro e deputado eleito pelo arquiinimigo PSDB. Para ministro da Fazenda, ao invés de adeptos da economia planificada e da socialização dos meios de produção, Lula destacou o médico e ex-prefeito de Ribeirão Preto, Antonio Palocci, político que se caracteriza pela ponderação e bom senso, que logo conquistou a confiança e excelente trânsito junto aos meios empresariais.
       
       No plano da política econômica, Lula mantém a ortodoxia do demonizado “Consenso de Washington”, uma severa combinação de busca de altos superávits primários, juros estratosféricos, câmbio flutuante e rígida perseguição das metas inflacionárias. Embalado por um período de espetacular vigor da economia mundial, o Brasil cresce a taxas robustas. Através de malabarismos mentais, argumentos enviezados e uma monumental capacidade de comunicação, Lula esquiva-se de admitir a adoção das linhas principais de seu antecessor na condução da economia – e toma como produto exclusivo do petismo-lulismo os bons resultados nesta área.
       
       A face popular: o Bolsa, crédito e salário mínimo
       
       A segunda face é a popular. Apostando no mercado interno, Lula reúne, sob um mesmo rótulo, uma série de programas sociais dispersos e lança, já em 2003, o Bolsa Família, que em meados de 2010 atingia 12,4 milhões de famílias, algo em torno de 50 milhões de pessoas. Entre 2002 e 2006, o orçamento do programa salta de R$ 570 milhões para R$ 7,5 bilhões (1). Além disso, programas de Benefícios de Prestação Continuada atingem cerca de 3,1 milhões de pessoas (2- O Estado de S. Paulo).
       
       O Bolsa Família mostrou-se uma extraordinária catapulta eleitoral. Pesquisas realizadas no primeiro turno de 2006, mostravam que a intenção de voto em Lula saltava de 39%, na média, para 62%, quando o entrevistado participava de algum programa do governo federal. Em 2010, em pequenas cidades cidades do Nordeste no qual o alcance do Bolsa Família girava em torno de 80% da população, a candidata do PT, Dilma Roussef, chegou a atingir percentuais de votação bastante semelhantes ao número de cidadãos beneficiados.
       
       No primeiro turno de 2010, os dados mostraram que quanto maior a presença do Bolsa Família num município maior a votação de Dilma Rousseff. Em comentário publicado no jornal O Estado de S. Paulo (2), o jornalista José Roberto de Toledo, baseado em dados do governo federal, afirmou que em cerca de metade dos municípios brasileiros o Bolsa Família atende ao menos um terço das famílias. Pois bem, nestes municípios, a candidata do PT obteve, no primeiro turno, nada menos do que dois terços dos votos válidos, contra 24% de Serra e 10% de Marina. Estes 2623 municípios correspondiam em 2010 a pouco menos que 25% dos votos válidos para presidente da República.
       
       Os exemplos de Toledo são esclarecedores. Em Rodeio, Santa Catarina, cidade na qual o Bolsa Família chega a 2% das famílias, Serra bateu Dilma por 56 a 36%. Em Ouro Branco, Alagoas, município no qual o Bolsa Família atinge 77% das famílias, Dilma bateu Serra por incríveis 80 a 15%. Em Inajá, Pernambuco, a diferença foi ainda maior: o alcance do Bolsa Família era de 85% e Dilma superou o candidato tucano por 88% a 9%. Embora estes dados não comprovem a relação causa-efeito, é difícil imaginar qual hipótese seria mais viável do que a associação Bolsa Família-voto no candidato do lulo-petismo.
       
       Paralelamente, o governo lança o crédito consignado que, ao realizar descontos na folha salarial dos trabalhadores, reduzia o custo dos empréstimos (visto que a taxa de risco aproximava-se de zero) e estimulava o consumo. Para se ter uma ideia do que aconteceu nesta seara, o total de operações de crédito aumentou de R$ 327 bilhões em 2000 para R$ 1,4 trilhão em 2009 (3). Ainda no plano de dinamização da economia popular, Lula inicia um processo de recuperação do valor do Salário Mínimo, que tem um aumento real de 24,25% entre 2003 e 2006 (4).
       
       Como conseqüência da conjunção dos resultados do Bolsa Família, Benefícios de Prestação Continuada, crédito consignado e aumento real do salário mínimo, cerca de 25 milhões de brasileiros subiram de classe social e houve um verdadeiro “estouro” no consumo. Brasileiros de baixa renda passaram a comprar celulares, eletrodomésticos e até a viajar de avião. Nas pequenas cidades do Nordeste do país, assistiu-se a uma movimentação econômica sem paralelo, motivada pela entrada no mundo do consumo de milhões de brasileiros.
       
       A classe C, considerada aquela cuja renda familiar oscila de R$ 1.126,00 até R$ 4.854,00, passou a ser a maioria. Em 2003, 37,6% da população enquadrava-se neste perfil. Em 2009, eram 50,4%. Na classe E, renda familiar menor do que R$ 705,00, a percentagem diminuiu de 28,1% em 2003 para 15,3% em 2009. O consumo das famílias mais que dobrou: saltou de R$ 1.053 bilhão em 2003 para R$ 2.201 bilhões em 2009 (5).
       
       A reativação econômica diminuiu o desemprego. Na tabela abaixo, é possível avaliar a taxa de desemprego brasileira comparada a de alguns países desenvolvidos, entre 2006 e meados de 2010. Como se percebe, o Brasil foi o único país que assistiu a diminuição do desemprego no período considerado. Na Espanha, o desemprego mais que dobrou em três anos e meio. Em agosto de 2010, apenas o Japão apresentava índice de desemprego menor que o brasileiro.
       
       Tabela 1
       Desemprego em porcentagem da força de trabalho

       
       
       
       Nas palavras de Singer (6), “o pulo do gato de Lula foi, sobre o pano de fundo da ortodoxia econômica, construir uma substantiva política de promoção do mercado interno voltado aos menos favorecidos, a qual, somada à manutenção da estabilidade, corresponde nada mais nada menos que à realização de um completo programa de classe” (grifo no original). Lula parece ter criado a via gramsciana-digestiva: ao invés da batalha para ganhar a consciência na guerra ideológica, consumo e comida para ganhar o voto na sobrevivência cotidiana.
       
       A face subterrânea: Estado crescendo
       
       A ortodoxia da política econômica brigou com a filosofia liberal. Disciplina fiscal é uma coisa, mercado ao léu, outra bem diferente. O governo Lula, ao mesmo tempo que flertava com Wall Street de dia, insinuava-se com Havana à noite. Sem alarde, o PT começa a aumentar o tamanho e a presença do Estado em três dimensões: o Estado máquina administrativa, o Estado produtor e o Estado sócio. Depois de um momento de redução do quadro de funcionários públicos, iniciado no governo FHC, a máquina administrativa volta a crescer, como mostram os quadros abaixo. Os gastos com funcionários públicos federais subiram de R$ 75 bilhões no governo Fernando Henrique Cardoso para R$ 164,5 bilhões, ou seja, mais que dobrou em termos nominais (7).
       
       O Estado empresário-produtor igualmente expandiu-se, acompanhado de uma robusta apologia publicitária. Poucas vezes o Brasil assistiu – se é que assistiu alguma vez – a uma idolatria da Petrobrás, Banco do Brasil e Caixa Econômica quanto nos sete anos e meio de governo Lula. O número de empresas públicas e de funcionários estatais também cresceu. Nada menos que 18 novas estatais foram criadas: de 96, em 1999, o Brasil passou a contar com 114 em 2009. A quantidade de funcionários das empresas estatais aumentou de 370 para 460 mil, como resultado principalmente da expansão da Petrobrás, que no ano de 2010 se tornou a quarta maior empresa do mundo (8)
       
       O Estado sócio também avançou. A carteira de investimentos do BNDES cresceu de R$ 14,1 bilhões em 2000 para R$ 93,9 bilhões em 2009. O Estado passou a ter maiores participações num número cada vez maior de empresas. Como resultado desses processos, assistiu-se a um aumento da presença estatal no “share” da economia brasileira: as empresas com capital estatal cresceram em relação às empresas privadas e multinacionais.
       
       A face operacional: usando e abusando do aparelhamento do Estado
       
       O governo Lula trouxe à tona uma discussão vigorosa sobre a ocupação de cargos públicos através de critérios político-partidário-sindicais. Jornais e revistas semanais estamparam amplas matérias discutindo a questão. Como se sabe, no Brasil prevalece o chamado “spoil system”: a coligação vencedora pode trocar – e geralmente troca – todos os cargos de livre provimento. Tal procedimento gera uma profunda simbiose entre os interesses do Estado e os interesses políticos-partidários.
       
       Só na administração direta são nada menos que 21 mil cargos. Nos Estados Unidos, o presidente nomeia menos de 1000 e na França estes cargos não chegam a 500. Dos 21 mil cargos existentes, 2585 são oficialmente integrantes de partidos políticos: 1060 são do PT e 451 do PMDB. Dos 773 cargos mais altos, funcionários com remuneração mensal acima de R$ 7 mil, 66% são do PT e 12% são do PMDB (9). Não por acaso a revista Veja apelidou o PT de “partido polvo”.
       
       Ex sindicalistas em cargos de destaque em ministérios, bancos, empresas estatais ou governos decidiram, em sete anos e meio, o destino de cerca de R$ 1,5 trilhão de reais. Entidades com atuação em áreas mais sensíveis são recordistas no aparelhamento: a Fundação Nacional do Índio (Funai), o Instituto Brasileiro de Meio Ambiente (Ibama) e o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra).
       
       Esse avanço do Estado acompanhado de aparelhamento – ou seja, ao mesmo tempo que cresce a presença, cresce a ocupação pelo petismo-lulismo – não encontra resistência no conjunto da opinião pública. Tudo se passa como se um governo bem avaliado conduzido por um presidente popular e carismático pudessem tudo. Na verdade, o brasileiro comum vê com bons olhos – ou pelo menos é indiferente – ao crescimento estatal. Levado na maré do crescimento econômico e embalado nos ventos de um consumismo sem precedentes, nossos cidadãos não veem porque não aceitar uma economia cada vez mais estatizada e cada vez mais controlada.
       
       Vale a pena transcrever alguns trechos de um editorial do jornal “O Estado de S. Paulo”, intitulado “A politização da Petrobrás” (10). Diz o texto: “ele (Lula) age e fala como se as diretorias das estatais fossem apenas extensão de seu gabinete e não tivessem compromissos com milhões de acionistas”. Segue a diatribe: (Lula) tentou interferir também na gestão de grandes empresas, como a Embraer e a Vale, como se coubesse ao presidente da República orientar políticas de pessoal e de investimentos dessas companhias”.
       
       O petismo-lulismo consegue passar para parcelas expressivas da sociedade uma associação de argumentos que chega a ser diabólica. O que é estatal é do Brasil, e o que é do Brasil é do povo. E como o PT e Lula interpretam e representam os interesses do povo, podem fazer tudo em nome da vontade popular, sem se importar muito com questiúnculas morais ou limites institucionais. No fundo, o petismo-lulismo “é” o povo no poder administrando as estatais, que também são do povo.
       
       A face egocêntrica-teatral: a performance presidencial
       
       No plano do discurso, adotou-se a estratégia da “terra arrasada”. Lula incorporou e passou seus dois mandatos disseminando a tese da “herança maldita”. Segundo este argumento, Lula teria recebido de Fernando Henrique Cardoso um país em frangalhos. Todos os acertos e avanços de 2003 a 2010 não tiveram absolutamente nada a ver com resultados de governos anteriores – e sim são consequência das inovações e providências adotados por seu governo.
       
       É bem verdade que as reações da oposição, PSDB principalmente, à insistência quase diária de Lula e seus ministros em desqualificar o governo de Fernando Henrique Cardoso foram de uma tibieza sem par. É como se o PSDB não tivesse história e se envergonhasse de suas realizações. A implementação do Plano Real, a revolução nas Telecomunicações, a universalização da telefonia, a Lei de Responsabilidade Fiscal e os programas que disciplinaram e fortaleceram o sistema financeiro, para citar apenas alguns exemplos, pouquíssimas vezes foram lembrados pelos tucanos. Quando questionado sobre sua ligação com o governo FHC em um dos debates durante a campanha presidencial de 2010, o candidato José Serra disse que estava focado no futuro, como se o governo anterior tivesse sido absolutamente incompetente. Enquanto Lula propagandeava até o que não havia feito, a oposição escondia suas realizações.
       
       O bordão presidencial é conhecido: “nunca antes na história desse país”. O discurso de Lula ganhou consistência por sua enorme identificação com as camadas populares. Não é que Lula fala como o povo fala. É muito mais que isso. Lula pensa do jeito que o povo pensa e passou pelo que o povo passa. Muitos dos seus discursos remetem diretamente a acontecimentos comezinhos do dia a dia da população mais carente, o que acaba gerando uma grande empatia com as camadas populares.
       
       Um presidente popular, uma economia crescendo, um eleitorado satisfeito com a vida que leva, um partido aguerrido e profissionalizado. Tudo isso criou um cenário de “vale tudo” Durante o período pré-eleitoral e eleitoral, estabeleceu-se uma monumental simbiose presidente-cabo eleitoral. Desde de meados de 2009, era comum ver o presidente fazendo discurso de candidato em eventos do governo. A mais corriqueira atividade presidencial se transformava numa grandiloquente manifestação política, em verdadeiros “comícios administrativos”, sempre com a então pré-candidata Dilma Rousseff presente sendo efusivamente elogiada e enaltecida.
       
       Neste grande “mélange” teatral-performático associado à melhoria objetiva das condições de vida de um número expressivo de brasileiros, espalha-se na sociedade a idéia de que teríamos o melhor presidente do planeta, conduzindo um Brasil que finalmente alcançou seu lugar no mundo, ainda que alinhado com os Chaves e os Correas da vida. Lula era “The guy”, o país se transformaria no maior produtor de petróleo do mundo e emprestava dinheiro ao Fundo Monetário Internacional (FMI). Depois de séculos “deitado eternamente em berço explêndido”, o Brasil, graças a Lula acordava bem disposto e movimentava vigorosamente sua gigantesca musculatura.
       
       Todo esse “mise em scène” comunicativo foi fortemente amparado por um volume inédito de publicidade institucional. Havia uma integração de esforços entre a ação midiática do presidente Lula – que gerava uma quantidade excepcional da chamada “mídia espontânea”, assim entendida a cobertura jornalística normal dos meios de comunicação tão criticados -, a publicidade paga do governo e a comunicação do PT como partido (e, mais tarde, de Dilma como candidata). Em termos de comunicação, o governo bateu a oposição de goleada.
       
       Desenvolveu-se, também, um visível processo de “desinstitucionalização” da atividade presidencial. Lula fez propaganda deslavada de seu governo em cerimônias no Planalto, confundiu atos oficiais com atos de campanha eleitoral, invadiu a esfera de competência de outros poderes. Quando foi multado por campanha antecipada, referiu-se à vice-procuradora geral eleitoral Sandra Cureau nos seguintes termos: “a multa foi aplicada por uma procuradora qualquer por aí”. Depois de ser multado algumas vezes também por campanha antecipada, Lula zombou da Justiça Eleitoral num comício em Osasco (SP). No meio de seu discurso, Lula disse que Dilma Rousseff era sua candidata à Presidência da República, mas que ele, Lula, não poderia verbalizar isso explicitamente, porque seria multado. E, com uma soberba debochada, perguntou ao público: “Vocês me ajudam a pagar a multa?” Depois, descontraído em uma entrevista, projetando sua atuação política depois de deixar o cargo, sentenciou, sem cerimônia: “vou ligar para a Dilma e dizer isso está certo, isso não está”. Assim, Lula inauguraria a fase de “Presidente da Presidência”, uma nova e criativa figura jurídico-política, uma espécie de Poder Moderador Superior extemporâneo, um Imperador na República dos trópicos, a personificação de semi Deus do executivo nacional.
       
       A face ameaçadora: tentando controlar a sociedade
       
       Durante esta escalada a níveis andinos de popularidade, o governo Lula também mostrava sua face “hard”, que pode ser resumida no trinômio controle-cooptação-estatização. No plano do controle, o grande alvo foi a mídia. O programa do PT, registrado no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) em julho de 2010, reza que “o governo pode interferir (grifo meu) na programação , no gerenciamento e na propriedade de emissoras de rádio e TV”. Várias vezes, quando provocado por jornalistas a responder perguntas julgadas inconvenientes, o presidente Lula assestou suas baterias contra os meios de comunicação. A mídia, por exemplo, teria “inventado” a notícia, fartamente documentada e povoada de réus confessos, da quebra de sigilo fiscal de integrantes da cúpula do PSDB.
       
       No que diz respeito à cooptação, o governo Lula estimulou um acontecimento “sui generis”, para não dizer bizarro resvalando no patético. Em função de generosas inversões de dinheiro público, a União Nacional dos Estudantos (UNE), pela primeira vez na sua história, manifestou-se favoravelmente a um governo. O mesmo mecanismo foi utilizado para “acalmar” as Centrais Sindicais, que passaram a ser destinatárias dos recursos provenientes do imposto sindical.
       
       No que se refere à estatização, assistimos a criação da TV Brasil, emissora estatal criada com o objetivo de fazer contraponto à “mídia convencional” e que apresenta índices sofríveis de audiência. Na visão governista, a TV Brasil teria o condão de divulgar “a verdade”, sendo a verdade entendida como um Brasil próspero e sem problemas, lindo e harmonioso, democrático e justo, interessadíssimo no conjunto dos atos oficiais do governo e na sucessão dos discursos e pronunciamentos das autoridades federais. Também foi criado, no ABC paulista, a TV Sindicato. No Congresso Nacional, tramitam dois projetos de Lei para que as Centrais Sindicais tenham programas de TV, à semelhança do que já acontece com os partidos políticos. O “Grande Irmão” de Orwell mostrava suas garras.
       
       O quadro pré-eleitoral e o realinhamento da base de apoio de Lula
       
       O conjunto e a interação das seis facetas do governo Lula analisadas brevemente acima criaram um quadro extremamente favorável à candidatura situacionista. Uma pesquisa divulgada pelo Pew Research Center, uma organização apartidária sediada em Washington, nos Estados Unidos, mostrava o prestígio de Lula. Lula liderava o ranking de grupos, pessoas ou instituições que, aos olhos da opinião pública, tinham influência positiva no momento pelo qual o país estava passando. Curiosamente, a mídia, tão criticada por Lula, também obteve uma percepção extremamente positiva. Abaixo, os dados.
       
       
       Tabela 2
       Ranking de grupos, pessoas ou instituições que têm influência positiva no momento do País

       
       
       
       Tabela 3
       Nível de concordância com as seguintes frases

       
       
       
       A implementação da estratégia econômica governamental de extração popular-populista promoveu um realinhamento da base de apoio do lulismo, demonstrado no artigo “Raízes sociais e ideológicas do lulismo”, já citado, que alcançou ótima repercussão na mídia, com direito a contrapontos de renomados acadêmicos e intelectuais. O realinhamento das bases sociais pode ser resumido da seguinte maneira: nas eleições de 1989, 1994 e 1998, os adversários de Lula – Collor em 1989 e Fernando Henrique Cardoso em 1994 e 1998 – mobilizaram os eleitores de menor renda contra a esquerda, representada pelo petista. Mesmo em 2002, nota Singer, “depois de unir-se a um partido de centro-direita, anunciar um candidato a vice de extração empresarial, assinar uma carta-compromisso com garantias ao capital e declarar-se o candidato da paz e amor, Lula tinha menos intenção de voto entre os eleitores de renda mais baixa do que entre os de renda superior” (11).
       
       À medida que Lula melhora a vida das camadas com menos renda, os níveis de intenção de voto do petista crescem neste segmento. Os sinais se invertem: antes repelidos por temor ideológico (ameaça comunista, perigo de onda grevista, baderna etc) o “subproletariado” passa a ser atraídos por Lula, em função do desempenho econômico do país e da melhoria da qualidade de vida das camadas excluídas. Em outras palavras, em 1989, 1994 e 1998 Lula inspirava medo. Em 2002, era o representante do oposicionismo presente na sociedade brasileira. Em 2006 e 2010, o lulo-petismo passou a representar os pobres. Na tabela abaixo, é possível acompanhar a evolução dos índices de intenção de voto em 2002, 2006 e 2010.
       
       
       Tabela 4
       Intenção de voto x níveis de renda 2002, 2006 e 2010

       
       
       
       Como se percebe, em 2002 não havia variação nos índices de intenção de voto em Lula entre os eleitores de renda mais baixa e de renda mais alta. Lula venceu em todos os segmentos de renda, com vantagens que variaram de + 25 a + 34 pontos percentuais. A diferença entre a maior e a menor vantagem foi de apenas 9 pontos percentuais. Já em 2006, a variação entre os segmentos de menor e maior renda foi de 28 pontos percentuais e a variação da vantagem oscilou de + 31 para – 18 pontos percentuais, ou seja, uma diferença de 49 pontos. Em 2010, a diferença nos extremos de renda era de 21 pontos percentuais para Dilma e a variação entre as diferenças oscilou 40 pontos percentuais. Ou seja, as eleições de 2006 e 2010 “racharam” o país, opondo os “pobres” e os “ricos”.
       
       As três singularidades
       
       O processo político-eleitoral de 2010 foi marcado por algumas singularidades, para não dizer excentricidades. A primeira delas: o principal protagonista da campanha não era candidato. Alçado a inéditos 78% de aprovação, contabilizando-se as avaliações “ótimas” e “boas” de seu governo, o presidente Lula deu o tom de todo processo. Primeiro, ao tirar do “bolso do colete”, sem nenhuma oitiva partidária, o nome de Dilma Rousseff como candidata do PT. Depois, ao dar o tom da campanha, com exageros (comparar Dilma com Nélson Mandela), forçando uma polarização “bons x maus”, arroubos autoritários (ao criticar a imprensa), radicalismo (“o DEM deve ser exterminado”) e argumentações estapafúrdias (ao creditar as denúncias de quebra de sigilo fiscal a “preconceito” contra a mulher”).
       
       A segunda singularidade é que um candidato com reais possibilidades – no caso, candidata – disputou a eleição pela primeira vez. Dilma jamais disputara uma eleição antes de 2010. Pela primeira vez, também, uma mulher entrou na disputa como favorita. A terceira foi a incrível barafunda jurídica e a incerteza legal decorrentes da aplicação da Lei da Ficha Limpa e da exigência de dois documentos, título de eleitor mais um documento com foto (RG, Carteira Nacional de Habilitação, Passaporte ou carteira de Trabalho). Chegamos ao cúmulo de, a três dias da eleição, não existir certeza sobre a condição para se votar e, no dia da eleição, não se saber se o voto dados nos candidatos “sub júdice” no que diz respeito ao Ficha Limpa seria válido ou não. Aliás, apenas no dia 30 de setembro o TSE divulgou nota esclarecendo que seriam considerados nulos durante a apuração os votos dados a candidatos enquadrados pela Lei da Ficha Limpa.
       
       Os quatro momentos
       
       Claramente, é possível identificar quatro momentos na campanha de 2010.O primeiro, que vai de dezembro de 2009 a 13 de maio de 2010, assistiu-se a dianteira do candidato José Serra nas pesquisas de intenção de voto, com uma vantagem variando de 14 pontos (dezembro de 2009) a 7 pontos (fevereiro de 2010), segundo o Datafolha. No dia 13 de maio foi ao ar a propaganda partidária do PT. Mais correto seria conceituá-la de propaganda eleitoral, já que, no programa, Lula deixou claro que Dilma era sua candidata, fora seu braço-direito no governo, sabia governar, tinha experiência e estatura política para ser comparada a Mandela e, acima de tudo, seria a continuadora de um governo excepcionalmente bem avaliado.
       
       Já na pesquisa dos dias 20 e 21 de maio, a força da aparição de Lula combinada à informação de que Dilma seria sua candidata provocou uma reviravolta nas pesquisas. Comparada com a pesquisa anterior, realizada nos dias 15 e 16 de abril, Serra cai 5 pontos percentuais e Dilma subiu 7 pontos, estreitando a diferença em doze pontos e empatando tecnicamente a disputa.
       
       A partir daí, inicia-se um processo de ascensão sistemática da candidata do PT, que chega a abrir 23 pontos percentuais sobre seu adversário tucano, em pesquisa do Datafolha realizada entre os dias 13 e 15 de setembro. Naquele momento, Dilma alcançava 57% dos votos válidos, contra 30% de José Serra e 13% de Marina Silva. , Esta “arrancada” se acentua com a entrada no ar do horário eleitoral gratuito, em meados de agosto.
       
       O terceiro momento da campanha ocorre na pesquisa realizada em 21 e 22 de setembro, sempre pelo Datafolha, a pouco mais de dez dias da data da eleição. A partir daí, a eleição de Dilma Roussef, que parecia caminhar para uma decisão no primeiro turno, começa a perder pontos nas pesquisas de intenção de voto. Nas pesquisas de 1 e 2 de outubro, Dilma passa a ter 50% dos votos válidos, contra 31% de Serra e 17% de Marina Silva. O Brasil amanhece no dia da votação, 3 de outubro, um domingo, sem saber se a eleição iria para o segundo turno ou não.
       
       O que aconteceu nos últimos dias de setembro que pode justificar o aumento da possibilidade de ocorrência de um segundo turno? Tudo indica que a inflexão na curva foi conseqüência de uma conjunção de fatores.. No dia 11 de setembro, a revista Veja revela um esquema de favorecimento a empresas através da atividade do filho da então Ministra da Casa Civil e fiel escudeira de Dilma Rousseff, Erenice Guerra. A mídia também apontou duas outras situações: a questão do aborto e a internet. Pesquisas do Datafolha identificaram um impacto maior na questão Erenice Guerra do que as conseqüências das declarações de Dilma sobre o aborto que incomodaram o segmento religioso.
       
       
       Tabela 5
       Os três momentos eleitorais

       
       
       
       O resultado da eleição presidencial no primeiro turno representou uma surpresa em vários círculos. O PT, vitorioso com 47% dos votos, parecia derrotado. E o PSDB sentiu-se vitorioso ao passar para o segundo turno. Resta saber se Dilma será eleita e representará a sétima face do governo Lula: uma face mais petista, mais estatizante e menos democrática.
       
       Notas
       
       1- Singer, André; “Raízes sociais e ideológicas do lulismo” in Novos Estudos Cebrap, São Paulo, número 85, novembro de 2009.
       2- Pg. A6, 11/10/2010
       3- Revista Exame, 10/03/2010
       4- Singer, A; op. Cit
       5- Revista Exame, 6/10/2010
       6- Singer, A.; op. Cit; pg. 98
       7- Revista Exame, 10/03/2010
       8- Idem
       9- Reviata Época, 10/05/2010
       10- Pg. A3, 10/10/2010
       11- Singer, A.; op. cit.; pg.90
       12- Idem
       

Rubens Figueiredo
Rubens Figueiredo é cientista político pós graduado pela Universidade de São Paulo, diretor do Cepac – Empresa de Pesquisa e Comunicação e autor de diversos livros sobre marketing político, inovação na administração pública e performance de governos.

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A Formação da Frente Liberal e a Transição Democrática no Brasil (1984-85)
Marcio Rodrigo Nunes Cambraia

 
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Revista On-Line Liberdade e Cidadania - Registro ISSN Nº 1983-9162
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