Tema em Debate
Ano II - n. 6 - outubro / dezembro, 2009

 
O Governo Lula, ou: a Contradição no Poder

Eduardo Sciarra *

       À medida que se aproxima o ocaso do governo Lula, alguns analistas políticos já começam a se perguntar se os atuais e elevadíssimos índices de popularidade do presidente serão ou não corroborados, a longo prazo, pelo julgamento da história.
       Sei que, hoje, qualquer tentativa de responder cabalmente a esta pergunta estaria condenada, no mínimo, ao descrédito, pois ainda é cedo demais para qualquer vaticínio. No entanto, creio que já está na hora, se não de prever o futuro, pelo menos de iniciar uma avaliação do significado, dos alcances e dos limites políticos, econômicos e administrativos dos dois mandatos consecutivos de Luiz Inácio Lula da Silva (e do seu Partido dos Trabalhadores) à frente dos destinos do Brasil.
       O primeiro aspecto a ser levado em conta nesta reflexão é a trajetória percorrida pelo por Lula e pelo PT antes de haverem conquistado a Presidência da República pela primeira vez, no pleito de 2002.
       
       Nos primórdios da legenda quase 30 anos, o PT e seu líder maior ergueram bem alto duas grandes bandeiras, diante de uma sociedade brasileira que ainda lutava para transcender o regime autoritário e encontrar o caminho da plenitude democrática. Essas bandeiras eram o socialismo e a ética.
       
       Dos documentos partidários da época e dos discursos dos intelectuais universitários e antigos militantes da esquerda armada que aderiram ao novo partido, era fácil discernir que a receita de socialismo preferida pelo PT pouco ou nada tinha a ver com as correntes principais da social-democracia europeia.
       
       Nem o SPD alemão, nem o trabalhismo britânico, nem mesmo o socialismo francês apeteciam às ambições radicais dos petistas brasileiros, então avessos a seguir a trilha histórica de partidos de massas da esquerda que, passadas as grandes tragédias do século XX (duas guerras mundiais, o nazismo, o stalinismo, a Guerra Fria), finalmente se haviam harmonizado com as cláusulas pétreas da democracia representativa, a saber: o respeito à propriedade privada, à liberdade de pensamento, manifestação e organização e ao mecanismo de alternância dos partidos políticos no governo conforme a vontade popular legitimamente expressa por meio de eleições periódicas.
       
       Ora, uma rápida leitura dos documentos produzidos pelas facções integrantes do PT – e que ainda podem ser encontrados no site do partido – mostra que as simpatias da grande maioria dos seus líderes e militantes de base estavam, principalmente, com as variantes terceiro-mundistas do socialismo totalitário, encarnadas por regimes como os de Cuba castrista, Nicarágua sandinista e outros menos (ou melhor, nada) votados.
       
       No entanto, acontecimentos marcantes do final do século passado, como o colapso da União Soviética e a sangrenta repressão desencadeada pelo regime comunista chinês contra os jovens manifestantes pró-democracia na Praça da Paz Celestial, causariam profundo abalo no prestígio internacional porventura ainda subsistente do modelo totalitário.
       
       Mesmo em Cuba, o súbito corte da generosa mesada bancada pelo Kremlin evidenciou a ineficiência econômica do regime de Fidel Castro, comprimiu ainda mais drasticamente o padrão de vida da grande maioria da população e obrigou o governo de partido único a redobrar sua brutalidade na supressão dos dissidentes.
       Resultado: o PT se viu reduzido a atravessar a década de 90 agarrado à bandeira que lhe sobrara: a da ética.
       
       E foi em nome dela que a liderança partidária, a começar pelo eterno candidato petista à Presidência da República o Sr. Lula, que o PT, na oposição, empreendeu gigantescos esforços para desmoralizar, paralisar e inviabilizar a administração federal e as administrações estaduais democraticamente conquistadas pelos seus adversários.
       
       Essa voz orquestrada das ruas era, por sua vez, diligentemente repercutida no parlamento pela bancada petista, que crescia a cada nova eleição. E aí deparamos um dos primeiros fragmentos desse verdadeiro mosaico de contradições em que o PT viria a se transformar: partido descrente da democracia representativa, partido intolerante com o jogo político da negociação parlamentar, partido enfeitiçado pelo modelo pseudoparticipativo (mas, na verdade, puramente cooptativo) das autoproclamadas ‘democracias populares’ unipartidárias, o PT lutava para ampliar sua presença no Congresso Nacional, disputando – e, cada vez mais, ganhando – eleições em todo o País.
       
       Essa ambiguidade assumiria, a dimensão de uma ironia histórica, quando, durante o governo-tampão do presidente Itamar Franco, os parlamentares petistas não pouparam recursos do seu arsenal obstrucionista para sabotar o processo de revisão constitucional, instando a sociedade a que cerrasse fileiras em defesa da Carta-Cidadã contra qualquer iniciativa para reformar seus dispositivos econômicos estatizantes e autárquicos, que já haviam nascido arcaicos: a mesma carta que as bancadas petistas se recusaram terminantemente a subscrever, quando de sua promulgação cinco anos antes...
       
       Questão escolástica
       
       Arvorando-se em detentor do monopólio da ética e da luta contra a corrupção na política brasileira, o partido mobilizou os amplos recursos de agitação e propaganda dos movimentos sociais a seu dispor – como o baronato sindical da CUT, os esquadrões de invasores do MST e os seus fieis aliados na UNE – fazendo-os marchar ao ritmo das palavras de ordem de “fora, FHC!”, “Prisão para todos os corruptos” – e assim por diante.
       
       A esta altura, cabe observar que a militância propriamente dita e a maioria dos dirigentes partidários haviam enrolado o estandarte do socialismo totalitário apenas por conveniência tática de momento. Continuavam a reverenciá-lo, no entanto, em suas reuniões e discussões internas, à maneira dos iniciados em seitas secretas.
       Vez por outra, fragmentos dessa visão de mundo vinham à tona na forma de àcidas críticas aos programas de estabilização econômica e de privatização de empresas estatais. Porém, o malogro das críticas petistas ao Plano Real, que lavrou uma vitória duradoura contra o flagelo da hiperinflação, mostrou, afinal, à cúpula partidária que o mais promissor atalho para o poder era o da deslegitimação ética de “tudo o que aí está”.
       
       Graças ao cansaço do povo com os sacrifícios exigidos pelo combate aos efeitos de sucessivas crises econômicas internacionais durante a década de 90 e também ao profundo e generalizado incômodo gerado pela ameaça de apagão do setor elétrico na reta final do governo FHC, finalmente soou a hora triunfal para Lula e seu partido.
       
       Ungido pelo voto de esperança de dois terços do eleitorado brasileiro no segundo turno do pleito presidencial de 2002, lula chegou lá, embalado pela confiança da maioria dos brasileiros na incessante e persuasiva pregação ética do petismo, que se autodefinia como a alternativa imaculada à podridão dos costumes políticos desde sempre vigentes.
       
       Em breve, porém, a esperança que vencera o medo – tema do discurso de Lula quando do reconhecimento de sua vitória eleitoral sobre José Serra – converter-se-ia, em decepcionante perplexidade. Uma fulminante sucessão de escândalos políticos (waldomirogate, mensalão, aloprados, sanguessugas, cartões corporativos...) evidenciava que a velha e solitária bandeira da ética seguia o mesmíssimo (des)caminho do surrado estandarte do socialismo.
       
       Como no quebra-cabeça proposto pelos escolásticos medievais, se um canivete troca a lâmina enferrujada por uma nova, e, se, logo em seguida, substitui seu cabo carcomido por outro novo em folha, será que esse canivete ainda existe?
       Será que o PT de Lula como guardião da ética política, da moralidade pública, alguma vez existiu?
       
       A espessa nuvem de fagulhas provocada pela fricção entre prática e teoria, discurso e realidade, intenção e gesto, inviabiliza uma resposta cabal.
       Nada disso, entretanto, foi suficiente para impedir sua recondução ao Palácio do Planalto.
       
       Diante de uma oposição tímida e atordoada, Lula, mais uma vez, chegou lá, colheu os frutos do sucesso da consistente aplicação do receituário macroeconômico legado pelo seu antecessor, aproveitando os ventos favoráveis da economia mundial de meados da década passada, enquanto, da boca para fora, xingava a “herança maldita do neoliberalismo”, para delírio do público interno petista.
       
       Um enigma embrulhado em antíteses
       
       Talvez a chave para o enigma político do lulismo repouse no fato que ele não se ressente, tampouco se debilita, por causa das referidas contradições; ao contrário, delas se alimenta, delas se aproveita para surfar uma onda aparentemente interminável de popularidade, logrando persuadir os mais díspares segmentos da sociedade brasileira de que pode ser tudo para todos ao mesmo tempo: o escudo protetor da ortodoxia monetária do Banco Central & o patrocinador de uma verdadeira farra de engorda da máquina pública e, portanto, da explosão dos gastos de custeio; o amigo de fé do agronegócio exportador & o irmão camarada dos invasores do MST; o governante que saldou a dívida brasileira com o FMI & o parceiro entusiasta de desastres ideológicos como o socialismo bolivariano de Hugo Chávez, Evo Morales e outros agressores do interesse nacional brasileiro; o pai dos recipiendários do bolsa-família & a mãe dos banqueiros, satisfeitíssimos com as estratosféricas taxas de juros...
       
       No fundo de todas essas antíteses está um governo que é fruto do insólito cruzamento entre as cúpulas sindicalistas e as carcomidas oligarquias que Lula e PT, na oposição, combateram, agora sabemos, com calculado espalhafato e que, neste exato momento, ajudam a escorar em plena crise ética que desmoraliza o Senado Federal.
       
       O grande problema desses permanentes ziguezagues, desse infindável ilusionismo político, é que eles consomem enormes energias do governo além de desviar o foco da opinião pública para longe dos crônicos desafios da infraestrutura, da justiça e da racionalidade fiscais, da empregabilidade ampla, geral e irrestrita.
       Trocando em miúdos, o governo Lula não se dispôs a investir um grama da esmagadora popularidade do seu chefe supremo para construir uma sólida aliança política destinada a levar a bom termo a agenda de reformas tributária, previdenciária e trabalhista, cuja inconclusão continua a pender contra o futuro do país.
       
       Por isso, talvez, no veredito da história – cujo critério de medida é o bem-estar das futuras gerações, e não as conveniências da próxima eleição –, Sua Majestade Lula (‘o cara’) da Silva venha a ser mais lembrado, ou esquecido, pelo que não fez... Uma última ironia para coroar o rosário de contradições com que ele teceu sua trajetória.
       

Eduardo Sciarra
Deputado federal desde 2002 (DEM-PR), Eduardo Sciarra é engenheiro civil e empresário do setor da construção. No período de 1998-2002, exerceu o cargo de Secretário de Indústria, Comércio e Turismo do Paraná, assumindo o desafio de iniciar um novo processo de industrialização que culminou na formação de novos pólos econômicos tanto na capital como no interior do Estado. Vice-Presidente Nacional do Democratas, foi presidente da Frente Parlamentar para a Infraestrutura e atualmente é presidente da Comissão de Desenvolvimento Urbano da Câmara dos Deputados.

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