Resenha
Ano IV - n. 13 - julho / setembro, 2011

 
CE QU´EVALUER VOUDRAIT DIRE. Edition especialle de Cahiers Internationaux de Sociologie. Paris, Presses Universitaires de France (PUF), 2010

Antonio Paim *

       O interesse do volume 128/129, dos famosos Cahiers Internationaux de Sociologie além naturalmente do tema e da qualidade dos ensaios prende-se ao fato de marcar o fim da tradicional publicação. Fundada em 1946, por Georges Gurvitch, durante todo esse tempo ocupou papel importante na manutenção do indispensável pluralismo na disciplina, obstado e combatido pelo marxismo e pela tentativa de criar, na França, uma espécie de sociologia oficial, afeiçoada àquela doutrina.
       
       O fundador da publicação, Georges Gurvitch (1894/1965), nasceu na Rússia, radicando-se na França, para onde emigrara a sua família, onde adquiriu formação filosófica e obteve a nacionalidade francesa (1928). Autor de extensa bibliografia que teve a ventura de encontrar grande receptividade nos mais diversos países, a rigor desde o primeiro livro, de um jovem professor de 36 anos (Tendências atuais da sociologia alemã, aparecido em 1930). Contudo, marcos da preservação dos vínculos da sociologia com o que tradicionalmente se denominou de filosofia social constituem alguns artigos aparecidos no Cahiers especialmente “A crise da explicação em sociologia (1956) e “Reflexões sobre a relação entre Filosofia e Sociologia” (1957) e as obras tornadas clássicas Determinismo social e liberdade humana (1955) e Tratado de sociologia (2 vols., 1960).
       
       O tipo de combate enfrentado pelo Cahiers pode ser aquilatado a partir do exemplo do que resultou do estruturalismo e sua simbiose com o marxismo. Traduz uma simplificação do contexto social impensável numa sociedade que não esteja anestesiada pela tradição positivista ou do marxismo de feição cientificista. Como essa linha encontrou guarida naqueles órgãos de imprensa e outras instituições (inclusive setores universitários), conseguiu uma situação impar, nos meios intelectuais franceses, nas últimas décadas do século XX. O novo herói capaz de defender publicamente tais enormidades chamou-se Pierre Bourdieu.
       
       Pierre Bourdieu (1930/2002) passou mesmo a ser situado entre os mais destacados pensadores franceses de seu tempo. Registrando o seu falecimento, na edição de janeiro de 2003, o inglês The Guardian exalta sua condição de “the leading intelectual of present day France ... a thinker at the same rank as Foucault, Barthes and Lacan”. O livro de sua autoria, intitulado Distinção. Crítica social do juízo foi incluído entre os dez mais importantes da sociologia do século XX pela International Sociological Association. Sua morte provocou a maior comoção. Figurou como manchete de Le Monde do dia seguinte.
       
       Vejamos a tese central dessa obra. O hábito é um fator explicativo das práticas ao nível da sociedade global. Assim, é possível distinguir três estilos de vida diferentes, correspondentes ás três classes sociais. Os membros da classe dominante são dotados de hábitos fundados na noção de distinção; os dos membros da pequena burguesia estruturam-se em torno da vontade de ascender socialmente. Escreve a esse propósito: “o hábito pequeno burguês é a inclinação da trajetória social, individual e coletiva, na direção em que essa trajetória seja ascendente e tenda a prolongar-se e cumprir-se.” ( obra citada: La distintion... Paris, Minuit, 1979, p.388) As classes populares têm hábitos fortemente marcados pelo sentido da necessidade e da adaptação a tal necessidade, valorizando por essa razão a força física. A partir de tais simplificações pretendeu explicar até mesmo preferências alimentares.
       
       Contudo, sua maior pretensão era difundir as teses de que a “reprodução dos aparelhos sociais” dava-se pela escola, de que resulta o entendimento de que nada há a preservar na tradição cultural do Ocidente, tese essa que desconhece mesmo as correções efetivadas na interpretação marxista do conceito de superestrutura do qual Stalin retirou a língua e a técnica, permitindo que se estabelecesse que também as ciências e mesmo parcelas do direito não são simples reflexos de estruturas de classe (veja-se bem, isto no âmbito do marxismo soviético).
       
       A partir do mencionado tipo de análise, Bourdieu passou a supor que o capitalismo engendraria uma teia diabólica, exigindo contrapor-lhe um “savoir engagé”. Empenhou-se decididamente, desde os anos oitenta, em tornar-se um dos principais artífices da luta contra as elites políticas e o capitalismo “neoliberal”, ao qual atribui todos os males do mundo.
       
       Para fazer-se uma idéia do tipo de simplificação de que se trata, basta referir um dos últimos textos que produziu, transcrito em Le Monde Diplomatique (1/02/2002) onde argumenta que as ciências sociais e a militância política constituem duas faces de um mesmo trabalho. Considera falsa a dicotomia scolarship versus commitment. Por esse caminho chegou a um exagero tal na demonização da vida social, por esse monstro chamado globalização capitalista (neoliberal), que afirma, no texto antes referido, que basta ler os relatórios da organização Mundial do Comércio (OMC) para conhecer a política educacional que teremos em cinco anos: “O ministro da educação nacional somente reproduz as diretrizes elaboradas pelos juristas, sociólogos, economistas que, uma vez formuladas, são postas em circulação”
       
       Conclui: o intelectual engajado pode mudar esse quadro.
       
       As breves indicações precedentes iluminam o ambiente em que atuou o Cahiers, isto é, da mais franca oposição.
       
       Lamentavelmente, os responsáveis pela publicação, George Balandier (diretor) e Michel Wieviorka (co-diretor) não explicam as razões pelas quais irá desaparecer. Depreende-se de que a decisão seria da responsabilidade da Presses Universitaires de France, editora da revista. Não parece que teria motivação ideológica resultando talvez da constatação de que os colaboradores habituais podem dar a conhecer o seu pensamento através da Internet, não existindo condições favoráveis à permanência de publicação impressa, que deve ser custosa e sem dispor de retorno compensador. Essas inferências decorrem da convicção de que, se eventualmente se tratasse, por exemplo, de uma discriminação das entidades governamentais (retirando apoio, por exemplo), teria sido deixado claro.
       
       O número 128/129 mantém a tradição de assumir caráter filosófico, devida a Gurvitch. As discussões situam-se basicamente no plano conceitual. Nesse derradeiro número, o tema é considerado destes ângulos: 1º) apresentação e comentários acerca das teorias da avaliação, tanto das existentes no âmbito da antropologia e da sociologia, como ao que denomina-se de “filosofia da avaliação”; 2º) os domínios da avaliação, basicamente no âmbito da vida social (política e moral); e, 3º) perspectivas críticas.
       
       Para que se tenha idéia da problemática referida e do modo de considerá-la, parece elucidativo o artigo de três autores: o sociólogo, prof. Fabrice Fernandez; o antropólogo Samuel Lezé e a médica psiquiatra Helene Straus. Dispõem-se a responder à seguinte pergunta: “Como avaliar uma pessoa?”. Partem da tese de que a experiência psiquiátrica tornou-se instrumento de avaliação a que recorre com frequência cada vez maior o Judiciário, embora contestado com idêntica freqüência.
       A tese tomada como ponto de partida acha-se formulada deste modo: “O lugar da experiência psiquiátrica é paradoxal: é convocada cada vez mais, porem, de igual modo, é repudiada e duramente criticada. Como compreender uma autoridade tão paradoxal?”
       
       O caminho adotado para responder à pergunta explica a singularidade dos Cahiers. Tomando por base casos concretos, procurar-se-á apreender como os atores (vale dizer: os juízes) intervenientes avaliam o instrumento de avaliação, no caso a psiquiatria. Ao contrário do que pode parecer à primeira vista, os juízes que recorrem (ou são instados a fazê-lo) a avaliações por especialistas (psiquiatras ou psicólogos, ou a ambos) podem não se valer de suas indicações, julgando a partir de pressupostos de índole moral.
       
       O caminho seguido será o do confronto entre uma avaliação que dispõe de fundamentos científicos a psiquiatria e uma outra que não dispõe de idêntico respaldo. Essa opção permitiu verificar que a prevalência de uma ou outra não depende das características peculiares assumidas pela prática judiciária.
       
       A fim de tornar o mencionado confronto o mais consistente possível, os autores deram-se conta de que, na França da atualidade, um segmento do Judiciário passa a merecer a mais ampla difusão mediática. Estão nesse caso aqueles processos relacionados a crimes sexuais, notadamente à pedofilia.
       
       Ao mesmo tempo, o conjunto mais numeroso dos processos diz respeito a crimes que são julgados numa situação às vezes de isolamento.
       
       Como a psiquiatria é avaliada em cada uma daquelas circunstâncias?
       
       Como não poderia deixar de ser, os autores detiveram-se na análise de numerosos processos com ambas características. O artigo é extremamente denso, ao longo de suas cerca de trinta páginas. Conclui: “no final de contas, é o posicionamento dos atores do processo, as táticas diante do especialista que revelam uma forma de poder sobre a disciplina (e não o inverso), notadamente na câmara correcional (não sujeita a exposição mediática), onde o especialista raramente é convocado e, portanto, não tem a possibilidade de defender suas posições”. Pareceria ao observador leigo que, a “torcida” televisa é que imporia a sua “avaliação”.
       
       Pela bibliografia citada, vê-se que a avaliação judiciária tem sido muito estudada de ângulo diverso da prática do direito.
       
       Indique-se que não constitui esfera privilegiada na temática da revista, que considera os mais diversos tipos de avaliação presentes à vida social.
       
       Sem dúvida alguma, o desaparecimento dos Cahiers Internationaux de Sociologie representará uma grande perda para a sociologia de diversos países ocidentais, onde não vigora “samba de uma nota só”. No caso brasileiro, somente figuras isoladas passarão a sustentar a bandeira do pluralismo no âmbito dessa disciplina.
       


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