Tema em Debate
Ano IV - n. 18 - outubro / dezembro, 2012

 
Energia nuclear: prós e contras

Editoria *

       Energia nuclear: prós e contras
        Editoria
        Em colaboração com a Escola Politécnica da Universidade Federal da Bahia (UFBa) e da Universidade Salvador (UNIFACS), a Fundação Liberdade e Cidadania realizou, em Salvador, em março último, seminário destinado a examinar os prós e contras a energia nuclear.
       
        A defesa da instalação de novas usinas nucleares em nosso país, para atender à expansão da demanda, esteve a cargo de Carlos Henrique da Costa Mariz, professor da Universidade Federal de Pernambuco (UFPe), engenheiro eletricista com pós graduação na Universidade de Toulouse (França). Pertenceu aos quadros técnicos da CHESF e presentemente ocupa o cargo de assistente da Presidência da Eletronuclear.
       
        Argumentos pró-nuclear
       
        A argumentação de Costa Mariz parte da constatação dos baixos níveis de consumo per capita de energia elétrica, no Brasil, da ordem de dois mil kWh, enquanto a Austrália supera dez mil; Estados Unidos, 12, 6 mil e Canadá, 16,6 mil. Afirmou que nos consideramos “uma grande potência” por nos acharmos entre as dez maiores economias do mundo. Mas se olharmos “esse indicador de 2.081, estamos na nonagésima posição”. Logo acima de nós acha-se a África do Sul, cujo consumo per capita é mais do dobro do nosso (4.383 kWh).
       
        A produção de energia elétrica no mundo distribui-se do seguinte modo:
       
         
        Tipo de energia      %
        Carvão mineral ......... 41
        Gás natural .............. 20
        Hidrelétrica .............. 16
        Nuclear ................... 15
        Petróleo .................. 6
        Outros .................... 2
        Total                     100
       
         
       
        Na matriz energética brasileira as usinas hidrelétricas ocupam o primeiro lugar, equivalendo a sua contribuição a 77,2% do total.
       
        Costa Mariz refere que a implantação desse tipo de usina abrangeu, primeiro o Centro Sul,  expandindo-se para o Nordeste. Agora seria a vez da Amazônia. Acontece que esse tipo de aproveitamento não vem demonstrando ser factível e compensador. Interpõem-se obstáculos até à penetração para que simplesmente se efetivem indispensáveis estudos. Na região estabeleceu-se como prioridade o estabelecimento de zonas de preservação ambiental ou de reservas indígenas. Disto resulta que os níveis de aproveitamento reduzem-se substancialmente.
       
        Teoricamente, as usinas de Jirau, Santo Antonio e Belo Monte situadas em afluentes do rio Amazonas disporiam de uma capacidade potencial equivalente a 17 mil MW, potencial que se reduz, na verdade, a 8,7 mil MW, à metade, portanto. Nesse conjunto, sobressai Belo Monte (potencial de 11 mil MW que se reduz a cerca de 40% , isto é, a 4,5 mil MW).  As reduções em apreço resultam das dimensões impostas aos reservatórios, devido à presença de sucessivas reservas indígenas e outros tipos de unidades de preservação.
       
        Para continuidade de sua argumentação, Costa Mariz avança o conceito de  energia de base, isto é, aquela fonte de fornecimento disponível ao longo de todos os dias do ano. A energia eólica é intermitente pela própria natureza da fonte (vento); a solar não estará disponível à noite e a biomassa apenas no período da safra  de cana (trata-se do bagaço).
       
        Assim, a escolha situa-se entre estas fontes: petróleo, gás, carvão e nuclear.
       
        Presentemente, dada a preocupação n o tocante à preservação ambiental, passou a pesar nessa escolha a emissão de gases do efeito estufa. Desse ponto de vista, as menos poluentes são a nuclear, a eólica e a biomassa. O confronto entre essas modalidades de geração é mostrado no gráfico a seguir:
       
       
       
        No confronto tradicional, a saber,  os custos da geração das  modalidades indicadas, como se pode ver do gráfico adiante, a energia nuclear situa-se no grupo das menos custosas, entre as quais encontram-se a hidrelétrica  (mais barata), a biomassa e o carvão mineral.
       
         Segue-se a transcrição:
       
       
       
         Levando em conta que as objeções à preferência pela energia nuclear situam-se no plano da segurança, o conferencista que se dispôs a defendê-la deteve-se em especial nesse aspecto.
       
        Notadamente naquele que produziu maior alarde já que esteve insistentemente na televisão: Fukushima, no Japão.
       
        O Japão dispõe de 54 usinas nucleares. São em número de 14 as que foram afetadas pelo tsunami. Este corresponde a fenômeno climático que consiste na formação de ondas gigantescas no mar que, movidas pelo vento, já haviam no passado atingido certas regiões da Ásia, provocando grande número de vítimas humanas. No caso japonês, na zona afetada localizavam-se, como foi indicado,  14 usinas nucleares.
       
        Exibindo a documentação disponível, Costa Mariz chama a atenção para o fato de que todas resistiram, isto é, nenhuma delas foi destruída, em que pese a ferocidade do vento e a dimensão das ondas. Em quatro delas, situadas a nível mais baixo, o tsunami danificou os geradores diesel de emergência.
       
        País que costuma ser afetado por terremotos e, agora, também pelo fenômeno indicado, nem por isto o Japão desistiu dessa parcela de seu parque energético. Além das usinas existentes, duas novas acham-se em construção.
       
        No caso brasileiro, em relação ao qual não se poderia alegar a mencionada forma de fenômeno climático, sobrevive entretanto a questão relacionada à segurança quanto aos resíduos. A experiência indicou que exigem armazenamento cuidadoso e o autor  atribuiu-lhe a devida relevância.
       
        Em síntese, trata-se da estruturação de dois tipos de depósito, o primeiro inicial, na própria usina e, o segundo, de longa duração. Este é concebido para durar, como se diria popularmente, “a vida toda”, porquanto fala-se em 500 anos.
       
        Nesse particular, o expositor chamou a atenção para os avanços na matéria alcançados pela França. Dizem respeito à reciclagem do combustível usado.
       
        Para que se tenha uma idéia das dimensões alcançadas pelo parque mundial de usinas elétricas, transcrevemos a seguir os dois gráficos que apresentou, respectivamente, usinas nucleares em operação no mundo e unidades em construção.
       
       
       
       
       
         
                                             Argumentos contrários
       
         
        O primeiro palestrante a formular objeções à implantação de novas usinas nucleares no país seria o prof. Heitor Scalambrini Costa, do Corpo Docente da UFPE, membro da Rede Brasileira de Justiça Ambiental e  da Articulação Anti-Nuclear.
       
        A questão central parece-lhe ser a seguinte: “qual o modelo de desenvolvimento que essa energia vai servir?”
       
        Responde: “o progresso desejado não é fazer obras em detrimento de comunidades e ecosistemas. Há que mudar o paradigma do lucro para a qualidade de vida da população e responder às necessidades sociais de alimentação, habitação, vestuário, saúde, trabalho.... Não basta fazer coleta seletiva de lixo, evitar o desperdício de água, substituir os carros a gasolina por carros elétricos. Na verdade, o que é preciso mudar, para interromper a destruição, é o tipo de desenvolvimento.”
       
        O argumento subseqüente segue o mesmo diapasão. Senão, vejamos:
       
        “Alega-se que o país necessitará de mais energia  e que vamos precisar no futuro dessa fonte energética para atender ao crescimento do país. Todavia, cada vez mais são contestadas as projeções, as previsões e os cenários construídos do que vai acontecer no futuro.” Em seguida a essa postulação, limita-se a dizer que “esses cálculos apontam taxas geralmente extremamente elevadas de expansão do parque elétrico...” E mais: “geram previsões irreais de consumo.”
       
         Entende que “o custo previsto das usinas nucleares que se pretende construir até 2030 ... é enorme .... e deverá ser acrescido, no mínimo, de 20% a 40% .....como se tem verificado comumente e vide o caso da transposição do São Francisco.”
       
        Afirma taxativamente ser “uma meia verdade a afirmação de que as centrais nucleares não contribuem para os gases de efeito estufa e são limpas.”
       
        Na opinião de Heitor Scalambrini “a indústria nuclear é por sua natureza secreta e sem transparência.”
       
        O segundo palestrante contrário à energia nuclear,  Osvaldo Lívio Soliano Pereira, foi professor universitário na Bahia e atualmente dirige o Centro Brasileiro de Energia e Mudança de Clima.
       
        Adotou o seguinte partido: há países que precisam da energia nuclear e que “em alguns lugares, a nuclear pode ser uma oportunidade para não se emitir gases de efeito estufa, mas em não precisando ...não há porque fazer uso dela.” Sua palestra intitulou-se : “Matriz energética nacional: necessidade de energia nuclear? O papel das renováveis.”
       
        A seu ver, deve-se perseverar na busca da baixa emissão de poluentes, o que justifica a preferência por energias renováveis e inclusive pela nuclear. O fator limitante da energia eólica ou solar era, até há pouco tempo, o custo de instalação, o que não mais ocorreria.
       
        Afirma: “Com o aumento da escala barateiam-se os custos de instalação e se entra em um círculo virtuoso, resultando numa penetração cada vez maior  das novas fontes, como vem acontecendo com a energia eólica hoje totalmente competitiva e com a energia solar, que vai chegar lá também dentro de pouco tempo. Ademais, a instalação no país de fábricas para a produção local dos equipamentos resulta na criação de empregos. As energias renováveis, por seu caráter descentralizado e pulverizado, criam um volume gigantesco de empregos.”
       
        Redução de impacto ambiental e criação de empregos seriam benefícios evidentes. Adicionalmente, acredita, “haveria uma grande complementaridade entre as fontes elétrica e  eólica, no Nordeste, e, coincidentemente, entre a hidrelétrica e a biomassa, no Sudeste. A descentralização da produção é outro benefício das fontes renováveis. Também a rapidez na implantação.”
       
        Em sua palestra apresentou amplas ilustrações daquilo a que corresponderia o potencial energético do tipo mencionado de energia renovável.
       
        O ponto fraco residiria a ausência de desenvolvimento tecnológico brasileiro. Assim, o país correria o risco de “ser um mero usuário das tecnologias solar e eólica desenvolvidas e produzidas alhures.”
       
                                          O debate
       
          Houve ainda uma palestra, do Prof. Paulo Moura Bastos, da Politécnica da UFBA,  que reuniu justificativas para não exclusão da energia nuclear, nos planos de expansão do parque energético brasileiro, ao que se seguiu o debate.
       
        Este foi organizado deste modo: três professores lhe deram início, ao que se seguiu a franquia da palavra aos presentes.
       
        O primeiro debatedor prof. Asher Kiperstock seguiu a linha contrária ao desenvolvimento, limitando-se a postular que “o consumo de economias como a canadense, européia ou americana é completamente insustentável para o planeta”. O segundo, prof. Ednildo Andrade Torres bateu na mesma tecla, acrescentando que os níveis de consumo estadunidenses evidenciam “o desperdício que é muito lá”. Por fim, o terceiro, Getúlio Lins Marques, idem (“esse modelo no mundo é um modelo que não é sustentável”).
       
        Tendo sido dada a palavra ao palestrante iniciador do seminário, prof. Costa Mariz, o debate foi reconduzido aos aspectos técnicos.
       
        A recusa do desenvolvimento econômico, escolha inconteste da maioria de nossa população, como não poderia deixar de ser, não foi adotada como premissa. Assim, colocando a questão no devido lugar, indicou que se não fizermos usinas nucleares teremos que empregar carvão, petróleo ou gás. Trata-se de energia de base.
       
        Para alcançarmos uma qualidade de vida aceitável para a nossa população, como diz,  vamos ter “que investir enormemente em eletricidade para bombear a água para saneamento, industrialização, etc.”
       
        Lembrou que a decisão de construir uma usina nuclear é sempre precedida da escolha do local em que seria implantada, ao que se seguem os estudos de impacto ambiental, com participação da população e de todos os organismos envolvidos. Essa opção não exclui o emprego de energia eólica ou solar, para utilização em áreas limitadas. A alegação da ausência de transparência no funcionamento de nossas usinas não tem razão de ser. Existe o Conselho Nacional de Energia Nuclear (CNEN) que, afirma, “ é o órgão responsável para se tirar qualquer dúvida que exista com relação ao assunto. Houve uma época em que mencionaram que o lençol freático estava contaminado. E o CNEN foi lá, fez os estudos e concluiu que o que tem na região é normal.”
       
        Aconselhou uma visita a Angra dos Reis, onde se localizam as usinas nucleares em operação. Quem o fizer, comprovará, como diz “que a energia nuclear é limpa, sim. Porque é uma das que menos emite C02 e os seus rejeitos são controlados e estocados e supervisionados pelo poder público, por poderes internacionais e pela população.”
       
        Alguns desses esclarecimentos foram determinados por perguntas dos estudantes presentes, que, em geral mostraram maior interesse no esclarecimento dos aspectos técnicos.
       
        O inteiro teor das palestras e do debate figura na publicação efetivada pela Fundação Liberdade e Cidadania, que reproduz o título do seminário: Energia Nuclear – Prós & Contras.
       
       
       
       

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