Resenha
Ano II - n. 8 - abril / junho, 2010

 
Nicholas Wapshott – Ronald Reagan and Margareth Thatcher: a political marriage.

João Paulo M. Peixoto *

       
       O fim da ‘Cortina de Ferro’ foi um evento emblemático para o mundo. A partir de 9 de novembro de 1989 com a queda do Muro de Berlim e o colapso do comunismo soviético o planeta não seria mais o mesmo. O surgimento de uma nova ordem política e econômica internacional, impulsionada por uma nova globalização, veio a moldar o destino de nações nos quatro cantos da Terra.
       
       Entendido como uma nova etapa do capitalismo, a globalização foi logo associada ao ressurgimento do liberalismo econômico pelas mãos de dois dos seus maiores ícones universais: Ronald Reagan e Margareth Thatcher.
       
       O relançamento do neoliberalismo, no entanto, antecede em uma década o paradigmático ano de 1989. Mais precisamente, é identificado com a eleição de Mrs. Margareth Thatcher na Inglaterra em 1979 e Ronald Reagan nos Estados Unidos em 1980. Juntos desde os primeiros dias, os dois estadistas se encarregaram de levar adiante os seus projetos nos campos econômicos, político e diplomático.
       
       O primeiro consistia num choque liberal em suas nações; o segundo numa cruzada contra o império soviético – o ‘Império do Mal’, nas palavras do presidente norte-americano; e o terceiro na sedimentação de uma aliança estratégica e indissolúvel entre os dois países no plano internacional.
       
       Destes temas trata o livro “Ronald Reagan and Margareth Thatcher: A Political Marriage”, de Nicholas Wapshott.
       
       O autor expõe ainda a ascensão política e a trajetória pessoal dos dois líderes, antes de ingressarem na vida pública. Em Reagan a sua atuação como ator, relações públicas e líder sindical em Hollywood; e em Thatcher sua origem pequeno burguesa, bem como sua luta para vencer o preconceito no verdadeiro clube de cavalheiros que era o Partido Conservador britânico.
       
       Ambos de origens sociais semelhantes tiveram que pavimentar seu árduo caminho ao topo da política com perseverança, coragem e determinação. Vencendo preconceitos e ao mesmo tempo ‘vendendo’ otimismo e patriotismo numa época de baixa estima nacional em seus países.
       
       Reagan, em 1980, viria a derrotar cabalmente o fraco presidente Carter, cujo governo amargava a humilhante crise da invasão da Embaixada norte-americana em Teerã, e a conseqüente crise dos reféns norte-americanos nas mãos dos iranianos.
       
       Thatcher, por sua vez, sucedia o seu oponente trabalhista James Callaghan com uma promessa de reinventar a Inglaterra, nos moldes do liberalismo político e econômico. Ambos detinham a capacidade de empolgar seus compatriotas com uma oratória franca, simples, porém eficaz, indo direto às questões nacionais que mais angustiavam seus povos. De um lado o sentimento de humilhação exposto por Carter, que em nada combinava com o orgulho norte-americano, expressado no seu desastroso pronunciamento em rede nacional de TV, pregando uma crise moral e de confiança sem precedentes no seio do povo americano. Este discurso [‘national malaise’] de 1979 foi contracenado com um discurso otimista de Reagan, onde dizia não ver nada de errado no povo americano. Na Inglaterra, a deterioração econômica advinda de um quase-socialismo praticado por sucessivos governos trabalhistas desde o pós-guerra, além da crise econômica resultante da alta do petróleo acompanhada de uma situação de estagflação, abria caminho para a candidata de oposição.
       
       Unia ainda os dois estadistas nesta aliança transatlântica, o inimigo comum que viria a ser combatido tenazmente até a sua derrocada em 1989: o regime comunista soviético.
       
       Uma intimidade e amizade nunca antes vista entre dois governantes, foi determinante para que ambos firmassem rapidamente um pacto de mútuo apoio e inspiração. Tal aproximação pessoal e ideológica foi crucial para que pudessem atingir seus objetivos políticos, dentre eles, a derrubada do Muro. Tarefa para a qual contaram com outros aliados importantes como o Papa João Paulo II, e, porque não, com o próprio estadista soviético Mikhail Gorbachev.
       
       A mesma visão do conservadorismo político, absolutamente não entendido por ambos como a manutenção do status quo, viria a cimentar definitivamente a aliança. Como conservadores, o entrosamento dos dois sobre o papel do Estado refletia a crença num governo determinado e decisivo; o que é diferente de um governo ‘todo poderoso’. E complementavam sua convicção no papel do Estado [governo], que deveria ser forte em áreas onde somente ele poderia atuar. Áreas onde o governo precisa ser forte: na defesa da Nação, na proteção da lei e da ordem, e na promoção de uma moeda nacional forte. Longe do que acontece em várias nações onde o Estado assume a responsabilidade não só de provedor, como de árbitro universal.
       
       Outros estadistas norte-americanos e ingleses já haviam dado mostras de uma identidade pessoal e política, que também resultaram em estreita aliança entre seus países. Foi o caso, durante a II Guerra Mundial, do presidente yankee Franklin Roosevelt e o primeiro ministro britânico Winston Churchill. Embora seus objetivos - a derrota do Eixo e a afirmação da democracia - também tivesse sido alcançadas, não desfrutaram da mesma relação pessoal desses seus sucessores de anos depois.
       
       O livro de Wapshott aborda ainda a importância do back-ground familiar e a própria experiência de vida como fatores importantes que viriam moldar as crenças dos dois na liberdade e no liberalismo econômico, bem como, opostamente, na ineficiência estatal quando [o Estado] desvirtuado de suas responsabilidades clássicas.
       Thatcher inspirada nas idéias dos pensadores liberais clássicos, particularmente Friedrich August von Hayek. Notadamente no seu livro Constitution of Liberty, que a fez proclamar em alto e bom som na Casa dos Comuns, com um exemplar em mãos: “Nisto é o que nós [Conservadores] acreditamos”. Reagan, por sua vez, seguindo a tradição do Partido Republicano, não ficou atrás. Baseou sua campanha em dois pontos clássicos do liberalismo: governo menor e redução de impostos. Não deixando de lado, evidentemente, sua crença na livre iniciativa.
       
       A influência política desses dois líderes ultrapassou as fronteiras das suas nações, servindo de inspiração para outros governantes europeus. Angela Merkel na Alemanha e Nicolas Sarkozy, por exemplo, beneficiaram-se eleitoralmente por terem sido comparados diretamente com Lady Thatcher. Quanto ao ex-presidente, o elogio veio diretamente de Henry Kissinger que disse nada mais nada menos que ‘Reagan foi o homem certo, no lugar certo, no momento certo’.
       
       Finalmente, o autor conclui que o par fez mais do que liderar uma onda histórica; ofereceram liderança em meio ao potencial caos e conseguiram restaurar a autoconfiança dos seus compatriotas. Nos Estados Unidos deteriorada pela derrota no Vietnã, enquanto que os britânicos puderam finalmente deixar de lado a frustração pela perda do Império.
       
       Enfim, embora possa ser injusto creditar exclusivamente a ambos o fim da Guerra Fria, não há como desconhecer o fato de que fizeram muito mais do que simplesmente presidir os acontecimentos.Na verdade, escoltaram pacificamente o mundo rumo ao limiar de uma nova era.
       

Nicholas Wapshot
Nicholas Wapshot (nascido em 1952), proeminente jornalista inglês, chefiou a sucursal novaiorkina do The Times of London, sendo o fundador do The Times magazine e editor do The Observer. Na condição de jornalista, teve oportunidade de acompanhar diretamente o desempenho governamental de Mme. Thatcher. Publicou outras biografias além da comentada. Seu último livro (2010) confronta Keynes a Hayek.

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