Resenha
Ano I - n. 2 - outubro / dezembro, 2008

 
Ney Figueiredo (organizador) – Políticos ao entardecer.

Antonio Paim *

       A idéia era verificar qual a situação patrimonial, ao falecer, de políticos de grande destaque na vida nacional, alguns dos quais foram apontados como corruptos. Das oito personalidades selecionadas, quatro haviam sido Presidentes da República enquanto, dentre os demais, três foram governadores e o último, ministro de um dos governos militares sobre o qual pesava a acusação de enriquecimento ilícito. Tomou-se por base os respectivos inventários e sua análise foi atribuída a grupo experiente de jornalistas.
       
       Deveu-se a iniciativa a Ney Figueiredo, intelectual possuidor de grande familiaridade com o poder, familiaridade que tem sabido documentar em livros de grande sucesso, a exemplo de Diálogos com o poder. Políticos, empresários e mídia: verdades e mentiras (2004). A par disto, tendo dirigido campanhas eleitorais não só nos três níveis de governo mas igualmente nas mais importantes entidades empresariais, soube generalizar esse tipo de experiência, em livros igualmente bem sucedidos, entre estes Jogando para ganhar (1994).
       
       No texto que organizou e que ora comentamos, explica ter sido critério da seleção a importância desses personagens em nossa história”. E a comprova deste modo: “Comecei por Getúlio Vargas, o ditador e presidente que mais tempo governou o Brasil; segui com Juscelino Kubitschek, criador de Brasília e da nossa indústria automobilística, que chegou a ser apontado pelos inimigos como a sétima fortuna do mundo. O imperial Ernesto Geisel, o mais poderoso do ciclo militar, faz parte da série, que tem também Café Filho, Leonel Brizola, Carlos Lacerda, o demolidor de presidentes, Mário Covas e Mário Andreaza, o homem da ponte Rio-Niteroi, apontado em sua época como malversador de dinheiro público.” E mais: “Dessa forma, tivemos representantes das mais expressivas correntes políticas brasileiras: à esquerda, à direita e ao centro. De diferentes regiões, com origens políticas diversas, incluindo representantes expressivos da ditadura militar.” Assim, a amostra é deveras expressiva.
       
       Ney Figueiredo esclarece que o livro por ele organizado não foi concebido como tese acadêmica. Tomou por modelo o que tem sido denominado de “jornalismo investigativo”, isto é, proceder a uma investigação, com toda a isenção possível, buscando ater-se exclusivamente às provas documentais.
       Confessa que os resultados o surpreenderam. Não ficou provado que os dois personagens que eram ricos antes de ascender o poder e assim permaneceram, Getúlio Vargas e Leonel Brizola, se tivessem beneficiado do Estado para engordar o patrimônio. Conclui: “Todas as personagens públicas biografadas, com exceção de Getúlio Vargas e Leonel Brizola, morreram em situação patrimonial financeira modesta. Todos, sem exceção, morreram, infelizes e um deles, Ernesto Geisel, o presidente mais poderoso do regime militar, costumava dizer que não teve um só dia feliz em toda a sua vida”.
       
       Em que pese a constatação, o organizador do inquérito dela não se valeu para isentar a classe política com a qual se identifica a corrupção existente no país. E a associa, devidamente, ao agigantamento assumido pelo Estado. De nossa parte, se procurarmos datá-lo poderíamos acrescentar que este fenômeno que Ney Figueiredo denomina de “tamanho do Estado e seu alto grau de controle sobre a economia” incidiu especialmente sobre a geração subseqüente de políticos. Com efeito, a proliferação de empresas estatais ocorreu no período dos governos militares. Ainda que no governo FHC alguns segmentos tenham sido privatizados, no atual governo a Petrobrás tem ampliado sua atuação; não se deu curso à transferência de controle acionário das geradoras de energia elétrica; o Estado continua com ingerência nos portos; as agências reguladoras foram esvaziadas. Enfim, o Estado detém um quantidade imensa de cargos onde são propícias as oportunidades de negócios.
       
       As sugestões de Ney Figueiredo são na linha de serem melhor institucionalizadas as formas de controle da evolução do patrimônio dos políticos, de um modo geral. Simpatiza com o financiamento público das campanhas eleitorais. Com toda razão aponta para o caráter imperativo do fortalecimento dos partidos políticos, ao escrever: “Ainda não se inventou um sistema de governo democrático que prescindisse de partidos fortes e estruturados. Não estará aí o nosso grande problema?”
       
       Aponta ainda este aspecto: “É forçoso reconhecer, também, que criamos práticas erradas de gestão do dinheiro público, e o desempenho da intrincada burocracia favorece um tipo de política que obedece mais à lógica dos interesses particulares e da manutenção de um esquema político do que ao interesse público. ... Exemplos como os citados neste livro mostram que é uma ilusão associar todos os políticos à corrupção. O que vai definir a paleta com que serão delineadas suas biografias –refiro-me aos políticos em geral – é uma mistura de amor próprio, formação ética e, do lado do país, a capacidade de viver com intensidade sob o império das leis. Se a ética vira lei, a virtude do seu rigor expulsará os males da impunidade.”
       
       
       Especialista em marketing político, cientista social, Ney Figueiredo é membro do Centro de Estudos de Opinião Pública da Unicamp. Nos últimos 25 anos, atuou como consultor das principais entidades empresariais brasileiras – entre estas Fiesp, Febraban, CNI, CNF e Fecomercio (SP). Figura entre os profissionais com maior participação em campanhas políticas no Brasil, tendo colaborado em quase uma centena delas, graças a que é reconhecido como introdutor do marketing político entre nós. É autor de vários livros relacionados a essa experiência profissional.
       
       
       

Antonio Paim
Concluiu sua formação acadêmica na antiga Universidade do Brasil, atual UFRJ, iniciando carreira acadêmica na década de sessenta, na então denominada Faculdade Nacional de Filosofia, tendo pertencido igualmente a outras universidades. Aposentou-se em 1989, como professor titular e livre docente. Desde então, integra a assessoria do Instituto Tancredo Neves, que passou a denominar-se Fundação Liberdade e Cidadania. É autor de diversas obras relacionadas à filosofia geral, à filosofia brasileira e à filosofia política.

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