Noticiário
Ano II - n. 5 - julho / setembro, 2009

 
Falecimento de Ralf Dahrendorf

       
       
       Ralf Dahrendorf faleceu a 17 de junho último, na cidade alemã de Colônia, onde se achava internado para tratamento no hospital universitário, com a idade de 80 anos, tendo nascido em Hamburgo, em 1929. Seu pai (Gustav Dahrendorf) era um líder social-democrata, perseguido primeiro pelos nazistas e depois pelos comunistas na então denominada República Democrática Alemã. Concluiu seus estudos na Universidade de Hamburgo (licenciou-se em filosofia em 1952, aos 23 anos), obtendo, em 1956, o grau de doutor em sociologia pela London School of Economics. Dedicou-se ao magistério, tendo ministrado cursos nos Estados Unidos e na Alemanha. Ingressando na carreira política, elegeu-se deputado estadual, em Baden Wurtemberg, e depois, em 1969, para o Parlamento Federal. Foi Ministro dos Negócios Estrangeiros no primeiro governo Willy Brandt, tornando-se em 1970 membro do Comissariado Europeu, em Bruxelas, funções que exerceu até 1974. Em seguida, assumiu o cargo de reitor da London School of Economics (atividade que desenvolve entre 1974 e 1984). Radicando-se na Inglaterra, tornou-se cidadão britânico em 1988. Foi distinguido com a escolha para integrar a Câmara dos Lordes.
       Progressivamente, Ralf Dahrendorf destacar-se-ia entre os teóricos do liberalismo, como autor de extensa bibliografia. Diversos de seus livros foram traduzidos no Brasil, entre estes Sociedade e Liberdade, A Nova Liberdade, O Liberalismo na Europa e A Revolução na Europa, este último a propósito da derrocada do mundo comunista. Considera-se entretanto que sua mais importante contribuição, no que se refere ao enriquecimento da doutrina liberal consiste no desenvolvimento que deu ao conceito de conflito social, a partir desta obra, publicada em 1959: As classes sociais e seus conflitos na sociedade industrial.
       
       Nos países de língua inglesa, teve grande influência a sociologia de Talcott Parsons, denominada de funcionalismo. Essa corrente muito contribuiu para estimular a observação e enriquecer o conhecimento da sociedade, através das funções exercidas pelos diversos sistemas. Muitas de suas conquistas tornaram-se lugares-comuns, a exemplo da descoberta de que à escola incumbe a função de promover a socialização das pessoas, isto é, a inserção dos indivíduos na sociedade. Contudo, ao preconizar que a sociedade tende ao equilíbrio, compensando-se as funções dos diversos sistemas, estimulou o surgimento de vertentes conservadoras na sociologia, notadamente a que chegou a atribuir caráter patológico ao conflito e à divergência. Este tipo de postulado entrava naturalmente em contradição com a vida democrática americana, estimuladora da diversidade, do pluralismo e portanto da divergência. Por essa razão, sobretudo neste pós-guerra, a sociologia de língua inglesa começa a interessar-se por temas que, de certa forma, haviam sido abandonados pelo funcionalismo, agregados todos sob a rubrica da mudança social.
       
       Buscando inserir-se no âmago dessa discussão, Dahrendorf pôde estabelecer que o conflito é parte insuperável da vida em sociedade, como desvendou o seu papel, isto é, sua função, para usar um termo empregado pela sociologia da época. Na visão de Dahrendorf, a função do conflito é permitir a criatividade e a mudança. A sociedade não compreende apenas a continuidade. Deve dispor de mecanismos que propiciem igualmente a renovação. Assim, na sua própria formulação, “o conflito significa a grande esperança de uma superação digna e racional da vida em sociedade”.
       
       A fim de destacar o significado da mencionada contribuição, será suficiente referir esta conclusão de Dahrendorf: “Graças às categorias da teoria do conflito podem-se determinar também as diferenças clássicas existentes entre as formas estatais democráticas e totalitárias. Num sentido determinado, a democracia e o totalitarismo são duas maneiras de tratar os conflitos sociais: o totalitarismo baseia-se na repressão (freqüentemente proclamada como solução) de conflitos; a democracia, na sua regulamentação. Noutro sentido, as formas democráticas prosperam em sociedades com estruturas pluralistas, com um grau de mobilidade elevado e múltiplas possibilidades de organização; os estados totalitários exigem, ao contrário, sociedades monolíticas, nas quais um mesmo e único grupo dirige toda a ordem institucional, sociedades carentes de certo processo de mobilidade social e de liberdade de coalizão.” (Sociedade e Liberdade, trad. bras., Ed. UnB, 1981, p. 153).
       
       O falecimento de Ralf Dahrendorf representa uma grande perda para o pensamento liberal contemporâneo.

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