Resenha
Ano IV - n. 16 - abril / junho, 2012

 
Francis Fukuyama - The Origins of Political Order

João Paulo M Peixoto *

       Francis Fukuyama - The Origins of Political Order. From Prehuman Times to the French Revolution. New York: Farrar, Strauss and Giroux, 2011.
       
       Fukuyama já havia causado inquietação e reflexão com seu famoso artigo de 1991 chamado “O fim da história”. Texto que o lançou mundialmente nos meios acadêmicos e onde previa o triunfo generalizado do liberalismo como resposta ao fim do comunismo, tendo como tema a dialética hegeliana. Desde então o autor vem se dedicando ao estudo do Estado em suas diferentes fases e manifestações.
       
       Aborda-se desta vez seu recentíssimo livro que trata de tema fundamental da política desde sempre: a ordem política.
       
       Distribuído em 5 partes, o autor revisita várias fases que vão da necessidade da política, à chegada do Leviatã; tribalismo; cristianismo; governo patriarcal; origem e desenvolvimento do Estado de Direito; despotismo; o moderno conceito de accountability e uma nova apreciação de um tema antigo na ciência política: o desenvolvimento político.
       
       De início declara que o propósito do livro é preencher alguns gaps de amnésia histórica, dando conta de onde vieram instituições políticas básicas em sociedades que atualmente as tem como ‘naturais’ (take for granted). As três categorias de instituições são descritas como: 1. O Estado. 2. O Estado de Direito 3. Governo accountable.
       
       Com abordagens em linguagem simples e precisa, o autor disserta sobre temas clássicos da política e da filosofia política, assim como de pensadores que estão no âmago da política desde suas origens.
       
       Por outro lado levanta questões intrigantes do tipo: “porque ainda hoje nações como Afeganistão; Melanésia e parte do Oriente Médio continuam tribalmente organizadas”?
       
       Ainda, porque nações latino-americanas têm uma história de crônica inflação e os Estados Unidos e Canadá não?
       
       Mais adiante trata de um dos seus temas prediletos – state building. Aliás, tema de um dos seus livros.
       
       A parte 3 é dedicada às origens do Estado de Direito (Rule of Law); a simbiose entre Igreja e Estado e ao despotismo. Nela ao salientar as relações entre o cristianismo e a família, ressalta o engano de Marx. E ainda, como a Igreja Católica destruiu extensivos relacionamentos grupais. O despotismo oriental, islamismo separação entre Estado e Igreja são temas importantes neste capítulo.
       
       O capítulo seguinte cuida do surgimento do governo accountable e da própria accountability. E também a importância da lei e da ordem no desenvolvimento das nações europeias. Não podendo deixar de observar a exportação do patrimonialismo através do Atlântico.
       
       Ao tratar do tema rente seekers (apropriação do Estado por determinados grupos) Fukuyama aponta para o Ancien régime em França como origem dessa distorção política do Estado.
       
       Finalmente, no último capítulo o autor disseca o tema do desenvolvimento político antes e agora. Ao lançar temas para o futuro, chama atenção para o futuro da democracia liberal, pontuando que o sucesso verificado num determinado momento histórico, não é garantia de que assim prossiga ao longo do tempo. Particularmente devido ao fenômeno da decadência política. “Enquanto a democracia liberal pode ser considerada a forma mais legítima de governo, sua legitimidade está condicionada ao desempenho”.
       
       Percebe-se que a cultura política é uma variável importante na análise das sociedades e do seu desenvolvimento. Tese abordada por outros autores, como Lawrence Harrison e Samuel Huntington (a cuja memória o livro é dedicado), os quais certamente influenciaram e corroboram o pensamento de Fukuyama.
       
       Em suas mais de 500 páginas de comparações e problemas que vão do tribalismo às modernas sociedades industriais, a trajetória política humana e as origens da ordem política são retratadas por ele com o auxílio de várias outras disciplinas que não a ciência política. O que o torna um pensador global e ao mesmo tempo um intelectual no sentido clássico da palavra. E mais virá no prometido segundo volume.
       
       Enfim, um grande livro. Em todos os sentidos.

João Paulo M Peixoto
Pesquisador Associado do Centro de Estudos Avançados em Governo e Administração Pública da UnB e professor associado internacional do VILLA Victoria University of Wellington, New Zealand. Seu livro mais recente (Org.) é “Governando o Governo: modernização da administração pública no Brasil”. Foi assessor dos Ministérios da Educação e Fazenda no Brasil servindo também em organizações internacionais

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