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Ano I - n. 1 - julho / setembro, 2008

 
O Brasil e os desafios da competitividade internacional

Eiiti Sato *

       A presente análise tem por objetivo discutir dois aspectos associados à formulação de políticas consideradas necessárias para extrair, de fato, os benefícios do grande potencial de crescimento da economia brasileira: no plano doméstico, a coragem para reorientar a ação tradicionalmente viciosa das instituições e dos agentes econômicos e, no plano externo, o adequado pragmatismo para desenvolver estratégias em harmonia com aos padrões e tendências internacionais. O ensaio mostra que os países que se revelaram casos expressivos de sucesso econômico desde a Segunda Guerra Mundial foram aqueles que conseguiram, cada qual à sua maneira, combinar adequadamente suas práticas e instituições domésticas com padrões, oportunidades e forças em ação na esfera internacional.
       
       A combinação dessas duas facetas da política de Estado, obviamente, depende da maneira como a ordem interna e a ordem externa são vistas. No cenário externo, este ensaio destaca a importância do caráter anárquico do meio internacional, que tem recrudescido nas últimas décadas tornando a busca da modernização tecnológica e da competitividade um fator essencial para as nações. No plano doméstico, de maneira correspondente, os casos de maior sucesso têm sido os países que, de maneira variada, praticaram políticas voltadas para a eficiência e o desempenho. Na verdade, não se pode dizer que esse tipo de combinação deva ser interpretado como padrão permanente, mas parece razoável pensar que em sociedades organizadas e estáveis existe uma alternância entre períodos marcados pela preocupação pela ordem, pela eficiência e pela valorização do mérito e períodos em que predominam as preocupações com a promoção da igualdade e a valorização da cooperação. Assim, o que o ensaio sugere é que, à semelhança do argumento de Kondratief em relação aos grandes ciclos econômicos, o mundo estaria vivendo nas últimas décadas um longo ciclo em que a eficiência e a valorização do mérito tem prevalecido sobre as políticas voltadas para o igualitarismo.
       
       Neste ensaio explora-se a importância e a necessidade de se levar em conta uma realidade paradoxal. De um lado, é inegável que houve um substancial avanço do multilateralismo (muitas vezes referido como “cooperação internacional”) mas, simultaneamente, observa-se o recrudescimento do caráter anárquico do meio internacional. Muitos governos, em especial entre os países em desenvolvimento, ao formular suas políticas, parecem não prestar a atenção devida a essa realidade. Na verdade, como interpretar e como conviver de modo construtivo com essa realidade seria o grande desafio das sociedades neste início do século XXI. Esta análise procura discutir basicamente como o entendimento adequado dessas duas forças contraditórias é essencial para a formulação de políticas eficazes para a geração de riquezas e a melhoria da qualidade de vida, entendida como elevação dos padrões de saúde, acesso ao conhecimento e usufruto das facilidades e amenidades geradas pela moderna tecnologia.
       
       A política externa e o meio internacional anárquico
       
       Um primeiro ponto a ser considerado é a atitude relativamente freqüente entre os governantes de países em desenvolvimento no sentido de orientar suas ações no plano externo a partir do entendimento de que o grau de independência e de autonomia de um governo é revelado pela sua capacidade de opor-se à ordem internacional que deve ser considerada como indesejável. Por essa ótica, o governo sempre revelaria fraqueza ao aceitar a ordem internacional como variável condicionante de suas políticas. Em outras palavras, objetivos nacionais, quaisquer que fossem, deveriam ser perseguidos a despeito de eventuais circunstâncias desfavoráveis e o cenário internacional deveria ser, via de regra, visto como uma realidade a ser modificada. Entre as razões mais comuns para essa forma de ver a ordem internacional estão os sentimentos nacionalistas, as tentativas de ocultar sua própria incapacidade de governar, a defesa de interesses de grupos mais influentes que formam a base de sustentação política do governo, entre outras.
       
       A presunção de que uma nação pode, individualmente, desconsiderar o caráter condicionante da ordem internacional pode ter origem em muitas razões, mas as condições adversas, tanto quanto as oportunidades favoráveis existentes no ambiente internacional, são circunstâncias objetivas que permanecem as mesmas, quaisquer que sejam as opiniões dos governantes. O pior é que os efeitos problemáticos das políticas incongruentes com a ordem internacional – sejam disputas e conflitos desnecessários, sejam as oportunidades perdidas – também serão sentidos, independentemente dos motivos que tenham levado um governo a adotar um curso de confrontação com as forças em ação na ordem internacional.
       
       A razão fundamental para se considerar o ambiente internacional como variável condicionante e cujo comportamento dificilmente pode ser influenciado de maneira significativa pela ação individual de governos está no caráter anárquico do meio internacional. Sob a influência de um ambiente anárquico as ações e iniciativas são predominantemente individuais. Um governo não pode presumir que objetivos comuns, ainda que muito desejáveis, serão perseguidos por outros governos com o mesmo empenho e determinação diante das oportunidades que não se apresentam de maneira homogênea para todos os governos. A teoria tradicional qualifica o comportamento típico dos governos num ambiente internacional anárquico como “ help”, isto é, nesse ambiente alianças e acordos serão efetivados apenas quando cada participante percebe que, de alguma forma, é mais vantajoso participar do que permanecer à margem desses acordos e alianças. Em razão desse fato, à medida que o teor de anarquia aumenta, a disposição de estabelecer arranjos cooperativos tende a diminuir, uma vez que arranjos internacionais demandam compromissos com certa garantia de estabilidade o que, num ambiente em rápida transformação, é sempre um risco. No jargão especializado das relações internacionais, significa dizer que o multilateralismo perde espaço para as ações unilaterais. Em outras palavras, o meio internacional torna-se, mais e mais, um cenário a ser observado e não uma realidade a ser transformada por iniciativa de algum governo em particular, independente dos recursos de poder que tenha a seu dispor.
       
       A distinção entre a ordem interna dos estados e o conteúdo anárquico do meio internacional é amplamente conhecida e discutida mas, para os propósitos da presente análise, parece importante retomar o significado desse conceito pois, na formulação de políticas, nem sempre se dá a devida atenção a essa questão e às suas inevitáveis conseqüências. A aparente organização da vida internacional traduzida nas relações comerciais e financeiras, nas comunicações ou nas impressões que são colhidas por qualquer um numa viagem a outros países esconde a natureza anárquica do meio internacional quando o assunto é a política e a ação dos governos. De fato, apesar do estabelecimento de regimes internacionais que, em grande medida, orientam e limitam as ações dos atores no meio internacional, não se pode dizer que o nível de “governança” internacional possa ser comparado ao que ocorre no âmbito dos estados, especialmente daqueles mais organizados e estáveis.
       
       Com efeito, os regimes internacionais apresentam diferentes níveis de eficácia, dependendo da “issue area” a que se refere. Assim, o nível de “governança” internacional no comércio é bem mais elevado do que na questão da proliferação da tecnologia nuclear mas, mesmo no comércio, há vários aspectos que permanecem fora dos limites das regras do regime, como é o caso do comércio agrícola, marcado por sucessivos impasses nas recentes rodadas de negociação. Enquanto as normas internacionais são relativamente escassas e difusas, na esfera doméstica há uma estrutura jurídica ampla e claramente estabelecida. Além disso, essa estrutura conta com um sistema de coerção que faz com que indivíduos e instituições convivam sob o império de uma ordem jurídica bem definida. Hoje, os chamados estados falidos (failed states), em que o sistema de coerção é ineficaz para estabelecer uma ordem política, econômica e social, são em número muito reduzido se comparados com a grande maioria dos estados organizados e reconhecidos. Entre os cerca de duas centenas de Estados-membros da ONU apenas uma dezena poderiam ser caracterizados como failed states como o Haiti ou o Sudão. No âmbito doméstico dos estados organizados, políticas governamentais têm respaldo nas leis e são garantidas pela estrutura de coerção representada pelas instituições que podem não apenas induzir o comportamento de indivíduos e organizações, mas podem proibir ou tornar compulsório o porte de algum documento, o pagamento de impostos ou a observância de uma lei de trânsito. Além disso, uma característica da ordem interna é que a aplicação de uma lei ou a adoção de algum dispositivo por parte de um governo tem, no âmbito doméstico, um caráter universal, isto é, deve ser estendido a todos.
       
       No plano internacional, por outro lado, as normas são frouxas e difusas e além disso, na maioria das instâncias, há pouca garantia de que uma norma ou decisão tomada em alguma instância venha a ser efetivamente cumprida. A ONU produz essencialmente “recomendações”, que não são mandatórias, tendo essencialmente o sabor de uma sanção moral. Mesmo no caso de haver uma “resolução” produzida pelo Conselho de Segurança da ONU com caráter mandatório, o cumprimento dessa resolução dependerá diretamente da vontade e da ação de Estados-membros que, efetivamente, enviam soldados e recursos para que a resolução seja cumprida. As missões de paz, os programas de ajuda humanitária e a intervenção militar para retirar Saddan Hussein do Kwait no início da década de 1990 são exemplos dessa dependência das instâncias internacionais em relação à vontade e aos recursos dos Estados-membros que, soberanamente, decidem sobre o nível de seu comprometimento com os custos da implementação de resoluções de instâncias internacionais como a ONU.
       
       O meio internacional anárquico: o fator tecnológico
       
       O ambiente anárquico do meio internacional estimula o unilateralismo no comportamento dos atores e vários fatores têm contribuído para que o caráter anárquico do meio internacional ganhasse momentum nas últimas décadas. A primeira ordem de fatores que torna o meio internacional mais anárquico refere-se à evolução em ritmo frenético da base tecnológica que serve de sustentação para essa realidade. Mudanças tecnológicas podem alterar ou introduzir padrões industriais retirando competitividade de produtores tradicionais e, ao mesmo tempo, fazendo surgir novas indústrias em regiões tradicionalmente pouco afeitas à produção de certos bens. Da mesma forma, o valor relativo das commodities pode sofrer fortes variações em função de mudanças nos processos de produção, em razão do desenvolvimento de novos produtos ou simplesmente pela descoberta de novas fontes. No caso do petróleo, a contínua elevação dos preços e as conseqüentes incertezas do mercado na década de 1970 viabilizaram o desenvolvimento de alternativas energéticas como o álcool da cana e fizeram também com que países como o Brasil e o Reino Unido se tornassem produtores de petróleo. Até então o Reino Unido não explorava os poços de petróleo do Mar do Norte e o Brasil importava mais de 90% do petróleo que consumia. Ao preço de US$2/barril era completamente inviável a extração de petróleo em poços offshore.
       
       O fato é que uma característica marcante do mundo contemporâneo tem sido a busca continuada e generalizada por inovações em todos os campos da atividade econômica. Nesse ambiente, os governos têm, sistematicamente, destinado recursos e posto em prática políticas com vistas ao desenvolvimento tecnológico. Como os resultados dessas políticas não se distribuem de forma homogênea, os avanços técnicos e os ganhos de riqueza resultantes também favorecem mais algumas sociedades em detrimento de outras. Obviamente, as maiores chances de desenvolvimento e inovação estão distribuídas entre as sociedades mais ricas e avançadas, entre outras razões porque investem maiores somas de recursos e podem investir em áreas fundamentais mais dispendiosas como biotecnologia, exploração do espaço exterior, telecomunicações, etc. Além disso, as sociedades mais avançadas, via de regra, possuem maiores oportunidades de ganhos de escala e, por atuarem de modo mais ativamente em mercados altamente competitivos, demandam novidades e inovações com muito maior avidez.
       
       No início do século XX o petróleo tornou-se uma commodity central no comércio internacional em função de sua importância como insumo energético muito mais eficiente e versátil do que o carvão. Do mesmo modo, o desenvolvimento da tecnologia da informática a partir da década de 1970 trouxe mudanças substanciais para a indústria e para o sistema econômico como um todo mudando completamente os padrões de produção, dos transporte e dos mercados de consumo. No início da década de 1950, os bens agrícolas respondiam por 44% do comércio internacional, já em 2005 essa participação havia caído para apenas 8%. (1). Transformações como essas produziram nas últimas décadas uma economia substantivamente nova e diferente em termos de mercados de trabalho, de oportunidades de investimento e também de problemas para os países. Algumas sociedades adaptaram-se às novas condições por meio de medidas por vezes drásticas, outras aproveitaram com sucesso os novos nichos de oportunidade e ainda outras perderam competitividade ou simplesmente permaneceram alheias a essas transformações não se beneficiando das possibilidades que se abriam com as mudanças em curso.
       
       Com efeito, nos últimos anos, mesmo o mercado de um bem tão tradicional quanto o petróleo revela-se francamente suscetível às injunções de um ambiente internacional marcado por incertezas. Dada a importância do petróleo para a vida moderna, a continuada elevação dos preços dessa commodity vem produzindo reações e transformações cujos reflexos na ordem econômica começam a emergir. A persistente elevação dos preços do petróleo pode viabilizar, como já vem acontecendo, a disseminação da produção e do uso dos bio-combustíveis e pode também viabilizar a exploração de novas reservas petrolíferas com emprego de tecnologias mais sofisticadas. Todavia os preços cada vez mais exorbitantes podem, por outro lado, fazer surgir tecnologias que acabem por substituir com eficiência os combustíveis derivados do petróleo e reduza a importância relativa dos bio-combustíves como fonte de suprimento das necessidades de insumos energéticos. O fato é que o processo ainda está em curso e os agentes de mudança são muitos. Talvez os menos relevantes sejam os governos integrantes da OPEP. Na década de 1970 a cartelização da oferta, representada pela OPEP, teve um papel central a partir do impulso inicial dado pela tentativa dos países árabes no sentido de empregar o petróleo como instrumento de pressão política sobre as potências que apoiavam Israel. Na atualidade, as forças que têm atuado sobre o mercado do petróleo são muito mais complexas e variadas, entre elas o crescimento generalizado da demanda, especialmente em decorrência de casos como o da China, que tem revelado enorme voracidade no consumo de insumos energéticos e de muitas outras commodities importantes para uma indústria que se expande e se diversifica rapidamente.
       
       O meio internacional anárquico: o fim da bipolaridade
       
       Um outro fator que contribuiu significativamente para reforçar o caráter anárquico do meio internacional foi a emergência de vários pólos de dinamismo econômico consolidando a multipolarização da política internacional. O fim da guerra fria pode ser tomado como símbolo ou marco de uma grande transformação estrutural das relações internacionais, que passou da bipolaridade para uma ordem internacional formada por uma hierarquia de poder mais difusa e complexa. Muito embora classificações do tipo “bipolar versus multipolar” seja sempre uma simplificação de uma realidade muito mais complexa, a visão de um mundo marcado pela bipolaridade teve, durante considerável parte do tempo, um papel importante na formulação da política exterior não apenas dos Estados Unidos e da União Soviética, que ocupavam o centro dessa dicotomia, mas de todos os demais países do sistema internacional. A bipolaridade da guerra fria, efetivamente, condicionava fortemente o ambiente internacional orientando a agenda dos temas em debate e, principalmente, limitando as opções de política externa de muitos países.
       
       O peso dos Estados Unidos no mundo que emergiu da Segunda Guerra Mundial sugere que, na verdade, jamais houve uma bipolaridade efetiva, mas é inegável que a política de confrontação com os Estados Unidos e seus aliados e a posse de arsenal nuclear no início da década de 1950, punha a URSS numa posição ímpar diante do restante do mundo. Além disso, ao mesmo tempo em que a Europa Ocidental se reerguia, assim como o Japão, a maioria das políticas e das iniciativas no plano externo dos países tomava como ponto de partida a rivalidade EUA-URSS. Assim, apesar de eventuais questionamentos que poderiam ser levantados acerca da real importância da guerra fria, o que se conhece desse período da história recente ajuda a compreender o argumento do avanço da condição anárquica do meio internacional. (2)
       
       Com efeito, os historiadores mostram que no ambiente bipolarizado da guerra fria, as opções de política externa eram muito mais limitadas para a maioria dos países. As possíveis alianças e associações restringiam-se a duas esferas de influência, a soviética e a americana. Sair de um dos campos significava, automaticamente, passar para o campo oposto. Cuba, sem dúvida, foi o caso mais notável que exemplifica essa característica da política internacional no período. Deixar a associação com os Estados Unidos significou para Cuba, literalmente, passar para o campo inimigo, tornando-se alvo de sanções e restrições sustentadas pelo poder americano.
       
       Além disso, talvez até mais relevante, era o fato de que as opções, mesmo dentro da esfera de influência de cada uma das superpotências, também eram limitadas. No âmbito de influência soviética as intervenções na Hungria (1956) e na Checoslováquia (1968) mostram o quanto eram consideradas intoleráveis as iniciativas levadas a efeito à margem da política soviética. No lado do bloco liderado pelos Estados Unidos, os recursos necessários ao desenvolvimento econômico estavam fortemente concentrados na economia americana. A reconstrução da Europa, inclusive os avanços no processo de integração, foi um processo onde os recursos oriundos dos Estados Unidos desempenharam um papel central. Da mesma forma, o re-erguimento do Japão também contou com o suporte dos recursos americanos. Esses fatos mostram que, com todos os problemas, o que se convencionou chamar de condição bipolar tornava as relações internacionais um ambiente menos anárquico, com regras e padrões relativamente bem definidos. Embora informais, esses padrões serviam como referenciais orientadores da ordem internacional. O fato é que a emergência de um mundo multipolarizado – tanto na ordem econômica quanto na esfera da política internacional – trouxe consigo uma crescente variedade de opções para a cena internacional.
       
       É interessante observar que no pós-guerra imediato o PIB dos Estados Unidos era maior do que o PIB de todas as demais grandes potências somadas. No início da década de 1990, quando a guerra fria chegava ao seu final, no entanto, essa proporção havia se alterado substantivamente. Um dado bastante revelador dessa nova realidade é o fato de que ao final da guerra fria, no comércio, o volume das transações externas da Alemanha Ocidental havia se igualado ao dos Estados Unidos. (3). Uma realidade muito diferente daquela da década de 1950 quando japoneses e alemães procuravam assimilar a tecnologia americana seja para suas indústrias, seja para a produção de bens de consumo como automóveis e eletrodomésticos.
       
       No seio dos países em desenvolvimento, a iniciativa que ficou conhecida como “movimento dos não-alinhados” representou, provavelmente, a expressão mais ampla de busca de alternativas fora do confronto leste-oeste. O alcance desse movimento, no entanto, foi muito limitado, restringindo-se basicamente a manobras políticas na esfera diplomática, com muito pouca repercussão tanto em termos de influência sobre a ordem internacional quanto em termos de resultados econômicos e sociais para os países participantes. Efetivamente, depois de meio século, observa-se que não se verificou qualquer caso de país que tenha participado ativamente desse movimento e que tenha alterado de forma significativa sua situação relativa no cenário internacional em termos de indicadores econômicos e sociais. Na América Latina, a ALALC (Associação Latino Americana de Livre Comércio) criada no início da década de 1960 também apresentou resultados bastante modestos uma vez que o comércio intra-regional era, na verdade, irrelevante para os países da região. Para a maioria dos países latino-americanos, o comércio com os Estados Unidos ou com parceiros tradicionais da Europa era drasticamente mais relevante do que com possíveis parceiros do continente uma vez que as economias da região eram, essencialmente, produtores de bens primários. (4) Além do mais, nações como o Brasil, que começavam a investir mais fortemente na industrialização, o faziam sob a égide de políticas protecionistas inspiradas na estratégia de substituição de importações o que, obviamente, constituía um entrave à integração regional.
       
       Esses são alguns casos que ilustram as fortes limitações de alternativas que marcavam o cenário econômico e político internacional durante boa parte do período marcado pela guerra fria. A emergência de um mundo de alternativas e opções mais variadas tornou-se mais e mais visível apenas a partir dos fins da década de 1970. A chamada “política externa independente” iniciada no final do Governo Kubitschek foi essencialmente uma reação diante da pouca atenção dispensada pelos Estados Unidos ao esforço de progresso e industrialização do Brasil e que se estendia aos demais países “ao sul do Rio Grande”. À época, as opções fora das relações com os Estados Unidos eram, de fato, irrelevantes a não ser a possibilidade de que ocorresse com o Brasil o mesmo que acontecia com Cuba, isto é, o Brasil passasse para a esfera de influência soviética.
       
       Uma década e meia mais tarde, a cena internacional havia se alterado de forma bastante significativa. Com efeito, o programa nuclear brasileiro dos fins da década de 1970 tornou-se possível pela associação com a Alemanha que, a essa altura, já havia avançado significativamente como potência econômica e tecnológica em condições de se constituir efetivamente numa alternativa aos Estados Unidos. Por essa razão, o “pragmatismo responsável” do Governo Geisel constitui um caso dos mais ilustrativos da emergência de pólos econômicos e tecnológicos em condições de concorrer com a posição americana que, gradativamente, deixava de ser dominante. (5) De fato, mesmo diante da forte oposição do governo americano, Brasil e Alemanha firmaram um amplo acordo de cooperação que permitiu ao Brasil instalar sua primeira usina nuclear e também avançar sua capacidade de processamento e emprego de materiais nucleares para fins pacíficos.
       
       Há, portanto, fatos em abundância que mostram que a emergência de novos centros dinâmicos da economia e da política no mundo reforçou o caráter anárquico do meio internacional. A existência de vários centros de poder e de dinamismo econômico no mundo permite variadas combinações e possibilidades, tornando o jogo da política internacional muito mais complexo. Com o avanço do processo de integração internacional, costumeiramente identificado pela expressão “globalização”, são cada vez mais freqüentes os casos de políticas adotadas por governos que se revelam ineficazes em razão de serem incompatíveis com o caráter anárquico das forças em ação no ambiente internacional. Nesse cenário, a aposta no multilateralismo tem se revelado uma manifestação típica desse fracasso que aparece na forma de seguidos impasses nas várias instâncias multilaterais.
       
       As oportunidades e as ações externas num ambiente anárquico
       
       Na mesma medida em que a realidade internacional tem se tornado cada vez mais próxima e familiar tanto para os indivíduos quanto para os estadistas, tem crescido também as expectativas quanto aos benefícios e até mesmo quanto à necessidade da existência de instâncias multilaterais. Nas últimas décadas o substancial adensamento das muitas formas de interação entre as instâncias domésticas e o ambiente internacional tem apontado para a necessidade de se produzir normas e institucionalizar cada vez mais essa interação (6). No entanto, em razão do crescente teor de anarquia, paradoxalmente, apostas em instâncias de negociação multilateral parecem inadequadas diante de um cenário da política internacional onde as forças que dão sustentação à capacidade das nações de obstruir a ação das organizações internacionais têm aumentado muito mais do que a capacidade de construir consensos. Com efeito, a multipolarização discutida nos parágrafos anteriores tem feito com que, cada vez mais, a nova distribuição de forças na ordem internacional dificulte a obtenção de consensos. Em muitas instâncias, mesmo governos de Estados com limitados recursos de poder são capazes de obstruir negociações. Nesse ambiente, a capacidade de bloquear iniciativas tornou-se maior e mais efetiva do que a capacidade de implementação de iniciativas e programas de cooperação gerando sucessivos impasses que, virtualmente, paralisam a ação das instituições e limitam a eficácia dos regimes internacionais. (7) Passados os primeiros momentos de euforia do fim da guerra fria, investir nas instâncias multilaterais tem se tornado um exercício improdutivo não apenas para as nações desprovidas de recursos de poder, mas até mesmo para as grandes potências.
       
       O fato é que, cada vez mais, as nações têm passado a agir de forma unilateral. Entre os casos recentes mais expressivos pode-se citar as rodadas de negociação comercial nas quais alianças por vezes exóticas são formadas com propósitos variados. Muito embora essas alianças não se revelem suficientes para implementar uma determinada proposta, revelam-se suficientes para impedir o avanço das negociações sobre quaisquer outras propostas. Pode-se dizer que o mesmo ocorre com as negociações sobre temas ambientais. As freqüentes referências ao “unilateralismo americano” devem ser, na verdade, estendidas a todas as demais grandes potências e até mesmo a muitas nações de menor expressão. Cada governo, por diferentes razões, vê na cena internacional uma instância na qual pretende obter ganhos ou vitórias diplomáticas que fortaleçam suas posições ou legitimem suas demandas. Nesse quadro, os foros multilaterais são vistos freqüentemente como palcos para manifestações de nacionalismos de diferentes matizes deixando de lado a sua função principal de instâncias de negociação internacional constituídas para resolver divergências, reduzir tensões e abrir oportunidades. Por razões óbvias, chama muito mais a atenção quando os Estados Unidos agem unilateralmente do que quando países como a França, a China ou o Brasil o fazem. O fato é que, na ordem internacional, o teor anárquico do ambiente político tem aumentado, reduzindo o potencial de viabilidade de projetos que dependem diretamente da cooperação espontânea das nações. Os freqüentes e sucessivos impasses nas negociações comerciais e nas questões ambientais são talvez apenas os reflexos mais visíveis de um fenômeno mais geral típico de um ambiente internacional pouco favorável ao multilateralismo.
       
       Esse cenário ajuda a explicar porque algumas sociedades que investiram fortemente em iniciativas de cunho predominantemente pragmático têm sido mais bem sucedidas do que outras na integração aos fluxos econômicos internacionais e aos processos de geração da riqueza. Desde o final da Segunda Guerra Mundial é possível enumerar os casos de sucesso expressivo na geração de riqueza e bem estar para suas populações associando-os à forma com que desenvolveram estratégias de conexão com a ordem internacional: a reconstrução da Europa no pós-guerra imediato, a reconstrução e modernização do Japão, a emergência dos tigres asiáticos e, mais recentemente, o vertiginoso crescimento da China e da Índia. Outros casos de sucesso, obviamente ocorreram, mas não foram tão persistentes e não tiveram a mesma expressão.
       
       Cada um desses casos de sucesso consistiu em experiências individuais e únicas, uma vez que cada nação ou região tem particularidades políticas, sociais e culturais que as individualizam e também têm diante de si circunstâncias que lhes são peculiares. Apesar de tudo, um ponto comum nas estratégias dos governos desses países foi a ação deliberada no sentido de buscar a integração com a economia internacional. As motivações e as circunstâncias políticas que levaram a Europa Ocidental, liderada pela Inglaterra, Alemanha, França e Itália, a buscar a integração com a ordem econômica internacional obviamente foram diferentes daquelas que levaram o Japão ou os Tigres Asiáticos a fazerem o mesmo. No entanto, em todos os casos citados, a disposição no sentido de buscar a integração com as forças em ação no cenário internacional foi clara e inequívoca.
       
       Nesse quadro, nas estratégias de integração com a economia internacional emerge como padrão comum a aliança com os Estados Unidos dada a sua condição de verdadeiro pivô do comércio, das finanças e do sistema monetário internacional. No caso da Europa esse padrão aparece de maneira óbvia no Plano Marshall e nas muitas maneiras pelas quais o avanço da integração européia se beneficiou das relações e mesmo da ajuda americana. No caso do Japão, a guerra da Coréia e a disposição do governo americano de fortalecer sua posição no extremo oriente tiveram papel importante no suporte à reconstrução e modernização da indústria japonesa. Nos casos dos Tigres Asiáticos e, mais recentemente, da China e da Índia a associação com os Estados Unidos deu-se de forma menos oficial e um tanto mais difusa. Particularmente no caso da China, apesar das notáveis diferenças culturais e ideológicas, desde o fim da era Mao Tse Tung, os sucessivos governos buscaram, de forma admiravelmente pragmática, uma associação estratégica com o Ocidente, especialmente com os Estados Unidos.(8) Assim, em todos esses casos, a associação com os Estados Unidos tem sido peça chave da estratégia de integração à economia internacional seja pelo peso da economia americana, seja pelo fato de que, em larga medida, o acesso à maioria dos regimes internacionais ainda depende da liderança do governo americano que, em última instância, reflete os interesses mais variados e profundos da sociedade americana.
       
       De forma mais geral, esses casos de sucesso mostram amplamente que a cena internacional deve ser vista não como uma realidade a ser transformada por meio de ações e de políticas voluntaristas, mas como um ambiente dentro do qual há muitas forças em ação que podem se constituir tanto em fontes de problemas quanto de oportunidades. Nesse ambiente, onde cada sociedade procura seu lugar por meio de alianças e associações, a ação pragmática emerge como a forma mais segura para que oportunidades não sejam desperdiçadas e para que sejam reduzidos os impactos oriundos de problemas gerados pelo jogo de forças na esfera internacional.
       
       Esses fatos indicam que um governo, ao entender que sua política externa deveria ser “autônoma e independente” – em oposição ou a despeito das instituições e práticas internacionais – está afirmando que outros governos também deveriam estar fazendo o mesmo. Caso essa condição não se verifique, políticas com esse teor tendem a resultar em perdas de oportunidade ou, em casos mais extremos, até mesmo num processo de isolamento internacional.
       
       A ordem interna e sua lógica com a ordem internacional
       
       Afirmar que as razões que tornam uma sociedade rica e poderosa são virtudes como a dedicação ao trabalho, o talento e a engenhosidade, não esclarecem muito a questão. A indicação de condições mais objetivas e mensuráveis é um exercício mais trabalhoso e depende da forma como se olha a questão. Neste ensaio a tentativa é observar o fenômeno das diferenças de desempenho e de sucesso entre as nações sob o ponto de vista das relações com o meio internacional.
       
       É comum ouvir a afirmação de que a realidade internacional constitui um elemento condicionante para as nações mas, apesar disso, especialmente nos países em desenvolvimento, não se tem dado suficiente atenção às relações entre o ambiente doméstico e as variáveis em ação no meio internacional. Estratégias de modernização e desenvolvimento acabam sendo freqüentemente formuladas pelos governos como se fossem questões estritamente domésticas. Na verdade, a maioria das referências ao meio internacional tem por objetivo apenas justificar alguma dificuldade ou eventuais maus resultados obtidos na ação governamental, quando não são, simplesmente, o produto de visões voluntaristas sobre cooperação e igualdade no plano internacional. No Brasil, por exemplo, apenas recentemente deixou-se a prática de manejar a taxa de câmbio como instrumento de defesa do setor exportador sem considerar o fato de que artifícios cambiais podem aliviar apenas momentaneamente as dificuldades e que a competitividade resulta de condições estruturais construídas ao longo do tempo. Do mesmo modo, políticas protecionistas também podem ter algum efeito no curto prazo mas podem, por outro lado, comprometer seriamente a aplicação de estratégias de desenvolvimento de longo prazo.
       
       Mancur Olson na obra The Rise and Decline of Nations, escrita há mais de 20 anos, oferece uma linha interessante de interpretação para a questão argumentando que a presença de elementos de “rigidez social” pode ser um grande obstáculo ao progresso e à modernização. (9) Os elementos de rigidez social para Olson seriam segmentos da sociedade reunidos em torno de certos interesses particulares formando grupos de pressão, formais ou informais, que em geral se mostram resistentes à inovação e à modernização das economias. Esses grupos de pressão podem ser originários de setores da economia ou podem estar entranhados na própria burocracia estatal. No caso das sociedades que atingiram níveis elevados em seu padrão de riqueza, a ação desses grupos, ao prevalecer sobre as iniciativas de inovação e de modernização do parque produtivo, pode levar à perda de competitividade e ao declínio. Olson cita os casos mais extremos ocorridos após a Segunda Guerra Mundial – a Alemanha e o Japão – que, em larga medida, se beneficiaram do fato de que, em ambos os casos, os focos de “rigidez social” haviam sido eliminados juntamente com a destruição trazida pela guerra. Tanto no caso da Alemanha quanto do Japão, os governos do pós-guerra puderam, livremente, trabalhar na reconstrução sem a preocupação de acomodar interesses longamente entranhados nas estruturas sociais e econômicas dos dois países. Contrariamente, argumenta Olson, para a Inglaterra, as duas ou três décadas que se seguiram ao final da guerra foram marcadas pela estagnação, em grande medida pelo fato de que os focos de rigidez social continuaram ativas apesar das turbulências da guerra. Aliás, ao contrário, como haviam contribuído para o esforço de guerra, esses grupos passaram a cobrar do governo a devida retribuição de que se julgavam merecedores, na forma de políticas que privilegiassem seus interesses.
       
       Ao se observar os acontecimentos mais recentes, conclui-se que os argumentos de Olson, formulados no início da década de 1980, hoje ganham significado muito mais dramático. O avanço da integração internacional e o aumento da velocidade das mudanças tecnológicas verificados especialmente a partir da década de 1970 passaram a ser componentes inerentes à vida econômica. Se nos primórdios da revolução industrial Adam Smith e os economistas chamados “clássicos” viam a divisão do trabalho como fator essencial de progresso e geração de riqueza, hoje a inovação tornou-se uma condição permanente das economias. As inovações surgem e ao mesmo tempo que abrem novas oportunidades, também tornam obsoletas práticas na produção e na organização da produção. Diante dessa realidade, pode-se afirmar que as nações precisam manter-se conectadas com os centros dinâmicos da economia mundial sob pena de perderem competitividade e também as oportunidades que, continuamente, emergem e desaparecem.
       
       O problema é que qualquer inovação traz consigo efeitos sobre interesses distribuídos pelas sociedades de modo diverso e heterogêneo. Cada inovação traz benefícios apenas para alguns segmentos de uma economia, embora seja possível entender que toda a sociedade, no longo prazo, deve acabar por se beneficiar da introdução de inovações. O lado problemático é que, geralmente, num primeiro momento, as inovações beneficiam alguns setores mas, ao mesmo tempo, podem contrariar outros e considerável parte da ação dos governos é decidida nos horizontes dos interesses de curto prazo. A automação bancária trouxe muitas facilidades aos usuários, mas eliminou milhares de empregos. A adoção de tecnologias como a da fibra ótica trouxe grande avanço nas comunicações, mas reduziu a necessidade do emprego dos fios de cobre deixando bastante insatisfeitos a indústria da mineração e metalurgia e também os sindicatos associados a esse metal. Diante dessas questões é que Olson argumenta que focos de rigidez social podem ser sérios entraves à modernização e à competitividade e que, embora no longo prazo seja completamente inviável a manutenção de padrões obsoletos, no curto prazo constituem grupos de pressão atuantes e difíceis de serem satisfeitos. Políticas protecionistas geralmente são produtos dessa realidade que, incomodamente, torna obsoletos muitos interesses e padrões de comportamento longamente estabelecidos e que opõe demandas de curto prazo e perspectivas de longo prazo. Por essa razão, em geral essas políticas estão associadas à ação de sindicatos tanto patronais quanto de trabalhadores que agem no sentido de defender interesses, na maioria das vezes bastante legítimos mas que inevitavelmente acabam por se constituírem em obstáculos à modernização e à competitividade.
       
       Essa questão, vista sob a ótica da lógica dos fenômenos internacionais, mostra que o grande problema é que o governo de uma nação pode, para atender demandas de forças políticas domésticas, impedir a adoção de certas inovações, mas isto não impedirá que outras economias as adotem e ganhem em eficiência e produtividade. A história exibe inúmeros exemplos desse fenômeno como foram os casos de Cuba em relação à cana-de-açúcar depois da Primeira Guerra Mundial ou do Brasil em relação à borracha e também, em larga medida, o próprio café. Com efeito, há muitos trabalhos sobre a história da economia do café que mostram fartamente como a política de sustentação de preços do café ao longo da década de 1920, ao mesmo tempo que favorecia generosamente os cafeicultores brasileiros, também acabou por servir de incentivo aos produtores de café da Colômbia e de outros países concorrentes do Brasil. (10)
       
       Assim, visto sob o prisma do contexto internacional a questão da inovação se afigura central para a abordagem do problema da competitividade. Com o avanço do processo que se convencionou chamar de globalização a dimensão internacional da modernização e do crescimento das economias tornou-se mais crítica. Cabe, portanto, analisar um pouco mais detidamente as relações entre inovação, comportamento do mercado e ambiente internacional.
       
       As inovações podem surgir em laboratórios de pesquisa e desenvolvimento de indústrias, mas podem surgir também em universidades ou até mesmo a partir de programas e de estruturas governamentais voltadas para a solução de alguma demanda específica, uma vez que a inovação não deve ser entendida apenas como novos produtos e novos processos de produção. O conceito de inovação deve incluir também novas maneiras de organizar a produção e até mesmo novas formas de relacionamento entre a esfera pública e o domínio privado. Qualquer desenvolvimento ocorrido nesses âmbitos pode ter conseqüências econômicas importantes. Com efeito, é fácil entender que o desenvolvimento de um novo produto levado a efeito nos laboratórios de pesquisa e desenvolvimento de uma grande indústria deverá provocar mudanças nos padrões de demanda desse produto, de seus similares ou dos insumos utilizados na sua fabricação. Para muitos, no entanto, nem sempre fica muito claro como a agilização dos processos judiciais, a criação de uma agência reguladora ou a eliminação de um imposto pode influenciar de maneira significativa a ação dos agentes econômicos. Essas são razões que explicam por que não é nada fácil para os governos lidar com os focos de “rigidez social” a que se refere Olson.
       
       O mercado constitui, essencialmente, o ambiente dentro do qual as inovações são incorporadas à produção e à vida econômica dos indivíduos e das sociedades. O conceito de mercado, por sua vez, deve ser entendido hoje como um componente da vida dos indivíduos e que apresenta muitas facetas e muitas características e peculiaridades que variam de região para região além de depender da natureza do bem em questão. Ao se falar dos mercados do petróleo, dos eletrodomésticos ou da soja, cada mercado tem suas particularidades, da mesma maneira que o mercado imobiliário varia de uma cidade para outra. Assim, o mercado não deve ser visto como uma espécie de entidade única a ser endeusada ou demonizada, mas como um fenômeno que se manifesta de modo variado no comportamento econômico das pessoas e das organizações. Em alguns casos os fatores locais têm mais importância, em outros a conexão com o meio internacional é mais relevante e, em outros ainda, o nível de intervenção governamental é maior e por vezes até desejável enquanto em outros a intervenção dos órgãos de governo não é apenas indesejável, é inútil. Assim, não é possível encontrar uma descrição de características que sejam comuns a todos os mercados e a todas as economias.
       
       Talvez seja o caso de buscar na analogia com a ordem política um exemplo bastante ilustrativo. Fala-se em nações ou sociedades democráticas como se “sociedade democrática” fosse uma categoria bem definida e homogênea. Entretanto, ao buscar na realidade as sociedades democráticas, encontramos uma enorme variedade. Estados Unidos, Reino Unido e França por certo são sociedades democráticas, mas suas instituições políticas além de serem bastante diferentes entre si, são substantivamente diferentes das da Suécia, do Japão, do Canadá e de outras dezenas de sociedades que podem ser perfeitamente classificadas como democráticas. Umas são monarquias enquanto outras adotaram a forma republicana de governo, algumas são presidencialistas enquanto outras são parlamentaristas, e assim por diante. Mesmo quando se entra no domínio da relação do Estado com a economia, cada uma dessas sociedades consideradas democráticas e pertencentes à categoria das nações liberais de economia de mercado, também definiu ao longo do tempo seus próprios padrões. Enquanto em países como os Estados Unidos e o Japão o orçamento público não atinge 1/3 do PIB, nas grandes democracias da Europa a participação do Estado na economia é bem maior, chegando a representar em países como a Suécia mais da metade da economia do país. Dados como esses contrariam as teses mais simplórias de que a redução da participação do Estado na economia deveria ser um fim a ser perseguido como um princípio, como a liberdade, por todas as democracias liberais de mercado.
       
       Na busca de um elemento que poderia ser considerado comum a esses modelos talvez possa ser apontada a preocupação com a eficiência no uso dos recursos no seu sentido mais amplo. Isto é, uma nação com as dimensões dos Estados Unidos possui características e recursos que permitem operar seu mercado dentro de certos padrões, mas uma economia como a sueca, com um mercado interno muito mais limitado, não pode contar com as mesmas soluções desenvolvidas pela economia americana. Apesar de tudo, elementos como o desperdício, os gastos públicos imprevidentes, ou a pouca sensibilidade para as oportunidades valem tanto para a Suécia, quanto para os Estados Unidos e deveriam valer também para o Brasil. Nesse sentido, Fairbanks & Lindsay no livro “Arando o Mar” (11) exploram o que chamam de sete sintomas do fracasso: mal aproveitamento dos fatores abundantes (recursos naturais e mão-de-obra, em especial); pouca compreensão do mercado (na verdade descaso pelas forças de mercado); desconhecimento do potencial real de competitividade internacional; integração vertical da produção pouco eficiente; pouca integração horizontal entre empresas complementares (12); postura defensiva, apostando sempre no protecionismo; demasiada expectativa em relação às ações do governo.
       
       O que obras como as de Mancur Olson e Fairbanks & Lindsay sugerem é que as sociedades devem alinhar-se com as forças presentes e atuantes na ordem internacional. Alinhar-se, nesse caso significa reconhecer o caráter condicionante da realidade internacional e que a eliminação do desperdício, a eficiência no emprego de recursos escassos e a busca pelas oportunidades constitui o padrão predominante no cenário internacional e que são os governos que devem liderar no âmbito de suas nações o esforço de organizar e fortalecer instituições com vistas a esses objetivos. O que essas análises estão argumentando é que questões como o desmatamento e as queimadas ilegais na Amazônia não devem ser combatidos pelas autoridades do governo brasileiro como resposta a denúncias e pressões externas, mas devem ser combatidos porque são, em si mesmas, uma grande estupidez, um desperdício despropositado e inaceitável, e deveriam ser combatidos ainda que a comunidade internacional mal tivesse dando conta dessas ocorrências. Esse mesmo raciocínio deveria ser estendido a toda a atividade econômica, a começar pelos recursos do setor público que são, em larga medida, desperdiçados em pagamentos por atividades completamente improdutivas e até mesmo em redes de corrupção enquanto estradas, portos e outros elementos estruturais continuam servindo precariamente à produção e aos canais de escoamento. Em outras palavras, ao fazer isso, o País estaria entrando em sintonia com as forças que induzem à criatividade e às inovações que, em larga medida, determinam os padrões de competitividade das economias no mundo.
       
       Considerações finais
       
       Ao discutir os elementos que podem definir a posição internacional de um país como o Brasil em termos da competitividade de sua economia duas questões teóricas podem ajudar o seu entendimento a título de conclusão. A primeira diz respeito à agenda internacional e a segunda, intimamente relacionada à primeira, refere-se ao debate teórico sobre a importância dos atores na determinação dos fenômenos internacionais.
       
       Durante várias décadas a literatura corrente de relações internacionais costumava referir-se à agenda internacional como dividida entre high politics e low politics. Essa divisão trazia em si vários significados, entre eles a idéia de que haveria uma certa hierarquia entre os temas da agenda internacional e, por conseqüência, também a presunção de que certos temas deveriam ser afeitos a chanceleres e governantes, enquanto outros, afeitos à low politics, poderiam ser conduzidos por oficiais de menor escalão e mesmo por atores não-estatais. Nas duas últimas décadas essa forma de classificar os itens da agenda internacional foi sendo abandonada por não mais ajudar a explicar a realidade internacional. Temas tipicamente classificadas como low politics passaram a freqüentar a agenda dos principais estadistas. Encontros bilaterais e conferências internacionais multilaterais sobre comércio, meio-ambiente, cooperação científica e tecnológica, passaram a ser cada vez mais freqüentes e a ocupar a atenção dos governantes das grandes potências.
       
       Nesses assuntos, o papel dos agentes não estatais é fundamental mas, em larga medida, em muitos aspectos essenciais, continuam a depender da ação dos governos, que podem assinar tratados ou estabelecer programas de suporte ao desenvolvimento e à estabilização ou ainda criar programas de estímulo à cooperação científica e tecnológica. Nos últimos anos conferências e encontros internacionais têm ocorrido com o propósito de estabelecer novas regras para o comércio agrícola e programas de redução de emissão de carbono na atmosfera. Os resultados dessas negociações, conduzidas essencialmente por governantes, poderão influenciar de forma significativa os níveis de atividade econômica em muitos países, alterando também o papel e a agenda de ação das entidades não-governamentais.
       
       Apesar de tudo, para os propósitos da presente análise, o Estado continua tendo um papel absolutamente insubstituível no sentido de estabelecer os parâmetros dentro dos quais os atores não-estatais podem agir no âmbito da ordem interna das nações a que pertencem. Empresas, por mais atuantes e por maiores que sejam têm suas ações dependentes da ordem interna das nações onde atuam. Nos casos extremos em que o Estado perdeu a capacidade de organizar a ordem interna (os chamados “failed states”) é difícil imaginar a existência de uma organização empresarial seja de capitais domésticos ou oriundos de outros países. Nos casos de nações “normais”, isto é, com a ordem política e social satisfatoriamente bem organizada, as ações das instituições do Estado no plano doméstico podem ser favoráveis ou contrárias ao bom desempenho dos agentes que geram riqueza e produzem crescimento. Em um mundo em constante transformação é muito difícil que essas ações sejam neutras, isto é, que não influenciem de algum modo a capacidade de inovar e de participar ativamente das mudanças em curso.
       
       Nesse quadro, o meio internacional exerce um papel importante porque fornece os parâmetros dentro dos quais as transformações orientam seu curso. Na década de 1990 os debates acerca do que ficou conhecido como “Consenso de Washington” foram vistos de diferentes maneiras pelos governos. Alguns interpretaram como um conjunto de medidas, um receituário de políticas recomendadas pelas nações mais ricas e que, por essa razão, não deveria ser seguido. Ha-Joon Chang no seu livro “Chutando a Escada” argumenta que as nações em desenvolvimento não deveriam seguir esse “receituário” que, segundo ele, recomenda políticas liberais que os países ricos de hoje não praticaram para construir sua riqueza. (13) Todavia, provavelmente o valor mais importante do “Consenso de Washington” seria o de se constituir num retrato de um momento da economia internacional. Aos governos, especialmente dos países em desenvolvimento a quem se dirigia o “receituário”, caberia, com tranqüilidade e sensatez, observar com cuidado esse retrato e qual a mensagem nele contida. Caberia ver, por exemplo, que as fontes internacionais de recursos para o desenvolvimento estavam limitadas e passaram a seguir regras completamente diferentes dos programas de desenvolvimento das décadas de 1960 e 1970. Isto é, o sentido da cooperação econômica internacional mudara completamente. Além disso, caberia observar também que economias como as da Coréia do Sul (país do próprio Chang), da China e da Índia não consideraram o “Consenso” nem como receituário a ser seguido e nem como algo a ser combatido. Aparentemente viram apenas nesse “consenso”, um retrato das condições por que passava a economia política internacional e que certas expectativas deveriam ser abandonadas e que outros tipos de estratégia deveriam ser postas em prática. Na realidade, um traço marcante na ação das economias asiáticas tem sido a grande dose de pragmatismo. Talvez esse traço de comportamento ajude a explicar um dos fenômenos mais importantes nas relações internacionais do pós-guerra que é a emergência da Ásia.
       
       O fato é que ao se observar a história recente, não há caso de nações que conseguiram construir uma sociedade rica e capaz de se beneficiar das facilidades oferecidas pela modernidade sem se integrarem ao meio internacional. Nessa análise, a título de conclusão, talvez seja o caso de retomar a reflexão sobre um dos aspectos essenciais da natureza do meio internacional. Como tudo que se refere às instituições humanas, as relações internacionais também apresentam certos aspectos paradoxais. Enquanto de um lado há, visivelmente, um processo de integração que se estende e se aprofunda em escala global, de outro, certas manifestações locais e individuais ganham força. James Rosenau propôs o neologismo “fragmegration” para caracterizar essa convivência entre duas forças ou tendências paradoxais observáveis na realidade internacional: de um lado as forças de integração e, de outro, as de fragmentação. (14) Rosenau argumenta que no plano global ocorre o mesmo que em ambientes regionais como o da União Européia, por exemplo, onde as forças de integração convivem com sentimentos e mesmo iniciativas de preservação e valorização de padrões e práticas locais. Percepção semelhante acerca desse caráter paradoxal das coisas humanas serve de ponto de partida para Thomas Friedman quando explora o tema da globalização usando a metáfora da convivência entre o “Lexus” e a “oliveira”. Para Friedman o Lexus (automóvel de luxo fabricado pela Toyota) exemplifica o sentido da busca pela eficiência, do avanço da modernidade e do futuro tecnológico, enquanto a oliveira pode ser vista como símbolo da necessidade do homem de manter suas raízes, de assegurar o sentido da permanência e da individualidade. Nenhuma das duas facetas pode ser desprezada, consistindo o grande desafio em integrar-se ao mundo tecnológico, que é universalista, e, ao mesmo tempo, preservar valores e certas tradições essencialmente locais. O mundo tecnológico é aquele que permite ao homem desfrutar dos benefícios da modernidade, mas são os valores que podem dar sentido à vida e à busca da felicidade.
       
       NOTAS
       
       (1) Dados disponíveis no portal da Organização Mundial do Comércio (WTO)
       
       (2) Paul Johnson conta que, em 1962 quando surgiu a disputa entre China e Índia sobre a região do NEFA, J. K. Galbraith, que era embaixador dos EUA na Índia, teria aconselhado Nehru a respeito de um possível apoio dos EUA: “aposte na guerra fria”, teria aconselhado Galbraith. Como resultado, com o apoio americano, a Índia manteve o direito de soberania sobre o NEFA (J. K. Galbraith. Uma Vida em Nossos Tempos. Editora UnB, 1986. Cap. XXVII).
       
       (3) Os dados sobre a posição dos EUA no pós-guerra estão em P. Kennedy, The Rise and Fall of the Great Powers. Fontana Press, Londres, 1989 (p. 475). Dados sobre o comércio mundial podem ser obtidos no portal da OMC; essa referência sobre o comércio da Alemanha e dos EUA foram extraídos de Indicadores da Economia Mundial n.13 (pub. Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão).
       
       (4) Ver dados em International Trade publicado pelo GATT, Genebra (1965).
       
       (5) Há vários trabalhos a respeito que tratam da política externa do Governo Geisel. Ver , por exemplo, Luis Augusto P. Souto Maior, O Pragmatismo Responsável publicado em J. A. Guilhon Albuquerque, Sessenta Anos de Política Externa Brasileira. 1930-1990. Vol. I. NUPRI/USP, 1996.
       
       (6) Inis Claude argumenta que uma organização internacional surge quando quatro pré-condições se fazem presentes: existem Estados estáveis; o nível de interação adquire densidade significativa; questões derivadas da interação tornam-se relevantes; os atores internalizam a percepção de que é necessário criar uma instância internacional específica para lidar com essas questões derivadas da convivência (Inis L. Claude Jr. Swords into Plowbares.Randon House, N. York, 1964).
       
       (7) A capacidade de veto pode ser formal ou informal. No âmbito das Nações Unidas o veto formal pode ser exercido pelos países do P-5, isto é, pelos cinco países que possuem um assento permanente no Conselho de Segurança. Num sentido mais geral pode-se falar na existência também de um veto informal, que se refere à capacidade difusa que a grande maioria das nações possui no sentido de obstruir a aprovação de resoluções, de medidas ou de acordos nas várias instâncias internacionais. A maioria dessas instâncias opera por consenso e, nesse sentido, mesmo governos representando nações de limitados recursos de poder, incapazes de implementar ações internacionais expressivas, são capazes de obstruir processos de negociação.
       
       (8) Em artigo recente publicado no jornal O Estado de S. Paulo (6/julho/2008, p. 20A), o professor Cui Zhiyan, da Universidade de Tsinghua declara que “o sucesso da economia chinesa se explica menos pelas reformas em direção à economia de mercado do que pelo que a sociedade chinesa tem de socialista”. Apesar disso o artigo mostra como a integração à economia internacional é importante na estratégia de sucesso e como, sobretudo nos primeiros anos, o mercado americano teve papel destacado.
       
       (9) Mancur Olson, The Rise and Decline of Nations. Economic Growth, Stagflation, and Social Rigidities. Yale University Press, 1982.
       
       (10) Ao longo da década de 1920 todas as principais “commodities” perdiam preços no mercado internacional, à exceção do café. Em 1929, às vésperas da crise, os preços de produtos como o trigo e o milho tinham preços em torno de 40% menores do que de 1924. Apenas o café mantinham os mesmos níveis de preço, à custa de financiamentos tomados pelo governo brasileiro obtidos nos mercados de Londres e N. York. Ver Derek H. Aldcroft, From Versailles to Wll Street,. 1919-1929. Allen Lane Penguin Books, Londres, 1977.
       
       (11) Michael Fairbanks & Stace Lindsay. Arando o Mar. Fortalecendo as Fontes Ocultas do Crescimento em Países em Desenvolvimento. Qualitymark Editora, R. de Janeiro, 2002.
       
       (12) Michael Porter em The Competitive Advantage of Nations (Free Press, N. York), livro que fez muito sucesso quando de seu lançamento em 1990, chama de clusters esses conjuntos de empresas que formam setores industriais. Por exemplo, o cluster da indústria de celulose e papel seria composto, além dos fabricantes de pasta de celulose e papel, pelos produtores de madeira, pelos fabricantes de insumos e equipamentos utilizados na fabricação de celulose e papel, pelas empresas de transporte e comercialização de papel e celulose, etc.
       
       (13) Ha-Joon Chang. Chutando a Escada. A Estratégia do Desenvolvimento em Perspectiva Histórica. Editora UNESP, 2003.
       
       (14) James N. Rosenau, Turbulence in World Politics. A Theroy of Change and Continuity. Princeton University Press, 1990.

Eiiti Sato
Paulista de nascimento, diplomou-se em economia pela Fundação Alves Penteado- FAAP, tendo obtido o grau de Mestre em Relações Internacionais na Universidade de Cambridge (U.K.) e de Mestre e Doutor em Sociologia pela Universidade de São Paulo. Foi consultor do Ministério das Relações Exteriores e Coordenador de Projetos do Centro de Estudos Estratégicos (2000/2004). Foi presidente da Associação Brasileira de Relações Internacionais na gestão 2005/2007. Atualmente é professor adjunto da Universidade de Brasília, onde exerce o cargo de diretor do Instituto de Relações Internacionais, com mandato até 2010.

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