Resenha
Ano III - n. 12 - abril / junho, 2011

 
George W. Bush -DECISION POINTS. New York: Crown Publishers, 2010

João Paulo M. Peixoto *

       Dedicando apenas dois dos quatorze capítulos à sua vida antes da presidência, Decision Points, de George Walker Bush (Crown Publishers, New York, 2010) inscreve-se na mesma categoria de livro de memórias ocupada por Tony Blair denominado A Journey. My Political Life. Isto é, um relato mais centrado na própria experiência política do que na vida pessoal. Um livro de memórias certamente, mas também um livro sobre o difícil processo decisório da Casa Branca.
       O presidente Bush, um político admirador da história e dos historiadores - encontrou-se com mais de uma dúzia deles para escrever o livro, tendo se inspirado particularmente na leitura de Memoirs do Presidente Ulysses S. Grant, como sugerido por praticamente todos os historiadores por ele ouvidos. Ao ler este clássico sobre a Guerra Civil norte-americana, decidiu não escrever um diário cronológico e exaustivo de sua vida na presidência. Em vez disso optou por abordar aspectos de decisões tomadas durante o seu tempo na Casa Branca. Assim, conseguiu transmitir a experiência de um líder levado a duras e controversas decisões, numa década intensa de acontecimentos domésticos e globais, destinados a impactar a política e a economia internacionais. Revela-se também um estudo sobre a própria presidência nos Estados Unidos, baseado principalmente em suas recordações, embora contando com a ajuda de seus pesquisadores, e confirmadas por documentos de toda ordem, sendo que alguns ainda permanecem secretos.
       Convém ressaltar que o Presidente confrontou-se em sua administração com alguns momentos decisivos para o País; como o ataque de 11 de setembro de 2001; as guerras do Afeganistão e do Iraque; a decisão de enviar mais tropas para o Iraque em 2007, definida como “The Surge”; os ultra-sensíveis temas domésticos; representados pelo Medicare Parte D; Reforma da Seguridade Social; a Política de Inclusão das Crianças (No Child Left Behind); e a Reforma da Lei de Imigração. Além da exposição negativa do governo federal em virtude da crise de gestão que se seguiu ao desastre ambiental provocado pelo Hurricane Katrina; a questão do apoio às pesquisas com células-tronco (Stem-Cell); e, ao final do mandato, a crise financeira de 2008. Momentos estes que alternaram vitória e derrota pessoal, otimismo e frustração, aliás, como a própria vida dentro ou fora da política.
       George W. Bush, o 43º presidente dos Estados Unidos da América, é um dos dois únicos presidentes norte-americanos filho de um ex-presidente. (1) Ao lidar com mais ou menos sucesso, em 8 anos de mandato, com temas nacionais e internacionais explosivos e de extensa repercussão mundial foi instado a demonstrar qualidades muitas vezes adormecidas, mas que podem emergir em alguns líderes em momentos de extrema tensão. Bush foi um destes políticos que embora às vezes subestimados, podem superar-se perante as graves dificuldades.
       A introdução e os dois primeiros capítulos são dedicados à sua vida pessoal antes da presidência, e particularmente à sua luta contra a bebida, incluindo alguns porres homéricos e as sucessivas quebras de promessas de largá-la; o encontro com a religião; a incursão no mundo dos negócios (como proprietário de um time de basebol) e, finalmente, o engajamento definitivo na política.
       Sem ter sido um aluno brilhante, embora tenha passado por duas universidades da chamada Ive League (Yale e Harvard), mostrou posteriormente que viria a realizar-se não na academia ou no mundo dos negócios e sim na política.
       Da narrativa sobressai a impressão de que o sucesso político de Bush serve para corroborar o dito que os Estados Unidos são efetivamente o ‘país da segunda chance’. E não só para imigrantes tangidos por frustrações diversas, mas dispostos a recomeçar. Um país ‘normal’, feito e governado por ‘pessoas normais’, com suas fraquezas e grandezas.
       Acima de tudo uma sociedade aberta, no melhor sentido político da palavra. Não fosse assim, as primeiras etapas da vida de George W. Bush o teriam eliminado da política.
       Vários foram os desafios a ultrapassar durante sua administração. Alguns comuns a todos os governantes, como a escolha acertada dos seus principais auxiliares, incluindo o seu companheiro de chapa, no caso, Dick Cheney. O ainda candidato viu-se ainda diante de outras escolhas difíceis como explica no capítulo 3.
       A escolha de seus assessores e de um membro da Suprema Corte, é bastante ilustrativa do processo cuidadoso que envolve tais decisões. Características pessoais aliadas à reputação profissional, experiência e capacidade de liderança foram levadas em conta, particularmente na escolha das peças chave do seu gabinete.
       Afro-americanos, brancos, hispânicos além de outros filhos de imigrantes de segunda geração ou não, servidores públicos jovens e seniores, pessoas de ‘dentro e de fora’ da administração pública formaram um mosaico governamental que bem retratava a diversidade da sociedade norte-americana.
       Particularmente interessante é o capítulo onde Bush narra o processo de decisão que envolveu a questão relativa ao envolvimento governamental na pesquisa com as células-tronco. A amplitude das consultas, as questões morais e religiosas e as próprias convicções pessoais formavam um contexto denso em dúvidas e interrogações de várias naturezas. A decisão final foi atingida após um exaustivo processo onde a capacidade de análise e julgamento do presidente foram exigidas ao máximo.
       Com relação ao 11 de setembro e suas conseqüências, por ele denominado no capítulo 5, de “Day of Fire”, talvez tenha sido a fase mais dramática de seu governo. Sua descrição do que aconteceu naquele fatídico dia pode ajudar a desmitificar algumas interpretações sobre sua conduta diante de notícia aterradora.
       Esse dramático evento viria a transformar o que deveria ser uma administração dedicada aos problemas domésticos da nação numa outra dominada pela guerra.
       Daí em diante, no plano internacional, o livro trata dos desdobramentos deste evento inclusive o envolvimento nas duas guerras que se seguiram: Afeganistão e Iraque.
       Mas como a roda da política não para de girar, os problemas domésticos marcados pelo Katrina; a reforma do sistema de saúde e outros temas também ocuparam a agenda presidencial. Descritos nos capítulos 9 e 10 oferecem boas reflexões das agruras provocadas pela má gestão pública no trato de catástrofes como no caso específico do envolvimento governamental nas ações relativas ao enorme desastre ambiental em Nova Orleans.
       De certa forma surpreendente é a análise do envolvimento norte-americano na África relatada no capítulo 11. Apesar do pessimismo em relação à eficiência executiva das Nações Unidas, mas baseado, segundo ele, na generosidade intrínseca da nação ianque, milhões são destinados ao combate da epidemia de AIDS, em grande parte por força da influência originada no aconselhamento de Condolezza Rice. Aliás, figura onipresente nas decisões presidenciais, e a quem Bush devotava confiança ímpar. Tal confiança promoveu-a de Conselheira para Assuntos de Segurança Nacional da Casa Branca ao cargo de Secretária de Estado em substituição ao carismático e renomado general Colin Powell.
       A guerra volta a ser enfocada no capítulo 13, centrada na decisão de ampliar a presença militar nas áreas conflagradas (The Surge). Num exercício de autocrítica o presidente demonstra seu arrependimento pelo famoso evento a bordo do porta-aviões USS Abraham Lincoln onde precipitadamente foi anunciada a vitória final e definitiva no Iraque em 2003, sob o signo de Mission Acomplished. Um reconhecido erro de avaliação político e militar.
       Ainda sob a ótica dos conflitos, o recorrente esforço em busca da paz no Oriente Médio é tratado no capítulo 13.
       Finalmente, a crise financeira internacional é abordada no capítulo 14. Este evento que viria a ter papel decisivo na derrota do candidato republicano nas eleições presidenciais foi imputado à falta de regulamentação por parte do seu governo às ações de Wall Street, representadas pelo capitalismo selvagem praticado por uma minoria de gananciosos financistas e dirigentes de grandes instituições financeiras. Pela falência das duas maiores operadoras de crédito imobiliário e o conseqüente efeito dominó provocado em todo o sistema financeiro internacional. As comparações com a Grande Depressão dos anos 1930 do século passado criaram um verdadeiro pânico no mercado, abalando seriamente a confiança do público no governo.
       Na ocasião, a crise também foi definida de maneira simplista como se “Wall Street tivesse experimentado a bebedeira e deixado a ressaca para o governo”.
       O que poderia ser visto como mais uma crise do capitalismo financeiro, foi transformada em episódio político com as naturais conseqüências eleitorais jogadas nas costas do Partido Republicano, e claro, no governo Bush.
       Merece apreço a reflexão deixada pelo presidente Bush sobre a natureza da presidência, na medida em que declara que nem sempre os desafios postos ao presidente são por ele escolhidos, mas que lhe cabe sempre a decisão de como enfrentá-los.
       Ao final, o livro que começou a ser escrito no primeiro dia após a presidência, com imediata atenção dada à história e aos historiadores, se encerra com a certeza expressa pelo autor de que a história se encarregará do trabalho final de julgamento dos 8 anos da presidência de George Walker Bush.
       
       NOTA
       (1) Do autor: O outro foi John Quincy Adams, o 6º presidente norte-americano, filho de John Adams, um dos Founding Fathers.

João Paulo M. Peixoto
Professor de Ciência Política e Administração Pública da Universidade de Brasília, é professor associado internacional do VILLA Victoria University of Wellington, New Zealand. Seu livro mais recente (Org.) é “Governando o Governo: modernização da administração pública no Brasil”. Ex-Assessor Parlamentar dos Ministérios da Fazenda e Educação no Brasil, também serviu como servidor público internacional das Nações Unidas (DESA) junto ao Governo de Angola, e como consultor do Banco Mundial para assuntos de reforma do setor público. Foi visiting scholar nas universidades de Columbia e Georgetown (EUA) e bolsista do Woodrow Wilson Center (Brazil Programe).

OUTRAS RESENHAS
 
Yao Assogba - La sociologie est-elle une science? (2004). Quebec: Les Presses de l´Université de Laval. 2010, 137 p.
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Mircea Eliade –Tratado de história das religiões (1919). São Paulo: Martins Fontes, 2010, 479 p.
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