Resenha
Ano III - n. 12 - abril / junho, 2011

 
Yao Assogba - La sociologie est-elle une science? (2004). Quebec: Les Presses de l´Université de Laval. 2010, 137 p.

Antonio Paim *

       A obra em epígrafe corresponde a uma exposição do pensamento do sociólogo francês Raymond Boudon. O autor, professor da Universidade de Quebec, Canadá, além de autor de livro sobre o citado sociólogo (La sociologie de Raymond Boudon; 1999) entrevistou-o especialmente para a presente publicação.
       Raymond Boudon, ao responder à questão que lhe era proposta, traça um verdadeiro panorama da sociologia ocidental na atualidade.
       Segundo entende, a sociologia de base científica tem por objeto explicar determinado fenômeno social. A realidade contemporânea sugere que pode ter outros objetivos. Pode dedicar-se à descrição do comportamento de determinados grupos sociais. Da exposição de Boudon infere-se que ambos os procedimentos seriam apropriados ao caráter da disciplina. No primeiro caso teremos a explicação e, no segundo, a descrição.
       As duas outras formas pelas quais se apresenta a sociologia contemporânea, na verdade, têm pouco a ver com a disciplina. Seriam aquela que se propõe criticar as instituições existentes ou apresentar fórmulas bombásticas que servem para entreter os freqüentadores da mídia e nada esclarecem. Desta última espécie cita o caso dos que patrocinaram a grande “descoberta” de que vivemos numa “sociedade de risco”.
       Escreve: “Toda uma literatura nos revela, por exemplo, que rompemos com o passado, que entramos na “super-modernidade” ou “hipermodernidade”, etc.... São trabalhos mais de caráter literário que científico. Não fazem parte da demarche crítica metódica que caracterizam os trabalhos de caráter científico. Balzac nos permite melhor compreender a sociedade de meados do século XIX, mas é evidente que não perseguia objetivos similares aos de Tocqueville. ” (p. 19)
       Exemplo do tipo de “sociologia” dedicada à crítica das instituições políticas estruturadas no Ocidente é a Escola de Frankfurt, linha auxiliar da propaganda soviética, cujos remanescente sobrevivem graças exclusivamente aos saudosistas daquele regime, de triste memória. Nesse particular, insiste em que, por uma questão de honestidade intelectual, o sociólogo deve distinguir o que considera adequado quando se trata de comportar-se como cidadão. Cita o exemplo de Max Weber que vivia engajado e, pode-se dizer, “politicamente apaixonado”. No que respeita aos trabalhos sociológicos, afirma, “não se percebe suas posições políticas.”
       A sociologia de base científica interessa-se pelos fatos enigmáticos, a propósito dos quais o senso comum não dispõe de explicações aceitáveis e suficientes. Boudon designa-os como “interessantes, misteriosos e intrigantes”. Estabelecida a escolha, procede ao inventário das explicações existentes acerca do fenômeno a estudar. Entende ser muito raro que, sendo interessante, não tenha merecido estudos. Cabe criticá-los, isto é, colocar em evidência suas forças, fraquezas, lacunas e assim por diante.
       Vencida a etapa descrita, cumpre ao estudioso construir uma teoria. No caso da sociologia, o procedimento em causa é equivalente ao modo de proceder das ciências naturais. A teoria deve explicar de modo convincente toda classe de dados estatísticos relacionados ao evento de que se trata, sem recorrer a proposições psicologicamente arriscadas mas a mecanismos simples, facilmente verificáveis. Assinala Boudon que na Universidade foi abandonada a tradição de destacar o caráter explicativo da sociologia. Até mais ou menos a década de sessenta do século passado, dispunha-se de manuais intitulados “A explicação sociológica” ou “A construção de teorias em sociologia”.
       Em síntese, as análises resultantes não devem distinguir-se das teorias desenvolvidas no quadro das ciências da natureza. “Ao contrário disto escreve a afirmação segundo a qual teríamos ingressado na “super-modernidade” ou numa “sociedade de rosco”, somente evoca imagens vagas e subjetivas”. E, acrescenta: “disso resulta que a sociologia perde a identidade, passa a ser percebida pelo público como uma disciplina mal definida, na qual não se percebe bem, qual seja o seu objeto.” (p. 25)
       Boudon afirma que a sociologia pode desempenhar função meramente descritiva e, não só, que esta função deve estender-se a diversos domínios, desde que é requerida pelas mídias, pelos políticos, pelos administradores. Todos necessitam de informações acerca do que se passa nos diversos grupos sociais. Trata-se, neste caso, de tentar alcançar uma informação objetiva. Ao se lançar a esse tipo de investigação, o pesquisador deve despir-se de qualquer pressuposto.
       Yao Assogba declara que o objetivo das entrevistas que realizou, com Raymond Boudon, tinham por objetivo explicar, em profundidade, em que consiste a sociologia de base científica. Alcançado esse objetivo, o livro pretende ainda, numa segunda parte, apresentar uma síntese de seu pensamento, com base nos principais dos seus livros, e, além disto, uma breve caracterização das teorias explicativas na sociologia clássica e na sociologia moderna.
       
       Raymond Boudon, renomado sociólogo francês, nascido em 1934, é professor da Sorbonne, sendo membro de diversas instituições, entre estas a Academia Francesa de Ciências Morais e Políticas. Figura entre os principais colaboradores da revista Commentaire, criada por Raymond Aron. Autor de numerosos livros, alguns dos quais tornaram-se clássicos como A lógica da ação social (1981) e Teorias da mudança social (1986).
       

Yao Assogba
Professor do Departamento de Trabalho Social e das Ciências Sociais na Universidade de Quebec, localizada em Outaouais, cidade que fica entre Toronto e Quebec, responde, naquela Universidade, pela pós-graduação em trabalho social. Autor de extensa bibliografia, é também membro do Centro de Estudo e Pesquisa em Intervenção Social (CERIS).

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