Resenha
Ano III - n. 11 - janeiro / março, 2011

 
Tony Blair – A Journey.My Political Life

João Paulo M. Peixoto *

       A vitória do Partido Conservador liderado por Margareth Thatcher contra os trabalhistas, em 1979, viria alterar definitivamente não somente a política e a economia britânicas, mas também o próprio British Labour Party – o Partido Trabalhista. Provocando o surgimento do “New Labour”, reformado, centrista e secundado por Anthony Charles Lynton Blair - Tony Blair. À época com 44 anos, viria a ser o mais jovem primeiro-ministro eleito desde 1812.
       Com a decisiva ajuda da academia, particularmente do sociólogo Anthony Giddens, professor da The London School of Economics and Political Science, surgiria no mesmo contexto, além do novo trabalhismo e da ‘nova’ social-democracia na Inglaterra, uma proposta de Terceira Via Progressista. Adotada posteriormente por Bill Clinton e tentada por Fernando Henrique Cardoso como alternativa ao socialismo.
       O livro A Journey: My Political Life, de Tony Blair, conta esta e outras estórias decisivas para entender a liderança do primeiro-ministro britânico numa década marcada por importantes e decisivos momentos para a política e a economia mundiais. Da sua eleição como líder do partido a sua ascensão a premiê foram 3 anos (1994-1997). Tempo que serviu para forjar mudanças estruturais na política e nas instituições britânicas. Ao todo um período de treze anos abordados em detalhes e com revelações interessantes sobre as várias etapas deste processo e de seus participantes.
       O volume não é somente um livro de memórias; uma biografia no sentido clássico da palavra. Semelhante ao recentíssimo Decision Points de George W. Bush, fala menos da vida privada e mais da sua trajetória política desde os primeiros passos pós-Oxford até o número 10 de Downing Street. Período que deu início, de fato, a uma nova era trabalhista após 18 anos consecutivos de governos Conservadores. Note-se que esta vitória do Labour-New Labour foi acachapante e a maior até então conseguida pelo partido. Afinal foram 179 cadeiras a mais sobre todos os outros partidos combinados. A maior na história britânica. Capaz de fazer esquecer a derrota anterior, devida principalmente ao descolamento do partido com o votante moderno no mundo moderno, nas suas próprias palavras.
       Iniciando com uma declaração de admiração pelos Estados Unidos da América ao estilo de Tocqueville – e reafirmada mais adiante - o volume mescla o relato de decisões políticas importantes, com notas sobre a liturgia e seriedade necessárias ao correto desempenho de cargos públicos. Seja o ocupante líder trabalhista ou não. Atitudes e comportamento a fazer inveja a muitos líderes em países emergentes oriundos do sindicalismo e/ou do populismo. Os quais insistem em comportar-se de maneira a não separar o comportamento próprio do cidadão desprovido de obrigações cerimoniais exigidas pelo exercício do poder, com aquele que lhe é exigido pela investidura no cargo público. Particularmente como o mais alto dignitário da nação. Uma boa lição neste particular está no relato do momento em que o autor, ladeado por sua esposa Cherie, a caminho da festa da vitória, falava consigo mesmo sobre a necessidade de exercer total disciplina mental. Convencendo-se de que deveria aparecer para seus partidários, apesar da vitória retumbante, como um primeiro-ministro e não como alguém que acabava de marcar o gol da vitória em Wembley. Exibindo, portanto, sobriedade, altivez e dignidade – atributos essenciais a quem irá liderar o governo. Qualquer governo.
       A montagem da nova administração trouxe a novidade do recrutamento de 70 assessores de fora dos quadros de carreira do serviço público britânico, fato que ele considerava como parte essencial do governo moderno. Comum na América, que abriga milhares deles em seu aparato governamental, mas quase um ultraje para os parâmetros da constituição britânica.
       O primeiro desafio a ser vencido naquele momento dizia respeito ao famoso gap entre dizer e fazer; ou seja, entre as posturas de oposição e situação. Para ultrapassar esta fase foi preciso que os primeiros meses não parecessem que continuavam em campanha ou reiventando o Partido Trabalhista. Os primeiros cem dias, portanto, seriam decisivos para firmar uma nova proposta de governo que significasse não apenas uma mudança de administração, mas uma mudança na cultura governamental. De fato todos os primeiros dias e semanas dentro destes cem dias, foram marcados por medidas em vários setores que culminaram com a publicação de um plano que permitisse a Londres ter um prefeito, pela primeira vez em séculos. Estavam assim, determinadas não somente mudanças radicais nas políticas públicas, mas, também, na Constituição e nas atitudes governamentais.
       Numa prova de maturidade política, o governo Blair não tratou de desfazer as reformas econômicas implementadas pelos conservadores de Lady Thatcher, mas de ampliá-las para o nível institucional. Além de reparar eventuais danos causados pelo Thatcherismo aos setores de saúde e educação principalmente. Andar para frente era a tônica do Blairismo, pois o que estava feito estava feito.
       Assim o novo governo cuidou de realizar os compromissos do Manifesto de 1997, introduzindo o salário mínimo, as novas leis de Direitos Humanos e Informação; além de devolver poderes regionais por meio do estabelecimento do Parlamento Escocês, das Assembléia Nacionais de Gales, e da Irlanda do Norte, entre outras medidas reformistas.
       Estavam em marcha, portanto, mudanças estruturais que viriam a alterar profundamente a Grã-Bretanha. Tony Blair inaugurava um novo ciclo de reformas destinadas a completar a tarefa de sintonizar definitivamente o país com os modernos eleitores do mundo moderno. Aliás, como sentenciado por ele durante o processo de refundação do partido. Realidade que, negligenciada pelos trabalhistas, os derrotaria em eleições passadas.
       As mudanças vieram não sem uma boa dose de pragmatismo, novamente em prática quando governo. Temas domésticos, no entanto, como a trágica morte da princesa Diana, assim como a paz na Irlanda do Norte são tratados com a devida importância que seus desdobramentos políticos fizeram por merecer.
       A destacar na obra seus breves, porém densos comentários sobre o Welfare State britânico, suas origens e evolução desde a II Grande Guerra. Não menos importante sua visão apresentada no capítulo 7 sobre o papel do capitalismo na Revolução Industrial, dos sindicatos e suas lutas para firmarem-se como forças políticas transformadoras. Reconhecendo a força da massa como maioria, porém sem perder o equilíbrio entre o capital e o trabalho como motores do desenvolvimento econômico e paz social, em sintonia com o Estado como expressão da vontade coletiva e do progresso social.
       Paradoxalmente o governo trabalhista encontrou o Estado tal como era desde 1945. Não obstante o impacto das reformas da era Thatcher sobre o setor privado.
       Em conseqüência grande parte do seu segundo mandato, iniciado em 2001, foi dedicada à reforma do setor público e do ‘Welfare State’. Acompanhados da consolidação do ‘New Labour’.
       Neste mesmo ano veio o cataclismo representado pelo 9/11 – um evento como nenhum outro em suas palavras e que desencadeou uma política externa tipo ‘ombro a ombro’ com os Estados Unidos, já sob a liderança de George W. Bush.
       Ao abordar o tema diz que logo veio o sentimento de que ‘estávamos em guerra’, pois o alvo não era somente a América, mas todos que comungavam os mesmo valores. Uma guerra diferente: não por territórios, não entre Estados; e sim uma batalha pelas idéias que poderiam modelar o século XXI. Sobre modernização, sobre a força da globalização e suas conseqüências. Enfim uma reação de muitas forças poderosas, acobertadas pelo Islamismo, contra os valores ocidentais.
       Em conseqüência, na mesma noite de 11 de setembro, depois de falar com outros líderes europeus e ter colhido deles um senso generalizado de solidariedade, falou à nação em cadeia nacional.
       O autor dedica ainda grande parte do seu trabalho, é claro, a considerações sobre política externa durante seus dez anos em Downing Street. Quanto não mais porque governou numa década marcada pela guerra ao terror, à qual ele aderiu imediata e decisivamente, ao lado do aliado inseparável: os Estados Unidos da América.
       Tendo antes enfrentado a dura realidade da guerra na própria Europa, envolvendo o Kosovo e a Bosnia, além da guerra civil em Serra Leoa e dos conflitos no Zimbawe de Robert Mugabe e sua política antibritânica, em África. Seus impactos e conseqüências tornaram-se elementos decisivos na política externa. Veio ainda acoplada a percepção de que a política externa tradicionalmente exercida pela Grã-Bretanha não mais serviria para o mundo do século XXI.
       A política externa do ombro a ombro significaria não apenas a histórica aliança entre ambos os países e a projeção de valores e princípios comuns, partilhados há séculos, como refletiria também uma significativa empatia entre os dois líderes ocidentais. Ambos vítimas do mesmo ataque infame a ideais estruturantes de seus países.
       Blair justificava sua adesão à guerra contra o terror em defesa do interesse nacional, sem esquecer que vários britânicos perderam suas vidas no ataque às Torres Gêmeas.
       Grã-Bretanha e Estados Unidos sentiam-se naqueles momentos um só país, um só povo. Havia também a certeza de que a decisão de ir à guerra invadindo o Afeganistão traria conseqüências duradouras para todo o mundo ocidental. Além de que a guerra se apresentaria com todos os seus custos políticos, humanos e financeiros. Não obstante estes fatores, Blair se incumbiu de costurar alianças de apoio junto aos europeus, por meio de encontros pessoais com os líderes da Itália, França e outros países, como também se encarregou de se reunir com os presidentes da Rússia e do Paquistão. Obteve sucesso em declarações de apoio e de alguns o envio de tropas para a invasão do Afeganistão.
       Nos vários anos que se seguiram, a coalizão continuou alternando bons e maus momentos no campo político- militar. Não sem desgastar a ambos os líderes perante os seus constituintes nos dois lados do Atlântico. A política do ombro a ombro cobrou igualmente, a fatura do desprestígio político de ambos até o final dos seus mandatos. Ao final, Bush e Blair suportariam juntos o bem e o mal. Era o preço a pagar. Uma vez que a aliança ultrapassou eventuais identidades ideológicas entre Blair [adepto confesso do Partido Democrata] e o democrata autêntico Bill Clinton, tendo, mesmo assim, continuado com o republicano Bush.
       Certamente para estes países e para os seus dignitários, a guerra contra o terror não obedecia à lógica partidária ou governamental, e sim a do interesse nacional. Ademais porque o mais poderoso arsenal de ambos contra o terror não eram as armas e sim as suas crenças e valores.
       Opostamente ao front externo, os anos de guerra propiciaram boas oportunidades para que se avançasse nas reformas internas.
       Temas como descentralização do processo decisório nos hospitais públicos e reforma do National Health System – NHS; as mensalidades nas universidades; documentos para os residentes legais e comportamento anti-social passaram a dominar a agenda governamental. Estas reformas e os conflitos internos em torno delas estavam no centro do projeto do New Labour. Objeto, portanto, de disputas e debates furiosos. Diz Blair que, ironicamente, o tema que mais ameaçou a permanência do seu governo, não foi a guerra e sim a ‘batalha’ deflagrada em torno das mensalidades universitárias.
       Já a eleição de 2005 sinalizava uma espécie de começo do fim, principalmente pelo nível de impopularidade do governo e de seu primeiro-ministro, como resultado de uma guerra prolongada, cara e sem uma vitória visível até aquele momento. Uma guerra muito impopular ao lado de um presidente americano também muito impopular. O que acabou por servir de ponto de convergência entre direita e esquerda em críticas ao governo.
       Os dias de triunfo estavam chegando ao fim, abrindo espaço para a melancolia de final de uma era de reformas e mudanças na política britânica iniciadas dez anos antes. Em dois anos a jornada política de Tony Blair como primeiro ministro da Grã-Bretanha chegaria ao fim. Era o fim do jogo e, com ele viria à partida definitiva de Downing Street. Contudo, a bola ainda rolaria no campo dos trabalhistas, agora com Gordon Brown como líder, por mais três anos. Até que em 2010 um novo governo Conservador-Liberal chefiado por David Cameron se instalaria no número 10 abrindo um novo tempo na política britânica.
       Blair, no entanto, ao fim e ao cabo não deixaria de expressar seu profundo desencanto com a estatista, autoproclamada keynesiana, resposta à crise financeira global. Contrariamente, preconiza mais reformas – e não menos – como resposta às dificuldades econômicas porque passa a o Reino Unido. Além do aprofundamento da parceria britânica com o ‘mundo emergente’, particularmente com a China.
       Blair deixa ainda uma análise contrária à interpretação corrente da crise como sendo uma falência do mercado, do capitalismo e, em última análise do próprio liberalismo econômico. Enfim da solução que se conforma com o retorno do Estado como ator predominante como receita para a crise.
       Sem perder a perspectiva de futuro, deixa lições e recomendações para enfrentar os novos tempos com otimismo. E manifesta sua crença absoluta nos princípios e valores da democracia liberal e do capitalismo como solução para estes tempos difíceis. Voilà.
       

João Paulo M. Peixoto
Conhecido especialista em gestão governamental, concluiu sua formação acadêmica na London Scool of Economics and Political Sciense (LSE), Inglaterra, e na University of New México, Estados Unidos. Pertence ao Corpo Docente da Universidade de Brasília (UnB), tendo atuado em outras esferas governamentais. É autor de livros e artigos sobre Política e Administração Pública (Reforma e Modernização do Estado), publicados no Brasil e no exterior.

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