Noticiário
Ano II - n. 5 - julho / setembro, 2009

 
Centenário da morte de Euclides da Cunha

       
       
       Transcorre em agosto próximo o centenário da morte de Euclides da Cunha (1866/1909). Nasceu no estado do Rio de Janeiro e matriculou-se na Escola Politécnica do Rio de Janeiro mas antes de concluir o curso de engenharia transferiu-se para a Escola Militar, de onde foi expulso em 1888 por se haver envolvido num incidente político em presença do ministro. Era então um jovem de 22 anos, ardoroso positivista e ativo participante do movimento republicano. Com a proclamação da República a 15 de novembro do ano seguinte, seria readmitido no Exército, o que lhe permitiu concluir o curso de engenharia, já agora na Escola Superior de Guerra, integrando-se a essa atividade naquele ramo das Forças Armadas. Em 1896, desligou-se da instituição, preferindo a vida civil se bem continuasse a trabalhar como engenheiro. Por aquela altura já se dedicava com intensidade ao jornalismo. Devido a essa última circunstância, foi mandado como correspondente do jornal O Estado de S. Paulo para fazer a cobertura dos acontecimentos militares que então se desenrolavam no interior da Bahia e que passariam à história com o nome de Campanha de Canudos.
       
       Em 1896, Antonio Vicente Mendes Maciel, conhecido como Antonio Conselheiro, que se tornara popular como místico e milagreiro, resolveu incitar a população do lugarejo ao não pagamento de impostos, alegando não reconhecer a República. O governo estadual mandou uma tropa de polícia reprimir a insubordinação, que foi entretanto dizimada. O Exército interveio e foi igualmente derrotado. Estabeleceu-se no país uma grande comoção. Difundiu-se a suposição de que o movimento tinha cunho monarquista e vinha sendo armado e instruído por aqueles opositores da República. Manifestações no Rio de Janeiro terminaram com a depredação do jornal monarquista e a morte do seu diretor.
       
       Tendo malogrado ainda duas outras expedições, decidiu o governo promover extraordinária mobilização – nada menos que vinte batalhões de infantaria, afora corpos de artilharia e cavalaria –, comandada pelo próprio ministro da Guerra. O confronto decidiu-se em fins de 1897, tendo os insurretos resistidos até o último homem. Conselheiro tampouco se rendeu. Tendo morrido em combate e sendo enterrado por seus correligionários, as tropas governamentais desenterraram o cadáver e cortaram-lhe a cabeça.
       
       Euclides da Cunha aceitou a incumbência de descrever os acontecimentos para o jornal paulista achando-se convencido de que se tratava mesmo de movimento monarquista. Basta ter presente que o primeiro artigo intitulou-se "A nossa vendeta". A realidade deixou-o, entretanto, cada vez mais chocado, terminando por considerar a ação governamental como autêntico crime. Ao evento dedicaria a sua obra fundamental – Os Sertões (1901).
       
       Ao invés de simplesmente relatar os acontecimentos de Canudos, Euclides da Cunha resolveu instruir esse relato com uma caracterização minuciosa do meio geográfico e da raça. Assim, o livro começa com um texto a que denominou de "A terra" seguindo-se aquele em que trata do homem. Nos últimos anos do século passado e começos deste, quando parte da intelectualidade desperta para os estudos de natureza sociológica, a grande discussão era acerca do "fator determinante". Advogou-se a importância do clima e, subseqüentemente, da raça. Euclides da Cunha pode ser filiado ao grupo que se propunha descrições integradoras do conjunto, inclusive levando em conta o que contemporaneamente se denomina de tradições culturais. Na época dizia-se que as descrições sociológicas deveriam compreender os elementos primários (ou naturais); os secundários (ou étnicos) e os terciários (ou morais). De certa forma, Os sertões seguem esse esquema nos capítulos introdutórios.
       
       Na caracterização do meio geográfico, atribui importância devida às secas. Discute as hipóteses relativas à sua gênese e, embora não a faça recair unilateralmente na ação do homem, atribui-lhe grande responsabilidade ("fez-se uma componente nefasta entre as forças daquele clima demolidor", pág. 68 da 39ª edição, 1997).
       Na fase histórica em que Euclides da Cunha formou seu espírito, havia convicção generalizada de que o processo civilizatório ocidental dificilmente poderia ser reproduzido por raças mestiças como as que se haviam estruturado no Brasil.
       
       Tardou muito que se deixasse de insistir numa política de "branqueamento", como condição de progresso. A novidade de Os sertões consiste em considerar o processo de mestiçagem de que resultou o sertanejo, mais as condições adversas a que se viu submetido, como elemento altamente promissor, porquanto se trata de sub-raça com características vantajosas e estáveis. Escreve: "O sertanejo é, antes de tudo, um forte. Não tem o raquitismo exaustivo dos mestiços neurastênicos do litoral” (pág. 129, edição citada). Assim, a questão é transposta para o atraso cultural, que se acha também devidamente caracterizado na parte em que estuda o homem.
       
       A descrição da "guerra do fim do mundo" – como a chamou Vargas Llosa – consiste num relato vivo, capaz de prender o leitor, ao contrário do cientificismo introdutório, de difícil leitura e compreensão.
       
       Embora não se haja detido na apresentação de nenhum programa de governo para promover a mudança do quadro social sertanejo, a veemência com que condena a repressão militar e a maneira como destaca a integridade de caráter e a firmeza da gente sertaneja marcaram profundamente a elite brasileira do começo do século.
       
       Sem sombra de dúvida, a obra de Euclides da Cunha serviu para sedimentar a convicção de que a questão nordestina é um problema nacional.
       
       Ainda como engenheiro incumbiu-se do levantamento geográfico da região do Alto Purus, no Amazonas, oportunidade de que se valeu para escrever sobre a Amazônia. Em 1906 foi eleito para a Academia Brasileira de Letras. Fez concurso para professor de filosofia no Colégio Pedro II, em 1909, mas não chegou a ser empossado. Morreu assassinado, a 15 de agosto daquele ano, numa disputa com o amante da mulher.
       
       Além de Os Sertões publicou em livro seus estudos sobre a Amazônia e trabalhos literários. A Aguilar editou sua Obra Completa (1966; reedição, 1995). As reportagens sobre Canudos, que deram base à sua obra fundamental, foram reunidas em livro, postumamente. Mereceu estudos dos mais importantes analistas da cultura brasileira.
       
       Em comemoração ao centenário, O Estado de S. Paulo tem republicado muitos de seus artigos, notadamente da fase considerada.

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