Resenha
Ano III - n. 9 - julho / setembro, 2010

 
Umberto Eco; Jean-Claude Carrière - Não contem com o fim do livro

Antonio Paim *

       O livro contém, basicamente, uma conversa descontraída entre dois eruditos e não propriamente uma apresentação ordenada da tese expressa no título. É certo que os argumentos centrais constam da obra e vamos referi-los. Contudo, o leitor estará preso pelas histórias fantásticas acerca de livros, autores e bibliotecas. Não tem sido esta, justamente, a maestria de Umberto Eco em construir histórias, basicamente sobre livros, mas que na aparência dizem respeito a mistérios e enredos policiais como se dá no Nome da rosa e no Pêndulo de Foucoult?
       Umberto Eco confronta o que poderia ser denominado de perenidade assumida pela feição do livro à volatilidade dos suportes eletrônicos de textos. Desapareceram os disquetes e e o CD vai no mesmo caminho, expulso pelo DVD e pelo pendrive. Demos a palavra ao renomado escritor:
       
       Diz, logo em seu primeiro pronunciamento: “O livro irá desaparecer em virtude do surgimento da Internet? ....Na realidade, há muito pouca coisa a dizer sobre o assunto. Com a Internet, voltamos à era alfabética....Para ler é preciso um suporte. Esse suporte não pode ser apenas o computador. Passe duas horas lendo um romance em seu computador e seus olhos viram bolas de tênis. ... Logo, o livro se apresenta como uma ferramenta mais flexível..”
       
       E, prossegue: “Das duas uma: ou o livro permanecerá o suporte da leitura, ou existirá alguma coisa similar ao que o livro nunca deixou de ser, mesmo antes da invenção da tipografia. As variações em torno do objeto livro não modificaram a sua função, nem sua sintaxe, em mais de quinhentos anos. O livro é como a colher, o martelo, a roda ou a tesoura. Uma vez inventados, não podem ser aprimorados.”
       
       Quanto à concorrência que lhe promoverá o e-book a sua opinião é a seguinte: “É óbvio que um magistrado levará mais confortavelmente para sua casa as 25 mil páginas de um processo em curso se elas estiverem em memória de um e-book. Em diversos domínios, o livro eletrônico proporcionará um conforto extraordinário. Continuo simplesmente a me perguntar se, mesmo com a tecnologia mais bem adaptada às exigências da leitura, será viável ler Guerra e Paz num e-book. Veremos.” (págs.16;17)
       
       Há outros argumentos nessa mesma linha. Os participantes da conversa examinam o tema da seleção de umas quantas obras como expressivas de determinados ciclos da cultura. Destacam que, em certos momentos, é possível verificar que acabaram esquecidos outros autores que talvez viessem a proporcionar uma visão mais completa ou adequada. Essa, aliás, é uma das questões misteriosas da história da cultura: como se dá que se constituam determinadas tradições culturais. É possível reconstituir o processo de sua constituição. Mas, dificilmente, dar conta de suas causas. Naturalmente, considero que não se pode levar a sério as simplificações positivistas-marxistas que, no final de contas, reduzem-se à crença na teoria conspirativa da história.
       
       A certeza de que o livro sobreviverá, advém, para Humberto Eco e Jean-Claude Cartrière, das histórias que nos contam, nas quais transparecem a sua imensa erudição. Reconhecem que a ninguém é dado ler todos os livros. Possuidores de bibliotecas imensas, não leram (pelo menos integralmente) muitos dos livros que constam de suas pratileiras. Mas vão desfilando as histórias mais intrigantes sobre livros graças ao que acabamos por nos dar conta das diversas outras razões pelas quais se deram ao trabalho de adquiri-los.
       
       Transcrevo uma dessas histórias a fim de que o leitor possa ter uma idéia do que se trata.
       
       Conta Jean-Claude Carrière que, estando em Pequim, “tomava meu café da manhã no hotel consultando o China Today em inglês. Naquela manhã, das sete colunas da primeira página, cinco eram dedicadas a um acontecimento espetacular: peritos acabavam de descobrir na Inglaterra que determinadas obras de Shakespeare não eram dele. Apresso-me em ler a reportagem para descobrir que, na realidade, a controvérsia referia-se a apenas alguns versos, por sinal desinteressantes e espalhados por algumas de suas peças.
       
       À noite, janto com dois sinólogos e exprimo-lhes minha surpresa. Como uma não notícia a respeito de Shakespeare podia ocupar quase a totalidade da primeira página do China Today? Um dos sinólogos então me disse: “Não se esqueça que aqui você está no país dos mandarins, isto é, um país onde a escrita está há muito tempo ligada ao poder, sendo primordial. Quando acontece alguma coisa ao maior escritor do Ocidente, e talvez do mundo, isto merece cinco colunas na primeira página”. (p.139)
       
       O livro está cheio de histórias desse tipo, evidenciando a tradicional presença do livro nas mais diversas culturas e seu extraordinário papel no sentido de difundir certos autores e, por esse meio, inculcar nas pessoas a valorização dessa dimensão primordial da existência humana.
       
       Não contem com o fim do livro é, antes de mais nada uma excelente exaltação da cultura geral, humanista, do saber desinteressado (isto é, não direcionado por imposições de natureza profissional). Desse ponto de vista, deve fazer muito bem ao nosso país. A elite política brasileira deu-se conta da posição privilegiada que a formação geral ocupa na educação, a ponto de torná-la uma exigência constitucional. Ignorando tal disposição, nosso sistema de ensino insiste em reduzi-lo à formação profissional. Confrontados à experiência de outros países e civilizações, por quem tem autoridade para fazê-lo, talvez sejam aqueles responsáveis despertados para a necessidade de abandonar a prática dominante, criando, simultaneamente, espaço para a cultura geral.
       

Umberto Eco
Italiano, nascido em 1932, pertence ao Corpo Docente da famosa Universidade de Bologna, na qual exerce ainda as funções de diretor da Escola Superior de Humanidades. Simultaneamente, desenvolve grande atividade como jornalista, mantendo uma coluna semanal na revista L´Espresso. Além de obras de estrito caráter teórico, publicou romances que se tornaram grandes sucessos literários e temas de filmes acolhidos com entusiasmo pelo público.

Jean-Claude Carrière
Francês, nascido em 1931, professor da Escola Normal Superior de Lyon (França), alcançou reconhecida nomeada como roteirista de filmes, tendo, nessa condição, colaborado com renomados diretores, a exemplo de Luís Bruñel. A série que preparou para a televisão, dedicada às “Aventuras de Robinson Crusoé”, alcançou a maior audiência entre as obras desse gênero.


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