Resenha
Ano IV - n. 16 - abril / junho, 2012

 
Jacques Dewitte – Kolakowski: le clivage de l´humanité.

Antonio Paim *

       Trata-se da biografia intelectual de Leszek Kolakowski (1927/2009). Marxista e professor da Universidade de Varsóvia (Polônia), em decorrência do famoso Relatório Krushov (fevereiro, 1956) denúncia dos crimes do comunismo, de que o Ocidente tinha conhecimento e os comunistas sempre negaram, atribuindo-os a Stalin fez parte do movimento anti-estalinista então iniciado na Polônia. No próprio ano de 1956 definiu, numa conferência cujo texto seria amplamente distribuído na Universidade, quais seriam as características do regime, afirmando que não correspondem ao socialismo.
       
       O socialismo, enfatiza, não é “uma sociedade na qual há mais espiões que enfermeiras”, nem “um Estado que conhece a vontade do povo antes mesmo de auscultá-la”. Procede, nesse texto, a uma ampla caracterização do sistema comunista como erigido sob Estado policial. Mais tarde acrescentaria, tendo em vista que mantinha, ao mesmo tempo, um sistema de propaganda com vistas a difundir a idéia de que tinha resolvido todos os problemas, notadamente aqueles relacionados ao bem estar material (na verdade, uma conquista do capitalismo), como a Grande Mentira.
       
       O Relatório Krushov provocou uma reviravolta na Polônia, em decorrência de que continha a acusação de que a direção do PC Polonês fora conivente com Stalin na perseguição a seus desafetos. Presente ao evento no qual foi apresentado (XX Congresso do PCUS), o dirigente máximo do comunismo polaco (Boleslaw Bierut), não sobreviveu a essa denúncia. Tudo indicava que havia sido assassinado, embora se alardeasse, sem confirmação oficial, que se suicidara. O certo é que voltou à Polônia num caixão. Na medida em que o trem que trazia esse cadáver penetrava no país eclodia uma rebelião, que culminou com a expulsão das altas patentes militares russas que dirigiam as Forças Armadas. O próprio Ministro da Defesa (general Rokossovski), era russo e um dos heróis da Segunda Guerra que os soviéticos batizaram de Guerra Patriótica.
       
       O desfecho dessa rebelião foi a libertação de Wladyslaw Gomulka (1905/1982) e sua ascensão ao poder. Era um dos dirigentes comunistas e ocupava altos postos governamentais com a transformação do país em satélite soviético. Em decorrência de brigas internas no PC, sua facção foi alijada do poder e, como de praxe no regime, Gomulka foi encarcerado. Ironia da história na medida em que passara grande parte de sua vida na prisão, no regime anterior à guerra.
       
       Adotando uma atitude realista, Gomulka tratou de chegar a um acordo com o governo soviético pós-Stalin, que era dirigido por Krushov. Mas poupou os intelectuais dissidentes, a exemplo do Kolakowski. Esse quadro explica que somente em 1968 haja sido expulso da Universidade. Nesse ano eclodiu a chamada “Primavera de Praga”, tentativa de abertura política ferozmente reprimida pelos russos, que inclusive passaram a ocupar militarmente a Tchecoslováquia.
       
       Desempregado, Kolakowski aceitou, naquele ano, convite para ministrar cursos em Montreal (Canadá). Encontrando-se no exterior, decidiu não voltar à Polônia. Fez então uma brilhante carreira acadêmica na Universidade de Oxford, Inglaterra.
       
       Ocupando-se de produzir uma biografia intelectual, Dewitte não se detém na descrita evolução política polonesa. Produziu, em contrapartida, uma brilhante apresentação da obra de Kolakowski no Ocidente, isto é, entre 1968 e 2009, ao longo de pouco mais de quarenta anos, de importância e magnitude que nunca é demais exaltar.
       
       Dewitte começa por fixar-lhe a trajetória de rompimento com o marxismo. Escreve: “Na juventude (entre 1945 e 1055), foi um marxista ortodoxo, membro do Partido Comunista. A partir de meados dos anos cinqüenta (1955-1956) destacou-se como um dos principais protagonistas do marxismo dito “revisionista”. Os textos desse período preservam grande interesse. A partir de 1968, rompeu definitivamente com o marxismo. Estabelecido em Oxford, empreende um longo trabalho de análise crítica do marxismo, enquanto doutrina filosófica.” (p. 32)
       
       O livro em apreço denominou-se As principais correntes do marxismo. Nascimento. Êxito. Decomposição, em três volumes, aparecidos a partir de 1977.. Essa obra alcançou merecido sucesso, sendo traduzida em numerosos países.
       
       O grande cavalo de batalha do marxismo é a questão de saber se o próprio Marx teria algo a ver com o monstruoso desfecho de sua doutrina. Kolakowski diria que, em relação ao sonho de uma comunidade humana perfeita, por mais antigo que seja, “não existe razão de que possa realizar-se algum dia senão sob a forma cruel do despotismo. O despotismo é uma simulação desesperada do paraíso”
       
       A esse propósito, escreve Dewitte: “Não se trata da constatação de qualquer vício inexplicável situado no plano da execução mas a consciência de que se havia acreditado no paraíso, que não era tal, e que a “bela empresa” não era assim tão bela. A realização monstruosa nos obriga a reexaminar retrospectivamente o próprio projeto, para compreender que não era inocente na sua aplicação.” (p. 51)
       
       Neste livro, seu autor empreende uma classificação do conjunto da expressiva obra produzida por Kolakowski no período que poderíamos chamar de “ocidental”. Consiste, como escreve, de numerosos ensaios de filosofia política, bem como de estudos eruditos de história da filosofia e do cristianismo. Os livros que dedicou à questão religiosa são de grande densidade. Os próprios títulos o expressam: Cristãos sem Igreja e Deus não nos deve nada. Produziu ensaios sobre os grandes filósofos, a exemplo de Spinoza e Hussserl. Conclui: “Jamais escreveu livro sistemático expressando o conjunto de seu pensamento (em que pese o importante ensaio intitulado “O horror metafísico”) preferindo pequenos textos sobretudo aforísticos, como recentemente Pequena história da vida quotidiana”. A propósito deste último, registra que o título em polonês é mais eloqüente: Mini-cursos sobre máximas-questões. Lembra que Kolakowski também escreveu textos mais literários (contos filosóficos; duas peças de teatro e mesmo um cenário de filme).
       
       A obra de Dewitte preenche uma lacuna e certamente consiste num excelente roteiro para entendimento do legado do grande pensador que foi Leszek Kolakowski.
       
       
       Conhecido filósofo francês, Jacques Dewitte consagrou-se também como tradutor de obras filosóficas, entre estas algumas de Kolakowski. Autor, entre outros, de Le pouvoir de la langue et la liberté de l`esprit (2007). Examina nesse texto a manipulação da língua pelos sistemas totalitários. E, A exceção européia (2008).
       



       

Antonio Paim
Concluiu sua formação acadêmica na antiga Universidade do Brasil, atual UFRJ, iniciando carreira acadêmica na década de sessenta, na então denominada Faculdade Nacional de Filosofia, tendo pertencido igualmente a outras universidades. Aposentou-se em 1989, como professor titular e livre docente. Desde então, integra a assessoria do Instituto Tancredo Neves, que passou a denominar-se Fundação Liberdade e Cidadania. É autor de diversas obras relacionadas à filosofia geral, à filosofia brasileira e à filosofia política.

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