Resenha
Ano IV - n. 15 - janeiro / março, 2012

 
David Harvey -A brief history of neoliberalism. Oxford University Press 2005

João Paulo M. Peixoto *

       O século 20 do último milênio foi o mais sangrento da história. Marcado por duas guerras mundiais, conflitos regionais devastadores, a Guerra Fria, incríveis conflitos europeus e palco de uma violenta revolução comunista que viria mudar grande parte do mundo.
       
       Foi também na década de 1960 daquele século que o mundo assistiu a incríveis e estonteantes mudanças políticas, de costumes, tecnológicas, militares e comportamentais. Marcadas entre outras pela liberalização feminina; dos costumes em Woodstock; pela chegada do primeiro homem na Lua; pelo assassinato de três líderes políticos americanos; pela primeira revolução comunista na América Latina; pela sucessiva instalação de regimes militares nessa região; pela crise dos mísseis em Cuba; pela revolta dos estudantes em Paris e muito mais.
       
       Como se não bastasse, na década seguinte, vieram outras mudanças radicais nas órbitas política e econômica via ressurgimento do neoliberalismo. Ideologia que também viria propiciar o surgimento de uma nova economia política internacional, tendo como foco os países que a adotaram. Como visto no Chile (1975); na China (1978); na Inglaterra (1979) e nos Estados Unidos da América (1980).
       
       Tendo os dois últimos embalado a globalização; a queda do Muro de Berlim e o consequente colapso do comunismo soviético.
       
       O neoliberalismo foi definido primariamente como uma teoria acerca das práticas da economia política, ancorada, claro, nos princípios clássicos do liberalismo. Este livro trata de uma breve história dessa ideologia e sua trajetória no fin du siècle.
       
       O autor credita ao líder reformista chinês Deng Xiaoping os primeiros movimentos de reformas econômicas destinadas à abertura da economia dirigida, vigente no modelo comunista chinês. Destaca ainda, no outro lado do Pacífico, as duras decisões tomadas por Paul Volcker, presidente do Banco Central norte-americano, para controlar a inflação sem medir consequências, particularmente, quanto ao desemprego.
       
       No lado do Atlântico, Margaret Thatcher havia sido eleita primeira-ministra da Grã-Bretanha em maio de 1979, com um mandato destinado a curvar o poder dos sindicatos e combater um estado de estagflação que havia se instalado após sucessivos governos trabalhistas nas décadas anteriores.
       
       Em 1980, Ronald Reagan foi eleito presidente dos Estados Unidos da América. Baseado no seu carisma definiu o caminho para a revitalização da economia mediante o apoio às medidas de Volcker, acrescidas de novas políticas de enfrentamento dos sindicatos, e desregulamentação de vários setores, incluindo o financeiro.
       
       Vindas de diferentes epicentros, essas radicais mudanças se espalharam e redesenharam o mundo. Para David Harvey; Pinochet, Volcker, Thatcher, Deng e Reagan por meios políticos distintos e em realidades econômicas e sociais diversas tornaram-nas majoritárias. Especialmente Volcker/Reagan e Thatcher, lançaram mão de uma teoria relativamente obscura sob o nome de ‘neoliberalismo’, e a transformaram no principal guia do pensamento econômico e de gestão em seus governos.
       
       As origens e métodos também divergiram. Reagan buscou, também, inspiração nas políticas de Barry Goldwater e do seu partido republicano nos primórdios dos anos 1960. Deng assistiu ao desenvolvimento e crescente influência no Japão, Taiwan, Hong Kong, Cingapura e Coreia do Sul, levando-o a adotar o socialismo de mercado, em substituição ao planejamento centralizado, para avançar os interesses do Estado chinês. Pontue-se que nem mesmo históricos modelos de social-democracia como os da Suécia e Nova Zelândia resistiram ao fim da União Soviética e, consequentemente, ao novo paradigma liberal.
       
       Pois bem, essa breve história se desenvolve em 7 capítulos deste título que mostram a ascensão e declínio da ideologia neoliberal. Ao longo deles o autor aborda tanto a criação do consenso em torno dela como a sua fase crítica.
       
       O livro dedica-se bastante ao lado econômico do neoliberalismo pela abordagem dos detalhes de funcionamento da economia de determinada nação governada sob seus princípios. Não faltando elogios ao mercado e à liberdade como instituidores da economia política neoliberal.
       
       No capítulo 2 Harvey chama a atenção para uma importante distinção de natureza política entre os países que o adotaram. No caso do Chile, o neoliberalismo veio imposto pelo regime ditatorial do General Augusto Pinochet, sugerindo que se deu como reação radical ao socialismo do regime anterior. Já na Inglaterra e nos Estados Unidos, veio democraticamente por meio de um consenso baseado nas tradições desses países. Naturalmente, como resultado de eleições, mas, também como uma revolução destinada a romper com um determinado modelo de Estado ancorado em práticas social-democratas (mais arraigadas na Inglaterra do que nos Estados Unidos é verdade).
       
       Chama atenção no capítulo 5 a inclusão da China neste contexto, descrito como ‘neoliberalismo com características chinesas’.
       
       Os dois últimos capítulos dedicam-se a uma análise crítica do modelo neoliberal e dos vários conceitos e formas de liberdade. Abarcando Roosevelt, Marx e Bush filho, o autor instiga bastante os leitores quanto à complexidade desses temas e a maneira própria de introduzi-los nos sistema políticos e econômicos de diferentes nações.
       
       Um livro interessante para os dias atuais de indefinição na economia e na política, tanto como para os estudiosos e profissionais destes dois temas. Tempos, também, de mudanças políticas, econômicas e sociais atualmente em curso no globo, mas ainda não completamente percebidas. Muitas delas de natureza revolucionária e de consequências duradouras para a humanidade. Mas, este é outro assunto.
       

João Paulo M. Peixoto
Conhecido especialista em gestão governamental, concluiu sua formação acadêmica na London Scool of Economics and Political Sciense (LSE), Inglaterra, e na University of New México, Estados Unidos. Pertence ao Corpo Docente da Universidade de Brasília (UnB), tendo atuado em outras esferas governamentais. É autor de livros e artigos sobre Política e Administração Pública (Reforma e Modernização do Estado), publicados no Brasil e no exterior.

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