Resenha
Ano IV - n. 15 - janeiro / março, 2012

 
Henry Kissinger - On China, New York, The Penguin Press, 2011

João Paulo M. Peixoto *

       Acadêmico, Cientista Político e Diplomata, Henry Kissinger, um verdadeiro conhecedor do mundo, esteve no centro de importantes acontecimentos políticos e diplomáticos, principalmente, na segunda metade do século XX. Sua atuação à época não passou despercebida aos olhos da política internacional seja como protagonista seja como acadêmico. Autor de mais de uma dezena de livros e não menos numerosos artigos, o scholar lança uma obra indispensável para os dias de hoje. Trata-se de “ON CHINA” (recentemente traduzida para o português com o título “Sobre a China”).
       
       Baseado na autoridade de quem teve a missão de normalizar, por decisão do presidente Nixon, o relacionamento entre os Estados Unidos da América e a República Popular da China, o então Assessor para Assuntos de Segurança Nacional da Casa Branca empenhou-se naquilo que seria uma das decisões estratégicas para o futuro do seu País. Levando em conta ainda, as repercussões políticas e econômicas estruturantes para a nova ordem política e econômica internacionais.
       
       Desnecessário salientar a importância geopolítica e econômica da China, autoproclamada como “o reino do meio” ou “o centro do mundo” – Zhongguo. Ainda na esteira da abertura para o exterior impulsionada pela noção de que havia outro mundo com muito para ensinar, do qual a China teria muito a aprender, vieram novas etapas diplomáticas.
       
       Com essa visão em marcha, tornou-se ainda mais viável para os Estados Unidos a aproximação com o “gigante amarelo”, cujo isolamento vinha se tornando uma crescente ameaça à paz mundial na visão de vários analistas. Kissinger inclusive.
       
       Teve início então um esforço diplomático, de ambos os lados, voltado para aparar diferenças e aplainar o caminho para possíveis cooperações na cena internacional. Uma gigantesca tarefa iniciada na década de 1970 do século passado.
       
       Este livro trata dessa formidável e complexa tarefa diplomática, incluindo os ilustrativos bastidores de vários episódios. Missão ainda maior se levadas em conta as enormes diferenças culturais entre os dois países.
       
       Ademais, não se esgota na experiência diplomática do autor como governante, pois seus contatos e dezenas de visitas ao País continuaram, sob diversos rótulos, depois que Kissinger deixou o governo.
       
       Os três primeiros capítulos dedicam-se a uma breve retrospectiva histórica da China e suas singularidades. Neles o autor trata desde o Confucionismo à guerra do ópio, incluindo a questão japonesa, o estado guerreiro e outros marcantes episódios. São 91 páginas de retrospectiva histórica até chegar ao advento da Revolução comunista liderada por Mao Tsé-tung e as primeiras confrontações sino-americanas, abordadas em vários episódios até o capítulo 8, que trata da reconciliação entre as duas potências, possível pela ascensão de uma nova geração de líderes. Nesse capítulo podem-se entender várias crises vividas pelo país e retratadas pela separação sino-soviética; pela revolução cultural e a primeira crise do estreito de Taiwan.
       
       No capítulo 9 vê-se o desdobramento da estratégia americana, já com os primeiros encontros, em diferentes momentos, entre Nixon, Mao e Chou En-lai. Reuniões precedidas por uma missão secreta conduzida por Kissinger na chefia de uma pequena equipe que aterrissou em Pequim no dia 9 de julho de 1971. Essa viagem precedeu a histórica primeira visita de um presidente norte-americano à China em 1972, que se constituiu num passo decisivo para a normalização das relações diplomáticas entre os dois países, inexistentes até então, em vista do reconhecimento pelos EUA do governo de Taiwan como legítimo governo da China.
       
       Na ocasião, o pragmático premier Chou encarregou-se de receber a delegação. O que por si só já se constituiu num gesto raro no protocolo, tendo em vista a diferença de posição hierárquica entre os dois. Por outro lado, demonstrava o interesse político do governo chinês no encontro que, aliás, ambos protagonizariam outras vezes.
       
       O enviado americano atribui-lhe excepcionais qualidades pessoais e intelectuais que se mostraram decisivas para o êxito das delicadas negociações entre os dois gigantes.
       Ao longo do livro o autor detêm-se, mas não se limita à sua interação com os altos dignitários chineses. Além do relato comentado de suas reuniões com Mao, Chou, Deng Xiaoping e outros dirigentes chineses, em diferentes épocas, o que já seria suficiente para despertar o interesse de especialistas e estudiosos da área.
       
       Exemplo disso é visto na transcrição de um dos diálogos entre Mao e Nixon, durante o qual o líder comunista expressava sua simpatia por líderes e governos ‘de direita’, completando com a estonteante afirmação de que “teria votado” em Nixon.
       
       Kissinger, no entanto, vai além dessas narrativas e apresenta uma perspectiva diplomática e política interessantíssima. Importantes, aliás, para ajudar a entender melhor a movimentação e a proeminência internacional da China nos dias de hoje.
       
       A análise abrange ainda a Guerra do Vietnã e o papel do gigante vermelho no conflito e nas negociações de paz. Além de acontecimentos como Tiananmen Square, as reformas econômicas, os reflexos políticos da desintegração do império soviético bem como das políticas de glasnost e perestroika para o futuro do comunismo, e ainda das relações sino-soviéticas abordados nos capítulos 15, 16 e 17.
       
       No capítulo 18 Kissinger se preocupa em analisar o País no novo milênio a partir de todo o simbolismo nele representado, e ainda animado pela expectativa das relações sob uma nova geração de líderes em ambos os lados.
       
       Chame-se a atenção para a abordagem da natureza das relações entre as duas nações - tendente à cooperação, embora concorrencial, e, não necessariamente, alguma coisa que possa ser visto como um duelo de inimigos.
       
       Por fim, ressalte-se que além de possibilitar uma visão completa e atual sobre a nação chinesa, um dia chamada de ‘perigo amarelo’, é também um livro chave para quem estuda ou se interessa pelos os temas diplomáticos, políticos, históricos e internacionais, na academia ou não.
       

João Paulo M. Peixoto
Conhecido especialista em gestão governamental, concluiu sua formação acadêmica na London Scool of Economics and Political Sciense (LSE), Inglaterra, e na University of New México, Estados Unidos. Pertence ao Corpo Docente da Universidade de Brasília (UnB), tendo atuado em outras esferas governamentais. É autor de livros e artigos sobre Política e Administração Pública (Reforma e Modernização do Estado), publicados no Brasil e no exterior.

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