Resenha
Ano III - n. 10 - outubro / dezembro, 2010

 
Peter L. Berger – Between Relativism and Fundamentalism. Religious Resources for a Middle Position.

Antonio Paim *

       O renomado pensador norte-americano Peter Berger, editor da publicação em apreço, indica que o Institute on Culture, Religion and World Afairs (CURA), da Universidade de Boston (Estados Unidos), organizou um grupo de estudos, reunindo especialistas no tema que dá título ao livro, grupo esse que funcionou durante dois anos. Partiu-se da constatação de que na cultura contemporânea aparecem duas forças contraditórias com grande presença e atuação. A primeira nega a possibilidade da existência de verdades morais ou filosóficas absolutas, enquanto a segunda acredita estar de posse de conhecimento desse tipo. Ambas as forças, batizadas respectivamente de relativismo e fundamentalismo, tornam a convivência social impossível, na medida em que redundam na mais radical intolerância. A iniciativa indicada tinha em vista encontrar o caminho da superação do mencionado impasse.
       Os estudos resultantes, reunidos no livro, são de dois tipos, a saber: análise sociológica do fenômeno e investigação destinada a saber se esta ou aquela religião favorece o fundamentalismo.
       No texto que serviu para nortear o funcionamento do grupo, seu autor, Peter Berger, destaca que tanto o relativismo como o fundamentalismo aparecem na modernidade e se auto alimentam.
       A raiz da existência da vertente relativista encontra-se no fato de que a modernização abala valores e crenças sedimentadas. Basicamente, é alimentada pela secularização, vale dizer, pelo surgimento do pluralismo que acaba, nesse ou naquele ponto, questionando convicções consensuais. Trata-se de um processo inelutável que, em si mesmo, nada tem de condenável.
       O relativismo nutre-se de um equívoco: a inferência de que secularização equivale ao desaparecimento da religião. Ao contrário disto, assiste-se a enormes explosões de paixão religiosa. Peter Berger reconhece que, em países da Europa Ocidental, dada a presença de intelectualidade altamente secularizada, esse aspecto resulta obscurecido. Os Estados Unidos, contudo, o tornam inteiramente perceptível.
       Dado o fato de que o emprego do termo pluralismo possa incidir em equívoco, porquanto aparece por vezes associado a ideologias o autor preferiria “pluralização” o definiria deste modo: “pluralismo corresponde à situação na qual diferentes grupos étnicos ou religiosos coexistam e interajam socialmente em condições pacíficas”.
       A aceitação do pluralismo resulta, como bem acentua Peter Berger, no aumento da responsabilidade individual, na medida em que deve efetivar escolhas com muito maior amplitude que no passado. Resumindo a tese, afirma: “as certezas tornam-se muito mais difíceis de serem alcançadas.”
       A analise que efetiva do que denomina de “a resposta fundamentalista” comprova que desemboca inevitavelmente na recusa de qualquer espécie de diálogo. Relata experiência de sua própria juventude quando uma namorada comunista simplesmente se recusava a ouvir as denúncias das atrocidades cometidas pelos soviéticos nos países ocupados no Leste Europeu. Enfim, conduz inexoravelmente à intolerância.
       A partir do fato de que nenhuma sociedade pode sustentar-se sem a adoção de regras consensuais, sugere alguns pontos que deveriam figurar numa agenda normativa.
       Em primeiro lugar, não se pode conviver com a negação da objetividade científica, em que se comprazem segmentos expressivos da intelectualidade, sobretudo francesa. Pela simples razão de que repousa na suposição gratuita de que a ciência seria constituída de dogmas intocáveis. Em matéria de ciências sociais, o autor demonstra a perenidade da solução aventada por Max Weber, com vistas a assegurar o que batizou de “neutralidade axiológica”. Vale dizer, a condição de cientificidade, se assim se pode dizer, do estudo de determinados fatos sociais ou históricos, pressupõe que não se discuta (não se ponha em causa), a avaliação valorativa que possa ter merecido no contexto dado. Caberia, a propósito, lembrar que Karl Popper deixou-nos a indicação de que todo conhecimento científico está sujeito a refutação, notadamente aquele dependente de experimentação, situação em que se encontram as hipóteses afirmadas pelas ciências exatas.
       Em matéria moral, a sociedade moderna tem-nos obrigado a conviver com o que foi denominado de “moral social de tipo consensual”. Exemplo eloqüente encontra-se no modo como tem evoluído o conceito de família. Contudo, em que pese a diversidade com que se convive, esta somente se sustenta a partir da observância do reconhecimento de que repousa no princípio da paternidade responsável.
       Aborda ainda a questão de que o fundamentalismo, em muitos casos, nutre-se de pressupostos de índole religiosa, o que, na visão do autor, não se resumiria ao islamismo. É condenável de pronto na medida em que envolve doses exageradas de fanatismo. Mereceu análise mais ampla, a que aludiremos.
       A “descrição sociológica” do fenômeno encontra ainda uma análise da origem comum do relativismo e do fundamentalismo, devida a James Davidson Hunter, professor de sociologia na Universidade da Virgínia (Estados Unidos); a caracterização da “via média” surgida na Inglaterra, a cargo de Grace Davie, da Universidade de Exeter (Inglaterra); e a busca de uma política teológica, realizada pelas Igrejas Evangélicas, da autoria de Craig M. Gay, do Regent College de Vancouver (Canadá).
       Na segunda parte do livro, em que se procede à análise teológica, a questão a elucidar, como foi referido, diz respeito a saber se esta ou aquela religião favorece o fundamentalismo.
       A perspectiva judaica está apresentada por David M. Gordis, rabino conservador, presidente emérito do Colégio Hebreu, situado em Newton, Massachussetts, EE.UU. O ponto de vista católico, por Ingeborg Gabriel, professor de ética social na Faculdade Teológica Católica da Universidade de Viena, Áustria. A perspectiva evangélica pelo escritor norte-americano Os Guiness. A da Igreja Ortodoxa da América pelo sociólogo Michael Plekm, da Universidade de New York, clérigo da mencionada Igreja. Embora haja acompanhado e participado da discussão, o prof. Muhammed Kalisch, responsável pela cátedra de islamismo na Universidade de Munster, Alemanha, deixou de apresentar o texto correspondente. Peter Berger comparece nessa parcela do livro falando em nome dos luteranos.
       Nem todos os autores citados, ao apresentarem o posicionamento de suas respectivas igrejas, foram bem sucedidos na escolha dos argumentos tendo em vista dissocia-las do fundamentalismo. Pareceu-me que o argumento decisivo seria aquele proporcionado pelo organizador da coletânea. Ao expor a visão teológica do luteranismo, Peter Berger parte da situação histórica criada por Lutero: a legitimidade do crente discordar de sua Igreja. A par disto, o significado que atribui ao texto bíblico impossibilita qualquer fundamentalismo. Escreve: “O fundamentalista dirá que a Bíblia é a palavra de Deus. A visão luterana poderia ser resumida na afirmação de que a Bíblia contém a palavra de Deus. Parece uma diferença diminuta. Mas não é. A diferença é imensa”. (pág. 156)
       

Peter L. Berger
Nasceu em Viena, em 1929, tendo se radicado nos Estados Unidos, onde desenvolveu vitoriosa e consagrada carreira acadêmica. Deve ser-lhe atribuída o que se poderia chamar de “redescoberta” de Max Weber, ao ter comprovado que a mudança social deve-se è adoção de novos fundamentos morais, tese que veio a encontrar a maior receptividade desde que se baseou no estudo do fenômeno dos Tigres Asiáticos. É autor de extensa bibliografia

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