Noticiário
Ano III - n. 12 - abril / junho, 2011

 
Falecimento de Daniel Bell (1919/2011)

       Faleceu a 25 de janeiro último, às vésperas de completar 92 anos, o renomado pensador norte-americano Daniel Bell. Pertenceu ao grupo dirigente da Partisan Review (recorde-se que partisan foi o nome adotado, na Europa, pelos resistentes ao fascismo e ao nazismo). A crítica chegou a considerá-la como “a voz e alma da elite intelectual de Nova York, estendendo-se sua influência bem além de Manhattan”. Reunia nomes importantes da literatura como Mary McCarthy e Saul Bellow.
       Caberia a Daniel Bell dar um balanço na trajetória da esquerda norte-americana, formada nos anos trinta e cujo apogeu ocorreria no iníria da esquerda norte-americana, formada nos anos trinta e cujo apogeu dar-se-ia no início do pós-guerra e na década de cinqüenta. Na segunda metade desse último decênio, a esquerda mundial seria abalada pelo famoso Relatório Krushov. Tendo lhe cabido substituir a Stalin na chefia do governo soviético, denunciou o que passou a ser denominado de “crimes do stalinismo”. De certa forma confirmava o que vinha sendo documentado pela imprensa, até então negado pelos comunistas e simpatizantes, como “calúnias do imperialismo”.
       Não podia haver mais dúvidas de que se tratava de regime totalitário, ditadura cuja ferocidade suplantava todas as formas precedentes de autoritarismo, vividas na Europa.
       O resultado mais duradouro da mencionada denúncia seria a transição do socialismo democrático europeu para a social democracia, isto é, renúncia à estatização da economia e à utopia da sociedade sem classes, aposta na melhoria subseqüente das condições de vida da massa trabalhadora sob o capitalismo.
       A contribuição de Daniel Bell cifra-se precisamente em que iria proporcionar os elementos aptos a permitir que a intelectualidade pudesse fazer uma avaliação de caráter teórico da experiência vivida. Pareceu-lhe que esse caminho deveria consistir, num primeiro momento, na análise do conceito de ideologia. Ao tema dedicou o livro intitulado O fim da ideologia, aparecido em 1960. Alcançou uma grande repercussão, provocando animados debates o que o tornaria autêntico best seller editorial. A tradução brasileira somente apareceria vinte anos depois, em 1980, na Coleção Pensamento Político, da UnB (volume 11) o que é indício eloqüente de que, nessa matéria, grupos importantes da intelectualidade brasileira optaram por seguir aos franceses, que sequer tomaram conhecimento do fim do regime soviético.
       O certo é que, com o seu livro, Daniel Bell antecipou-se ao fim do comunismo e também entreviu que no seio da intelectualidade emergiria a resistência ao reconhecimento da nova realidade.
       O fim da ideologia descreve o destino desse conceito, desde que inventado por alguns autores em disputa com Napoleão, na França pós-revolucionária, até ser apropriado pelos marxistas e se transformar, para usar a expressão de Raymond Aron, no “ópio dos intelectuais”. Escreve o autor: “A análise da ideologia é relevante para o estudo da intelligentsia. Pode-se dizer que a ideologia está para o intelectual como a religião está para o sacerdote, o que nos dá uma idéia da amplitude de significação da palavra, e indica uma das razões que explicam a variedade de suas funções.”
       Bell não confunde o fim da ideologia com o fim da utopia, na acepção que a identifica com ideais. Os homens precisam de algo que lhes permita visualizar as suas potencialidades. Mas a experiência das décadas precedentes sugeria-lhe que “o ingresso na Cidade celestial não pode continuar sendo pela escada da fé; precisa agora de um caminho empírico”. Cumpre-lhe especificar objetivos, determinar os seus custos e indicar expressamente quem os pagará. Conclui que dificilmente a esquerda possa continuar nutrindo-se de fórmulas fáceis.
       O núcleo de pensadores que havia criado Partisan Review mantive-a até o início do novo século, notadamente como uma publicação de caráter literário. Para dar continuidade à avaliação da luta política, estruturou-se uma outra publicação: Public Interest, fundada em 1965. Basicamente, ocupou-se da avaliação crítica das instituições políticas e culturais surgidas nos Estados Unidos, o que os levaria à firme adesão à sociedade aberta. Em matéria de organização da economia, Bell entendia que o ideal socialista, encarado do ponto de vista de sua dimensão moral, poderia contribuir no aprimoramento sucessivo das relações de trabalho. Nesse grupo, Irving Kristol (1920/2009) ocupar-se-ia de desenvolver a doutrina liberal (tenha-se presente que o termo liberal, naquele país, corresponde ao que seria a social democracia européia, denominando-se os liberais de conservatives) através do que seria denominado de neoconservadorismo.
       Desde o início da década de sessenta, Daniel Bell ocupou-se da carreira universitária, tendo se tornado professor emérito em Harvard. Além da obra mencionada, dois outros de seus livros alcançaram idêntico sucesso, sendo considerados como relevantes na compreensão do desenvolvimento do capitalismo. Apresentam avaliações inovadoras para fenômenos tais como a emergência da sociedade de consumo e a erosão de valores morais (A sociedade pós-industrial -1973; e As contradições culturais do capitalismo -1978).
       

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