09/03/2012

Política, virtude e arte do bem comum- Sen.Marco Maciel


Política, virtude e arte do bem comum

Senador Marco Maciel

“O ESTILO é o homem”, sentenciou Louis Buffon, em 1753, no chamado século das luzes. Mas, ainda que seja difícil fixar o território do intelectual e o do político, quem leu “Formas de Vida”, de Spranger, ali encontrou esta distinção fundamental, conforme observa Josué Montello: enquanto ao intelectual compete a interpretação da sociedade, cabe ao político a sua direção.

Ao homem público, contudo, deve ser imputado compromisso moral, já que o exercício da política não pode ser um fim, antes o instrumento de transformações que a nação reclama. A política, antes de se constituir uma profissão, é um dom a exigir ação missionária, que prescreve, inclusive, o ofício da paciência. Não por outra razão, o tomismo sinteticamente a conceitua como “ciência, virtude e arte do bem comum”.

O conformismo e a passividade são incompatíveis com a dinâmica de nossos dias. Assim, incumbe ao político -como aprendi com o padre Lebret- procurar andar mais depressa que os acontecimentos, ver com antecipação a realidade e agir prontamente sobre os problemas e suas causas. A ele também se impõe assumir ônus, desprezar bônus e consagrar-se à causa abraçada.

Ademais, é preciso ter presente que a divergência é prova de vitalidade da política e, por envolver idéias, provoca discussão apaixonada. Nesse contexto, a firmeza das convicções, ainda que não sejam as nossas, deve ser apreciada, pois não constitui empecilho para o entendimento e a transigência. Na ausência dessas condições, a prática da política se transforma no exercício estéril do confronto, da denúncia e do impasse.

Cabe, portanto, ao político buscar sempre, entre o que nos separa, aquilo que pode nos unir, porque, se queremos viver juntos na divergência, princípio vital da democracia, estamos condenados a nos entender. Afinal, o êxito pode residir, muitas das vezes, não no resultado final, mas no percurso.

Para Jefferson Péres, homem público, a política era doar-se à nação. Antes de eleger-se senador da República, exerceu por dois mandatos as funções de vereador em Manaus, nos quais deixou desvelado seu amor à primeira instância da política -o município, onde a cidadania se efetiva em toda sua intensidade, por ser a primeira célula da organização política do país.

É certo que a Federação foi um anseio que medrou cedo em nossa evolução histórica. Não exagero se asseverar que a busca de um Estado federal antecedeu à própria luta pela transformação do império em República. Lembre-se, a propósito, que o Manifesto Republicano começa reconhecendo: “No Brasil, antes da idéia democrática encarregou-se a natureza de estabelecer o princípio federativo”.

Faço tais considerações, uma vez que o Estado unitário foi o modelo adotado até a proclamação da República, para citar palavras de Jefferson Péres em prol da descentralização do ato de governar:

“Durante muitos e muitos anos, a tradição dominante na historiografia, nos estudos políticos e sociais brasileiros enfatizava a perspectiva do Estado nacional e do poder central. Era como se o município, a localidade, o bairro, a rua onde viviam e vivem os brasileiros de carne e osso não existissem -ou, então, existissem apenas como projeção da vontade e das atividades do centro onisciente, onipresente e onipotente.

Raríssimos foram os autores, como o alagoano Tavares Bastos, que levantaram suas vozes para afirmar que essa maneira de encarar o Brasil estava errada e era altamente prejudicial aos interesses históricos do nosso povo.

Isso porque, em livros tão importantes quanto pouco lidos, infelizmente, até hoje -tais como “Os Males do Presente”, “As Esperanças do Futuro”, “Cartas do Solitário” e o seu grande clássico “A Província” (1870)- ensina Tavares Bastos que as sociedades livres, criativas, bem-estruturadas e, se posso usar uma metáfora biológica, saudáveis, são aquelas que crescem da base para o topo, e não vice-versa”.

Honrar a memória dos ilustres homens públicos, como foi o senador Jefferson Péres, constitui não somente um gesto de reconhecimento pelo exemplo de civismo que nos legou, serve, igualmente, de símbolo para as novas gerações tão carentes de atitudes inspiradas em virtudes republicanas. São lições de quem fez do ato político uma reflexão diária. A “res publica” -coisa pública- preconizada por Cícero quer enfatizar que apenas o interesse público governa.

(Transcrito da Folha de S. Paulo, 25/06/2008)