30/04/2014

O quadro político da América Latina


As eleições, já resolvidas desde o final de 2013 até este primeiro quadrimestre, e a popularidade dos governos apontam para dois vetores que se opõem. Por um lado o avanço do chavismo na América Central.

 

Em El Salvador a vitória por diferença mínima do candidato da FMLN que mesmo com o governo não passou de 0,2 pontos mostra um país dividido, mas radicalizado à esquerda. Na eleição anterior a FMLN lançou um âncora de programas políticos na TV: venceu com folga e governou com moderação. Mas o poder os levou a lançar Sánchez Cerén, um ex-comandante guerrilheiro declaradamente chavista. Venceu por seis mil votos. Veio a recontagem. Mas a oposição –Arena e seu candidato Norman Quijano- prefeito de San Salvador- sublinham suas dúvidas e proclamam a fraude.

 

Na Costa Rica, o PLN que governa o país há vários anos, e franco favorito, lançou Johnny Araya, prefeito de San José. Luis Guillermo Solís – historiador, que rompeu com o PLN há alguns anos, político de centro-esquerda – ingressou no PAC criado em 2000. Surpreendentemente Solís cresceu e empatou no primeiro turno. As pesquisas no segundo turno indicaram uma enorme vantagem de Solís – algo como 60% a 25%. Eleição na primeira semana de abril. Araya desistiu e Solís de forma antecipada é o novo presidente da Costa Rica.

 

Se agregarmos a Nicarágua, com Daniel Ortega copiando a mesma metodologia chavista, mudando a constituição à sua vontade, permitindo reeleição indefinida e um critério para segundo turno, que facilita sua vitória no primeiro turno como primeira minoria, o chavismo se aprofunda no país.

 

Em Honduras o candidato conservador do PN, Juan Orlando Hernández, venceu com folga a esposa do ex-presidente e golpista Manuel Zelaya, apesar da impopularidade do presidente que sucede, de seu próprio partido. As pesquisas apontavam uma vitória apertada, mas as urnas mostraram uma vantagem elástica de Hernández.

 

Os casos de El Salvador e Honduras, onde o processo eleitoral radicaliza e estressa, mostram que as pesquisas de opinião podem não expressar a decisão do que se chama – maioria silenciosa. Parte dos eleitores entrevistados cara a cara teme por estar sendo identificados e refluem, como indecisos ou não respondendo. Na América Central, Guatemala e Panamá se mantém com governos de centro-direita, de alta aprovação. Em maio virão as eleições gerais, presidenciais e parlamentares no Panamá, com o governo como favorito. José Domingo Árias com 39%, enfrentando o Juan Carlos Navarro, candidato de centro-esquerda com 32% e o vice-presidente Juan Carlos Varela, que rompeu com o governo de Ricardo Martinelli com 24%. O Panamá, nos últimos quatro anos acumulados, foi a economia que mais cresceu no continente.

                                                                                      

As eleições parlamentares na Colômbia – preliminares das presidenciais de maio – mostraram um quadro pulverizado onde o presidente Juan Manuela Santos – se reeleito – precisará manter ou ampliar sua coligação de governo, especialmente com o histórico Partido Conservador. O ex-presidente Álvaro Uribe – crítico ácido da negociação com as FARC – teve enorme votação para o poderoso Senado colombiano, e seu partido elegeu 21 senadores contra 22 do presidente. A primeira minoria na Câmara de Deputados será do histórico Partido Liberal que não integra a coligação de Santos. A eleição presidencial próxima será Santos x Candidato de Uribe, e o tema principal, sim ou não à negociação com as FARC.

 

Nas eleições municipais no Equador o presidente chavista Rafael Correa sofreu uma contundente derrota, perdendo nas três principais cidades: Quito, Guayaquil e Cuenca. Em seguida culpou ao partido e fez uma ampla reforma ministerial.

 

Na Venezuela o quadro político desintegrou. Paradoxalmente – após as eleições regionais de fins de 2013 – quando o chavismo venceu e obteve um resultado melhor que na re-reeleição de Hugo Chávez, a deterioração econômica com desabastecimento generalizado, inflação no nível de 50%, câmbio paralelo nove vezes maior que o oficial,…, levou as ruas uma oposição ampliada e aguerrida. Já são 28 mortes. Apesar da cumplicidade do Brasil e da Argentina com uma inadmissível omissão, os caminhos da pacificação social estão – por enquanto – obstruídos.

 

No Chile venceu a candidata socialista e ex-presidente, Michelle Bachelet, franca favorita. As pesquisas que indicavam uma vitória folgada no primeiro turno não se confirmaram, em função de dois candidatos outsiders que somados chegaram a quase 25%. Pelo sistema eleitoral parlamentar chileno, de dupla maioria, nenhuma reforma constitucional é possível sem que parte da oposição vote com o governo. O Chile vai bem, e a impopularidade do presidente Sebastián Piñera, reverteu após as eleições, numa espécie de reconhecimento popular de seu governo.

 

O quadro no Brasil é imprevisível, seja pelo conflito aberto na base parlamentar do governo,seja pelos crescentes problemas econômicos e agora energéticos, seja pela rejeição popular aos políticos em geral. A Copa do Mundo de evento aglutinador se transformou em mote dos protestos, somando as críticas ao desperdício, à corrupção. A presidente Dilma Rousseff vive uma disjuntiva: tem que vencer no primeiro turno, pois havendo segundo turno, deixará de ser favorita.

 

O presidente do México – Peña Nieto – que enfrentava uma dinâmica de desgaste após sua eleição, com protestos massivos nas ruas, e com a criação de milícias privadas para enfrentar o narcotráfico, obteve duas grandes vitórias com a prisão dos mega-traficantes Chapo Gusmán (o mais procurado no mundo) e Ismael Zambada, conhecido como El Mayo. Como resultado, imediatamente as pesquisas passaram a indicar uma recuperação com aprovação de 50% contra 48% de desaprovação, invertendo a tendência anterior.

 

Na Argentina o desgaste da presidente Cristina Kirchner se acentua com as más noticias na área econômica, com o aumento dos protestos e com a derrota parcial nas eleições parlamentares de 2013 que renovaram 50% dos deputados. Além disso, Kirchner tem problemas com a carência de nomes para sua sucessão e a com a inviabilidade de conseguir uma nova reeleição.

 

Na Bolívia o uso da repressão pelo chavista Evo Morales se amplia. Já não controla mais os sindicatos e enfrenta problemas com sua base indígena. Continua a usar a legislação que aprova para manter base parlamentar e regional. Seu desgaste em Santa Cruz – base econômica do país, com soja, pecuária – é irreversível em médio prazo. Sua âncora é a exportação de gás, especialmente com o consumo extravagante por parte da Argentina.

 

O Paraguai elegeu novo presidente com ampla maioria, que pragmaticamente retornou ao Mercosul e abriu as fronteiras econômicas para os investidores brasileiros. O PIB cresceu 14% em 2013 e as projeções para 2014 são altas, mesmo que num patamar menor, mas ainda o maior da América Latina.

 

E finalmente o Peru, que vive um impasse parlamentar por não se definir maiorias, com derrota judicial do presidente Ollanta Humala, que queria lançar sua esposa, e crescimento do narcotráfico. A área plantada de coca no Peru hoje, quase iguala a Colômbia.  Mas a economia peruana continua sólida e vai muito bem, como nos anos anteriores. A vitória parcial em Haya contra o Chile sobre mar territorial e área de exploração econômica, fortaleceu o ambiente de autoestima do peruano. O ex-presidente Alan Garcia surge como favorito para as próximas eleições em 2016, onde deverá enfrentar o fujimorismo, representado por Keiko Fujimori, que perdeu a última eleição por pequena diferença.