30/01/2014

O bacalhau da Dona Dilma


O bacalhau da Dona Dilma

 Paulo Gouvêa da Costa*

Esta semana, após participar do Fórum Econômico de Davos, na Suíça, a presidente Dilma inaugurou um dos maiores e mais modernos portos do mundo. Beleza? Sim, beleza para os cubanos porque o porto fica lá na terra deles. E o que Dilma tem a ver com este porto que não é nosso? Tem tudo a ver – porque o grosso do dinheiro que viabilizou a obra saiu do Brasil. O nosso BNDES entrou com 680 milhões de dólares de financiamento, 1 bilhão e 600 milhões de reais. E Dilma, feliz da vida ao lado do ditador Raul Castro, anunciou que vai por mais 290 milhões de dólares nas obras do entorno do porto.

Até parece que está sobrando dinheiro no Brasil. Mas, não é essa a realidade. Por falta de investimentos, persistem, nos portos brasileiros, filas imensas de caminhões para carregar e descarregar; o tempo das operações portuárias é bem maior que em outros países. E os custos são enormes. No entanto, o governo de Dona Dilma, no ano passado, investiu em todos nossos portos, 15 milhões de dólares. Quinze. Para Cuba, mais de novecentos. A propósito, o presidente da Associação dos Produtores de Soja e Milho de Mato Grosso, Carlos Fávaro, disse: "O investimento em Cuba é uma falta de respeito com o produtor brasileiro. Nossa infraestrutura logística está trinta anos atrasada".

E ainda tem um detalhe: o acordo com Cuba foi classificado “confidencial” pelo governo brasileiro. Ninguém pode ver. Parece o contrato do Neymar com o Barcelona.

Na reunião da Suíça, Dilma disse a um grupo de investidores internacionais – que estavam preocupados com o péssimo estado de nossos aeroportos, estradas e portos – que a infraestrutura brasileira é grande prioridade do seu governo. Só não falou que no dia seguinte ia inaugurar uma grande obra – em Cuba.

Quando era presidente, Lula tinha uma certa vergonha de participar do Fórum Econômico. Dava uma passada em Davos e, em seguida, partia para a reunião do Fórum Social Mundial – um evento de orientação esquerdista. Não queria parecer muito chegado ao capitalismo internacional. Dilma, pelo jeito, tem os mesmos pudores. Mas, alterou um pouco a estratégia: da Suíça foi para Cuba. E fez a festa dos irmãos Castro com os investimentos que estão faltando no nosso país.

Entre Davos e Havana, a presidente Dilma deu uma paradinha, para um pernoite, em Lisboa, no seu vôo da Suíça para Cuba. E o fato virou polêmica. Tem gente da oposição pedindo na Justiça que a ampla comitiva da Presidente devolva aos cofres públicos as despesas com a hospedagem e com o jantar que tiveram na capital portuguesa. Apesar do tamanho da espetaculosa comitiva presidencial – foram necessários trinta quartos em dois dos mais luxuosos hotéis de Lisboa – acho isso pouco relevante. Certamente os oposicionistas ao governo de Dilma têm coisas bem mais importantes para reclamar.

A explicação de que a escala prolongada em Lisboa era uma necessidade técnica – o avião presidencial não tinha capacidade para voar diretamente de Zurique até Havana – me parece razoável. E, se a parada em algum lugar era necessária, é normal que a turma vá para um hotel confortável e que os respectivos estômagos sejam abastecidos. Tudo bem. Mas, parece que Dilma foi acometida de um estranho complexo de culpa em relação ao jantar. Ou então aproveitou a oportunidade para nos aplicar uma dose cavalar de demagogia. Em rede nacional de TV ela declarou, como se fosse a coisa mais importante do mundo, que pagou, com seu dinheiro, o bacalhau que comeu. E assim também fizeram seus ministros. Com aquele ar de professora braba, Dilma trovejou: “Eu só faço exigência que eu também exijo de mim, que quem jantar ou almoçar comigo pague a sua conta”. Olhando fixo para as câmeras, concluiu: “Eu pago a minha conta, pode ter certeza disso".

Muito bem, mas me parece-me evidente que o custo dessa refeição não iria abalar o Tesouro Nacional. O povo brasileiro está preocupado com outra coisa: o fato de que Dilma mandou nosso BNDES investir dois bilhões de reais na construção de um porto em Cuba. Para fazer um agrado nos seus ídolos Fidel e Raul Castro, Dilma presenteou o país deles com um investimento cento e trinta vezes maior do que fez, no ano passado, em todos os portos brasileiros. E depois disso foi para a TV dizer que economizou um prato de bacalhau. 

 

* Ex-Deputado Federal, Presidente DEM-SC.