Política, virtude
e arte do bem comum
Senador Marco Maciel
"O ESTILO
é o homem", sentenciou Louis Buffon, em 1753,
no chamado século das luzes. Mas, ainda que seja
difícil fixar o território do intelectual
e o do político, quem leu "Formas de Vida",
de Spranger, ali encontrou esta distinção
fundamental, conforme observa Josué Montello: enquanto
ao intelectual compete a interpretação da
sociedade, cabe ao político a sua direção.
Ao homem público,
contudo, deve ser imputado compromisso moral, já
que o exercício da política não pode
ser um fim, antes o instrumento de transformações
que a nação reclama. A política,
antes de se constituir uma profissão, é
um dom a exigir ação missionária,
que prescreve, inclusive, o ofício da paciência.
Não por outra razão, o tomismo sinteticamente
a conceitua como "ciência, virtude e arte do
bem comum".
O conformismo
e a passividade são incompatíveis com a
dinâmica de nossos dias. Assim, incumbe ao político
-como aprendi com o padre Lebret- procurar andar mais
depressa que os acontecimentos, ver com antecipação
a realidade e agir prontamente sobre os problemas e suas
causas. A ele também se impõe assumir ônus,
desprezar bônus e consagrar-se à causa abraçada.
Ademais, é
preciso ter presente que a divergência é
prova de vitalidade da política e, por envolver
idéias, provoca discussão apaixonada. Nesse
contexto, a firmeza das convicções, ainda
que não sejam as nossas, deve ser apreciada, pois
não constitui empecilho para o entendimento e a
transigência. Na ausência dessas condições,
a prática da política se transforma no exercício
estéril do confronto, da denúncia e do impasse.
Cabe, portanto,
ao político buscar sempre, entre o que nos separa,
aquilo que pode nos unir, porque, se queremos viver juntos
na divergência, princípio vital da democracia,
estamos condenados a nos entender. Afinal, o êxito
pode residir, muitas das vezes, não no resultado
final, mas no percurso.
Para Jefferson
Péres, homem público, a política
era doar-se à nação. Antes de eleger-se
senador da República, exerceu por dois mandatos
as funções de vereador em Manaus, nos quais
deixou desvelado seu amor à primeira instância
da política -o município, onde a cidadania
se efetiva em toda sua intensidade, por ser a primeira
célula da organização política
do país.
É certo
que a Federação foi um anseio que medrou
cedo em nossa evolução histórica.
Não exagero se asseverar que a busca de um Estado
federal antecedeu à própria luta pela transformação
do império em República. Lembre-se, a propósito,
que o Manifesto Republicano começa reconhecendo:
"No Brasil, antes da idéia democrática
encarregou-se a natureza de estabelecer o princípio
federativo".
Faço
tais considerações, uma vez que o Estado
unitário foi o modelo adotado até a proclamação
da República, para citar palavras de Jefferson
Péres em prol da descentralização
do ato de governar:
"Durante
muitos e muitos anos, a tradição dominante
na historiografia, nos estudos políticos e sociais
brasileiros enfatizava a perspectiva do Estado nacional
e do poder central. Era como se o município, a
localidade, o bairro, a rua onde viviam e vivem os brasileiros
de carne e osso não existissem -ou, então,
existissem apenas como projeção da vontade
e das atividades do centro onisciente, onipresente e onipotente.
Raríssimos
foram os autores, como o alagoano Tavares Bastos, que
levantaram suas vozes para afirmar que essa maneira de
encarar o Brasil estava errada e era altamente prejudicial
aos interesses históricos do nosso povo.
Isso porque,
em livros tão importantes quanto pouco lidos, infelizmente,
até hoje -tais como "Os Males do Presente",
"As Esperanças do Futuro", "Cartas
do Solitário" e o seu grande clássico
"A Província" (1870)- ensina Tavares
Bastos que as sociedades livres, criativas, bem-estruturadas
e, se posso usar uma metáfora biológica,
saudáveis, são aquelas que crescem da base
para o topo, e não vice-versa".
Honrar a memória
dos ilustres homens públicos, como foi o senador
Jefferson Péres, constitui não somente um
gesto de reconhecimento pelo exemplo de civismo que nos
legou, serve, igualmente, de símbolo para as novas
gerações tão carentes de atitudes
inspiradas em virtudes republicanas. São lições
de quem fez do ato político uma reflexão
diária. A "res publica" -coisa pública-
preconizada por Cícero quer enfatizar que apenas
o interesse público governa.
(Transcrito da Folha de S. Paulo, 25/06/2008)
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