Série “Pensadores”: Robert Nozick, Por Ighor Branco.

Tido como um dos professores mais brilhantes e controversos de Harvard, Robert Nozick foi um escritor, filósofo e um dos principais defensores do pensamento libertário. Seu livro Anarquia, Estado e Utopia, publicado em 1974, teve o efeito imprevisível: transformou o libertarianismo de uma filosofia política que não era levada a sério na academia em um tópico obrigatório de discussão entre filósofos e entre estudiosos.

Depois de Nozick, as visões libertárias foram rotineiramente consideradas em textos introdutórios na filosofia política. Embora frequentemente seja uma ideologia exposta para ser contestada, ela passou a ser levada em consideração seriamente.

Embora ele tenha compartilhado o apoio de Ayn Rand aos mercados livres, bem como seu compromisso de fundamentar o capitalismo em direitos naturais ao invés de utilidade ou contrato social, ele argumentou que a derivação de direitos naturais da teórica liberal era falha.

Ao longo de pouco mais de 300 páginas, Robert Nozick argumenta que o Estado mínimo é moralmente justificável. Focado apenas em defender os cidadãos contra ataques aos seus direitos naturais, esse “vigilante noturno” seria limitado ao máximo. A partir disso, o filósofo americano tentou refutar as argumentações de liberais sociais, socialistas, social-democratas e até mesmo dos anarcocapitalistas.

Quem foi Robert Nozick

Filho de um imigrante russo chamado Max Nozick e Sophie Cohen Nozick, Robert Nozick nasceu em Nova York, em 1938. Foi professor em Princeton, na Universidade Rockefeller e em Harvard, onde trabalhou até se aposentar. Morreu aos 63 anos, de câncer de estômago.

Nozick se tornou aluno da universidade de Columbia na década de 1950 e logo se apaixonou pelas ideias socialistas – como tanto outros liberais já tratados nessa série. Nos seus primeiros anos de juventude, foi membro de instituições políticas de esquerda e o fundador da Liga Estudantil pela Democracia Industrial.

No começo da década seguinte, porém, durante o seu doutorado em Princeton, o filósofo passou por uma grande mudança no seu pensamento. A pesquisa de doutorado de Nozick o colocou frente a frente com a suas ideias. O contato com autores como Ayn Rand, Rothbard, Hayek e Mises tornou o filósofo apaixonado pelo capitalismo e as sociedades de livre mercado.

PRINCIPAIS IDEIAS

“Os indivíduos têm direitos”, declarou Nozick, “e há coisas que nenhuma pessoa ou grupo pode fazer (sem violar os direitos de outros)”. Para o abraço sincero dos liberais ao estado de bem-estar social, Nozick respondeu que a justificativa de qualquer estado, mesmo que mínima, é problemática.

A seu gosto pela redistribuição, Robert Nozick ofereceu um argumento contra as “teorias padronizadas” da justiça que exigem intervenção constante do estado para evitar desvios causados por atos voluntários. Para utópicos de vários tipos, incluindo os marxistas, Nozick ofereceu sua própria visão de uma estrutura libertária que permitiria que comunidades voluntárias de todos os tipos prosperassem sob sua ala minimalista.

Vindos de um professor do departamento de filosofia da Universidade de Harvard, esses pensamentos heréticos não podiam ser facilmente ignorados, especialmente depois que o livro de Robert Nozick recebeu o National Book Award de 1975.

UM LIBERAL CENTRISTA

O texto de Anarquia, Estado e utopia não é apenas uma resposta às ideias de John Rawls. Via de regra, o trabalho de Nozick é um confronto direto com toda a tradição de pensadores que focam na noção de justiça distributiva. A análise do grau de justiça das ações humanas, para ele, deveria ser focada no seu meio de ação e não em seu resultado.

Mas, ao longo da defesa de suas ideias, o autor cria um argumento que quase o coloca ao centro do espectro político: não busca o fim de um ente monopolizador da legitimidade do uso da força mas, ao mesmo tempo, não cria um modelo de ação governamental com múltiplas responsabilidades.

Ao contrário de Rawls, Nozick não dedicou parte de sua carreira para escrever respostas às críticas feitas à sua obra. Após a publicação de Anarquia, Estado e utopia, o filósofo se direcionou para outros tópicos. Ainda que muitos o conheçam apenas pela defesa quase libertária da liberdade individual, Nozick também trouxe grandes composições para campos como a epistemologia e a teoria da decisão.

O legado que fica do autor é a discussão legítima sobre o tamanho do Estado e até onde seu grau de influência e controle deve ir. De fato, Nozick traz uma visão antagônica aos principais liberais, mas a sua contribuição está justamente nesse contraponto.

Ighor Branco, acadêmico de Ciência Política da UFPE.

FONTES:

- NOZICK, Robert. Anarquia, Estado e Utopia; WMF Martins Fontes - POD; 1ª edição (1 janeiro 2011)

- https://www3.ufrb.edu.br/seer/index.php/griot/article/view/666

- https://www.scielo.br/j/ln/a/NnD9VSyjYV4gqVXsB9bNj3P/?lang=pt