Série “Pensadores”: Karl Popper, Por Ighor Branco

Tido como um dos maiores pensadores da filosofia contemporânea, Karl Popper ficou conhecido pelo conceito de falseabilidade, que faz parte do sistema filosófico que ele criou chamado de racionalismo crítico, utilizado como base até hoje para o desenvolvimento da ciência em todo mundo.

Austríaco e naturalizado britânico, nascido numa família de classe alta de origem judaica secularizada, Popper teve a maior parte da sua formação nas áreas da filosofia da ciência e da sociologia. Desse modo, redigiu livros importantes como A lógica da pesquisa científica (1934) e A sociedade aberta e seus inimigos (1945), obra que sintetiza seu pensamento liberal.

PRINCIPAIS BANDEIRAS

 Crítico ferrenho da abordagem indutiva na ciência, ou seja, da formulação de hipóteses de maneira posterior à observação, Karl Popper baseou seu pensamento a partir da ideia do filósofo David Hume, que diz que não é pelo fato de alguém ter visto apenas cisnes brancos que pode afirmar que somente existem cisnes brancos. Nesse sentido, Popper foi um dos principais pensadores do método científico e, por consequência, sempre enxergou o avanço do conhecimento como propulsor da sociedade.

No que diz respeito à posição política, o pensador é conhecido como um vigoroso defensor da democracia liberal. Porém, nem sempre foi assim. O filósofo foi membro ativo do Partido Comunista da Áustria, mas quando questionou os líderes do partido sobre a morte de vários colegas em uma manifestação, obteve a resposta de que foram necessárias para se realizar a revolução, o que o marcou profundamente e, a partir daí, começou a questionar a ideologia marxista.

Com o tempo, Popper buscou refutar o marxismo e tornou-se um liberal. Em 1947, Popper fundou junto a Friedrich Hayek, Milton Friedman, Ludwig von Mises e outros a Sociedade Mont Pèlerin para defender o Liberalismo clássico, com o desejo de caminhar para uma sociedade aberta.

TEORIA DE KARL POPPER

 Popper argumenta que a teoria científica sempre dependerá da conjectura e será provisória. Ou seja, não é possível confirmar absolutamente algo pela simples constatação de que os resultados previstos foram verificados. Assim, uma teoria científica deve ter apenas o status de ainda não contrariada por uma outra observação.

Nesse sentido, o processo científico se dá à medida que as experiências do mundo real encontram brechas que tornem determinada teoria falsa. Nesse caso é preciso eliminar essa teoria e procurar uma outra para explicar o fenómeno em questão.

De modo geral, uma teoria científica pode ser refutada por uma única observação negativa, mas nenhuma quantidade de observações positivas poderá garantir que a veracidade de uma teoria científica seja imutável.

Seguindo essa lógica, a contribuição de Karl Popper funciona como uma meta-teoria que testa o grau de confiança das elucidações existentes. Isso significa que quanto mais uma teoria resiste aos erros, mais consistente ela é.

Um exemplo prático disso são as diversas mudanças em relação ao conhecimento científico sobre a Covid-19. A OMS já até desaconselhou a utilização de máscaras no início da pandemia por ainda não ter evidências que comprovassem a necessidade do uso.

Em síntese, a contribuição de Popper se condensa nas seguintes etapas:

– Definição de um problema;

– Elaboração de hipóteses ou conjecturas, que expliquem ou solucionem (ainda que parcialmente ou provisoriamente) o problema em questão;

– A tentativa de contestação dessas hipóteses ou conjecturas, ou seja, a prova de que elas podem ser falseadas.

 

O PARADOXO DA TOLERÂNCIA

Por último, um dos pensamentos mais emblemáticos de Popper é a respeito do paradoxo da tolerância, que tem relação direta com a discussão entre a liberdade de expressão e o discurso de ódio.

Embora soe contraditório, no livro A sociedade aberta e seus inimigos, Popper argumenta que a intolerância não deve ser tolerada, pois se a tolerância permitir que a intolerância tenha êxito, a própria tolerância fica ameaçada.

Segundo o pensador, “A tolerância ilimitada leva ao desaparecimento da tolerância. Se não houve defesa de uma sociedade tolerante contra o ataque intolerante, os tolerantes serão destruídos – No entanto, não se deve suprimir as filosofias intolerantes, contanto que se possa combatê-las por argumentos e mantê-las sob controle pela opinião pública.”

Nesse sentido, o autor entende que qualquer movimento que pregue a intolerância vai de encontro a lei. Assim, a incitação à intolerância e perseguição decorrente dela deve ser tratada como crime.

Portanto, além das contribuições a respeito da ciência e suas delimitações, Popper oferece reflexões para pensar a liberdade de expressão de grupos e movimentos de caráter conflitante na sociedade.

Ighor Branco, acadêmico de Ciência Política da UFPE. 

FONTES:

- POPPER, Karl R. A Lógica da Pesquisa Científica. 2ª Edição. Brasil: Cultrix, 4 dezembro 2013.

- MILLER, David. Karl Popper: Textos escolhidos. 1ª Edição. Brasil: Contraponto e Editora PUC, junho de 2010.

- POPPER, Karl R. The Open Society And Its Enemies. Volumes I and II, 1962. Fifth edition (revised) 1966.

Paradoxo da tolerância – Wikipédia, a enciclopédia livre (wikipedia.org)

A concepção de ciência de Karl Popper - Brasil Escola (uol.com.br)