Série “Pensadores”: José Ortega y Gasset, Por Ighor Branco.

Grande liberal, José Ortega y Gasset é conhecido como um dos maiores filósofos da Espanha, tendo atuado também como ensaísta e redator. Filho de pais jornalistas, teve boa parte da sua percepção crítica e estilo literário influenciada pelos impressos.

A vida pública de Ortega se deu a partir de 1910, quando ele iniciou a sua docência universitária e as suas atividades políticas e culturais. Durante a Guerra Civil Espanhola, viajou pelo mundo: palestrou na Argentina, na Holanda, na França e em Portugal. Ao longo dos anos, Ortega produziu análises profundas e críticas do seu tempo, sem se esquivar das polêmicas. Em 1955, o filósofo faleceu em Madrid.

CONTEXTO

Um pouco antes da ascensão do Fascismo na Espanha, Ortega denunciava os perigos à sociedade de um governo intervencionista, baseado no regime de um Estado policial.

Ortega acreditava que um dos pontos fundamentais para entender isso era o alcance crescente do progresso e desenvolvimento da civilizações, com novos padrões de qualidade de vida, que não caminhou lado a lado com a valorização do indivíduo e das faculdades próprias do ser humano.

FUNDAMENTO DE SUA OBRA

O ponto central do pensamento de Ortega está na frase “Eu sou eu e minhas circunstâncias” – saber disso, na sua visão, seria o primeiro passo pra explorar nossas potencialidades. Desse modo, sem a noção das nossas próprias circunstâncias e como elas influenciam nosso comportamento, poderíamos acabar como “homem-massa”.

Nesse sentido, na sua concepção, “homem-massa é todo aquele indivíduo que não valoriza a si mesmo – positiva ou negativamente – por razões específicas, de modo que se sente ‘como todo mundo’ e, no entanto, não se angustia, se sente à vontade por sentir-se idêntico aos demais.”

Em relação a isso, Ortega argumentava, “não há dúvidas de que a divisão mais radical que cabe fazer da humanidade é esta, entre duas classes de criatura: as que se exigem muito e acumulam sobre si mesmas dificuldades e deveres, e as que não se exigem nada de especial, pois para elas viver é ser em cada instante o que já são, sem esforço de aperfeiçoamento sobre si mesmas, boias que nadam à deriva.”

Em síntese, na percepção do filósofo, homem-massa seria todo aquele que abre mão de ser indivíduo.

DIAGNÓSTICO SOCIAL

Na concepção do ensaísta, o diagnóstico do homem-massa como um problema para as democracias liberais está na grande marca do século XX: o acesso a um padrão de qualidade de vida nunca visto. As revoluções do século XIX mudaram a dinâmica das sociedades. As separações de classes aristocráticas foram derrubadas e a cidadania expandida a todos os membros de uma nação, que agora poderiam colocar as suas ideias em nível de igualdade com qualquer outro membro da sociedade.

Nesse sentido, por qual motivo a ampliação da cidadania a todos poderia ser um problema? Para Ortega, a sociedade sempre foi composta de uma dinâmica entre minorias qualificadas e massas não qualificadas. Sempre que as massas tomam para si os rumos de uma nação, o seu tecido social está destinado a ser rasgado.

No entanto, é importante dizer que para Ortega o “homem médio” não seria uma pessoa pobre, com ausência de recursos ou acesso à educação. O membro das massas não qualificadas seria aquele que é comum, genérico.

As minorias qualificadas, por sua vez, são aqueles grupos que exigem de si mais do que exigem dos demais. São as pessoas que procuram, de maneira contínua, se aperfeiçoarem. Não é, portanto, a antiga nobreza (ainda que ela muitas vezes tivesse esse caráter) ou os empreendedores de sucesso, mas sim as pessoas que não se conformavam com o estado em que se encontravam.

REBELIÃO DAS MASSAS

A Rebelião das Massas é a obra prima de Ortega y Gasset. Escrita no período entre guerras, retrata as grandes transformações que a Europa – e o resto do mundo – passaram ao longo do século XX.

Em resumo, a rebelião das massas, em si, é o que se dá quando os homens médios chegam ao poder sem deixarem de ser homens médios. É o império das maiorias sob as minorias, o triunfo da “hiper democracia” e da normalização da mediocridade. Em último caso, é o cenário em que todo o mundo se torna só a massa.

VISÃO DE FUTURO

Apesar de crítico, Gasset é otimista. Para ele, há uma saída possível para a rebelião das massas ainda que a crise da sociedade seja inédita. O caminho para a salvação é simples: bastaria que minorias voltassem as suas atenções para projetos que dessem vitalidade e alicerce para a sociedade.

Em outras palavras, orientados pela razão e pelas lições da história, os indivíduos nobres deveriam criar um projeto de sociedade, que fosse capaz de aproveitar os benefícios do nosso tempo e blindar as instituições democráticas. Assim, a humanidade seria orientada para, nas palavras de Ortega, “resgatar, revalorizar o acontecer humano”.

A sua obra, se desvirtuada, pode levar a posturas elitistas e que pouco se alinham com os preceitos liberais. Mas, se lida corretamente, A Rebelião das Massas traz um grande diagnóstico: sociedades saudáveis são aquelas em que os cidadãos trabalham continuamente pelo aperfeiçoamento de si, sem se deixar levar pelas proposições fáceis.

Ighor Branco, acadêmico de Ciência Política da UFPE. 

FONTES:

- ORTEGA Y GASSET, José. A Rebelião das Massas. Brasil: Vide Editorial; 1ª edição. 1 de maio de 2015.

- GRÀCIA, Jordi. José Ortega y Gasset. Brasil: Taurus; 1ª edição. 21 de maio de 2014.

- ORTEGA Y GASSET, José. Meditações de Quixote. Brasil: Vide Editorial; 1ª edição. 22 de fevereiro de 2019.