Dossiê Oriente Médio

Por Tiago Levy

O Oriente Médio é estratégico por sua característica geográfica. Localizado entre o mar mediterrâneo e o golfo pérsico conecta três continentes: África, Ásia e Europa.

1- O que é o Oriente Médio?

O Oriente Médio é um termo genérico, sendo assim ele não possui uma definição geográfica bem definida, dependendo do referencial, países podem ou não serem considerados como pertencentes a região, um exemplo disso é a Turquia. A maior parte dos países do que se convencionou chamar de Oriente Médio, fica localizado na região da Ásia Ocidental são eles: Arábia Saudita, Bahrein, Qatar, Emirados Árabes, Iêmen, Israel, Irã, Iraque, Jordânia, Kuwait, Líbano, Omã, Síria e a parte asiática da Turquia. Contudo, desde o início da década de 2000 em virtude das ligações religiosas, étnicas, linguísticas e geográficas o G8 (grupo dos oito países mais poderosos do mundo) tem preferido adotar o termo MENA para a região, o termo também é adotado pelo Banco Mundial e a ONU. MENA traduzido para o português significa Oriente Médio e Norte da África. Essa região é comumente chamada de Grande Oriente Médio ou Novo Oriente Médio e tradicionalmente são considerados 19 países como pertencentes: Argélia, Bahrein, Egito, Irã, Iraque, Israel, Jordânia, Kuwait, Líbano, Líbia, Omã, Marrocos, Palestina, Qatar, Arábia Saudita, Síria, Tunísia, Emirados Árabes e Iêmen. Países como Turquia, Afeganistão, entre outros, as vezes são considerados como pertencentes da região, contudo não há um consenso quanto a inclusão de outros países.

2- Por que essa Região é tão importante?

O Oriente Médio é uma região estratégica primeiramente por sua característica geográfica, localizado entre o mar mediterrâneo e o golfo pérsico, ele é responsável por conectar três continentes: África, Ásia e Europa. Essa posição privilegiada tem sido utilizada por rotas comerciais desde a antiguidade, conectando a Europa com regiões distantes como a China e Índia, por exemplo. O Oriente Médio também é rico em recursos naturais, sobretudo gás e petróleo. Para se ter uma ideia, entre os dez países com as maiores reservas de petróleo do mundo, sete estão localizados na região do Grande Oriente Médio. Com o fim da Segunda Guerra, o ritmo acelerado do crescimento industrial e urbano ao redor do globo aumentou a necessidade dos países por fontes energéticas como petróleo e gás, o que elevou consideravelmente o interesse pelo Oriente Médio.

3- Xiitas X Sunitas: A origem de um conflito histórico.  

Maomé, considerado como o profeta mais importante do islamismo, foi o responsável pela primeira grande expansão da religião islâmica. Até sua morte em 632dc, ele controlava a maior parte da península arábica, em uma área que hoje corresponde a Arábia Saudita, Iêmen e Omã. Após sua morte, se instaurou um enorme questionamento sobre quem seria o seu sucessor. Dois grupos rivalizavam sobre a forma como deveria ser realizada a escolha, uma ala majoritária acreditava que o novo representante deveria ser eleito pela comunidade islâmica através de uma assembleia. Minoritariamente, existia uma corrente política que defendia o direito de sucessão por descendência sanguínea e nesse caso o sucessor, deveria ser Ali Ibn Talib, sobrinho de Maomé. Os membros do primeiro grupo são chamados de Sunitas, em referência a Suna livro que relata os feitos de Maomé, o segundo grupo por sua vez, são chamados de Xiitas (Shiat Ali) que significava exatamente os “partidários de Ali” ou “partido de Ali”. O vencedor da disputa foram os Sunitas que indicaram Abu Bakr, sogro de Maomé, como o Califa (sucessor). Ali viria a se tornar um Califa, só depois dos reinados de Abu Bakr, Omar e Otomão. Esses três primeiros Califas eram Sunitas e Ali Ibn Talib que viria ser o quarto Califa foi o primeiro Xiita a assumir o poder. A instabilidade encontrada nos reinados de Otomão e Ali (ambos assassinados), promoveu um racha profundo dentro da religião islâmica.

4- Xiitas x Sunitas a raiz dos conflitos geopolíticos no Oriente Médio. 

O que se iniciou como uma disputa religiosa, hoje representa uma batalha pelo controle e influência nos países do Oriente Médio. Os Sunitas representam quase 90% da população mulçumana do globo, a Arábia Saudita, terra de Maomé, é um exemplo de país com maioria Sunita. Os Xiitas, por sua vez, são maioria apenas no Irã, Iraque, Bahrein e Azerbaijão. Em países como Afeganistão, Arábia Saudita, Catar, Líbano e Síria, os Xiitas embora minoritários possuem grupos representativos. Contudo, nesses países, os Xiitas estão quase sempre associados a parcela pobre e marginalizada da sociedade. A relação entre os dois grupos sempre foi conflituosa, contudo, a tensão foi elevada depois de 1979, quando eclodiu a revolução iraniana e os novos governantes colocaram como bandeira o fortalecimento de sua visão ideológica e religiosa na região do oriente médio, oferecendo suporte, inclusive financeiro para minorias xiitas nos países do Oriente Médio. Tal fato, acirrou a disputa entre as duas correntes religiosas e elevou o embate entre o Irã e a Arábia Saudita na disputa pelo controle da região.

5- Qual o Papel do Irã no Oriente Médio. 

O Irã é a referência para a população Xiita. Com a revolução de 1979, os governantes passaram a fortalecer financeiramente e militarmente minorias Xiitas nos outros países da região. Um ótimo exemplo é o Iraque, onde o Irã, através do general Qasem Soleimani, trabalhou para a formação de milícias de combate as forças americanas em solo iraquiano. O irã também possui papel de destaque na guerra civil que persiste na Síria. A ditadura Síria de Bashar al-Assad, se valeu do apoio do Irã que não queria a vitória das forças Sunitas rivais do ditador. Inclusive Qasem Soleimani, morto no dia 03 de janeiro, pelos Estados Unidos, foi o responsável por fornecer ao governo Sírio informações de inteligência, bem como tropas formadas por membros da guarda que comandava e de milícias xiitas financiadas pelo Irã. O Irã ainda é aliado e financiador do Hezbollah, organização política e paramilitar de combate a presença de Israel na região. O braço militar da organização é considerado terrorista por países como Estados Unidos, Inglaterra, Canadá e União Europeia. Por ser um rival histórico da Arábia Saudita, o Irã ainda foi um ator importante na crise política ocorrida em 2017 entre Arábia Saudita e Catar. Enquanto a Arábia Saudita incentivou que seus aliados realizassem um bloqueio econômico ao Catar, o Irã ajudou o país enviando suprimentos, a assistência iraniana ajudou a estreitar os laços diplomáticos entre os dois países. Por fim, o Irã voltou a atrair a atenção dos noticiários e a preocupação dos Estados Unidos e União Europeia, por conta da reativação do seu programa nuclear.

6-O Programa Nuclear Iraniano e o Acordo de 2 de Abril de 2015. 

O Programa Nuclear do Irã teve início durante a década de 60, com forte apoio dos Estados Unidos, então aliados. Com a revolução iraniana de 1979 os Estados Unidos impuseram sanções a expansão do programa nuclear. O governo iraniano alega que a energia nuclear será utilizada para fins pacíficos, com o intuito de impulsionar o desenvolvimento tecnológico do país. Contudo, os países membros do Conselho de Segurança da ONU tem forte desconfiança que na verdade o Irã planeja utilizar energia nuclear com fins bélicos, para criar sua própria bomba atômica. Em 2015, depois de décadas de sanções por parte dos Estados Unidos e União Europeia, foi realizado um acordo nuclear entre o Irã e as principais potências mundiais. Assinaram o acordo, Irã, EUA, Reino Unido, Alemanha, França, China e Rússia. O acordo basicamente impedia o uso de plutônio além de forçar uma redução de quase 98% no estoque de urânio do Irã, o enriquecimento de urânio também passou a ser limitado. Além disso o governo iraniano abriu suas instalações para as inspeções da agência internacional de Energia Atômica. Em troca dessas limitações, as potências mundiais retiravam o embargo econômico contra o Irã. O Acordo rotulado de histórico por Barack Obama foi duramente por Donald Trump ainda no período eleitoral. Em 2018, o presidente Donald Trump decide, mesmo com protestos da comunidade internacional, retirar os Estados Unidos do Acordo.

7-Por que Trump é contra o Acordo Nuclear com o Irã?

O presidente americano é contra o enriquecimento de urânio por parte do Irã, mesmo nas quantidades previstas no acordo. Segundo o presidente, o acordo não impediria por completo a possibilidade do país de atingir o desenvolvimento de uma bomba atômica, haja vista que as atividades nucleares propostas no acordo têm validade de 15 anos. Trump ainda é contra o acesso de recursos financeiros do Irã que estavam bloqueados internacionalmente, para o presidente americano esse recurso irá servir apenas para o governo iraniano ampliar seu apoio a grupos, considerados pelos Estados Unidos, como terroristas. O Hezbollah seria um exemplo desses grupos.

8-Irã x Estados Unidos, um embate que vem desde o ano de 1979. 

Até metade da década de 70, os Estados Unidos eram considerados um importante aliado do governo iraniano que naquela época consistia em uma monarquia comandada pelo Xá (Rei) Reza Pahlevi. Constudo, a partir do ano de 1978 eclodiram no Irã uma série de levantes contra o regime monarca. A pobreza, inflação elevada, e a repressão política estão entre os principais motivos que levaram o povo as ruas para protestar. Os defensores de uma mudança de regime iam desde liberais até socialistas e fundamentalistas religiosos. Com o avançar da revolução, os movimentos fundamentalistas liderados por Khomeini, conseguem sufocar os outros movimentos e implantam uma teocracia, regime que mistura poder político com o religioso. Os norte-americanos eram vistos com desconfiança e até com desprezo por parte dos manifestantes, pelo fato de estarem intimamente ligados com o governo deposto. A relação tensa entre EUA e os adeptos da revolução iraniana ganhou importante capítulo em novembro de 1979, quando estudantes e outros militantes da revolução decidiram invadir a embaixada dos EUA em Teerã (Capital do Irã). O episódio ficou conhecido como crise dos reféns americanos, já que 52 cidadãos americanos ficaram presos na embaixada por 444 dias. Tal acontecimento contaminou a relação entre os países de tal forma que as animosidades persistem até hoje.

9-O que motivou os novos conflitos entre EUA e Irã?

Se durante a gestão Barack Obama, os Estados Unidos procuraram diminuir as tensões entre os dois países, sobretudo com o acordo nuclear de 2015 e o fim das sanções econômicas, o mesmo não pode ser dito do governo Donald Trump. Ainda durante a campanha Trump se mostrou radicalmente contra o acordo nuclear realizado entre as potências mundiais e o Irã. Sua vitória elevou a tensão e a suspeita que o presidente eleito quebraria o acordo. No início de 2018, alegando que o pacto atrasaria, mas não impediria o desenvolvimento de armas nucleares, Trump decide retirar os Estados Unidos do Acordo. O presidente americano ainda deixa claro que o acordo não fornece acesso a fiscalização em instalações militares que poderiam ser utilizadas secretamente para o enriquecimento de urânio acima do permitido. Com a retirada dos Estados Unidos do acordo e a volta das sanções financeiras por parte do governo Trump, o Irã, em retaliação, anunciou que voltaria a enriquecer urânio de maneira indiscriminada. A tensão entre os dois países que já estava alta por conta da questão nuclear, ganha um novo capítulo com o assassinato, por parte do governo americano, de Qasem Soleimani general comandande da Força Quds, uma unidade especial da Guarda Revolucionaria Islâmica.

10-Por quê os Estados Unidos decidiram matar Qasem Soleimani?

O general Qasem Soleimani era uma das figuras mais importantes do atual cenário político do Oriente Médio. Como chefe das Forças Quds, era o responsável por operacionalizar nos países da região, o plano iraniano de enfraquecer as forças sunitas e disseminar o seu modelo ideológico e religioso. Soleimani formou milícias de combate aos americanos no Iraque pós 2003, serviu de importante aliado do governo sírio em sua guerra civil, ofereceu suporte financeiro ao Hezbollah. Ganhou popularidade no Iraque pelo combate as forças americanas e o Estado Islâmico. Desde 2019, os Estados Unidos consideram Soleimani e a Forças Quds como terroristas. Segundo a nota do Departamento de Defesa dos EUA, o general e suas tropas realizaram ataques as bases da coalizão no Iraque além de ter incentivado os ataques à embaixada americana em Bagdá. O Departamento de Defesa afirmou ainda que Soleimani tinha planos ativos de ataques aos Estados Unidos no Oriente Médio, a morte teria então como objetivo impedir os futuros planos de ataque. O Assassinato além de representar uma dura resposta do Estados Unidos ao Irã, ainda serviu para o governo americano passar uma mensagem de apoio aos seus aliados na região.

11-O que esperar do novo conflito?

A morte do general iraniano Qasem Soleimani despertou o medo de um conflito armado entre Estados Unidos e Irã. Nas redes sociais o termo “Terceira Guerra Mundial” chegou a alcançar os Trends Topics do Twitter. Apesar do medo, a realidade é que um conflito como esse hoje é muito improvável, muito pelo complexo xadrez político da região. Países como Rússia, China e União Europeia tentam amenizar a crise e costurar uma saída diplomática entre os dois países, contudo pela volatilidade da relação Estados Unidos x Irã, fica difícil imaginar que a curto prazo exista essa possibilidade. Dois outros cenários parecem ser mais prováveis de ocorrer: no primeiro deles ocorreria um maior conflito do ponto de vista econômico, os Estados Unidos elevam as sanções contra o Irã e o regime do Aiatolá Khamenei responde dificultando a produção e escoamento do petróleo no Oriente Médio, o que teria impacto em praticamente todas as economias do globo. Militarmente poderiam ocorrer ataques a alguns alvos militares ou embarcações que passem próximo ao Irã. Importante lembrar que esse cenário já ocorre desde que os EUA decidiram sair do acordo nuclear e impor sanções ao país. Tal fato desestabilizou a economia iraniana que ficou em recessão. Por sua vez, foram vistos ataques que impactaram no preço do petróleo mundialmente. São os casos dos ataques a navios petroleiros no Estreito de Ormuz e nos Emirados Árabes, ocorreu ainda um ataque de drones em áreas de produção de petróleo na Arábia Saudita. Os Estados Unidos acusaram o Irã de serem responsáveis por todas essas ações, o que foi negado por eles. O outro cenário, mais pessimista, aponta para conflitos militares restritos à região do Oriente Médio. O Irã, tem por objetivo elevar sua influência no Oriente Médio, a crise com os Estados Unidos pode servir para o governo iraniano ampliar o suporte militar e financeiro a grupos e milícias que combatam aliados dos americanos na região. Israel pode ser um dos primeiros países impactados por uma crise militar localizada, caso Hezbollah (financiado pelo Irã) decida voltar a disparar os seus mísseis contra Israel. No Iraque as milícias financiadas pelo Irã podem promover novos ataques a bases militares e edificações do governo dos Estados unidos, o Irã poderia ainda incentivar ataques terroristas contra as fontes de petróleo na Arábia Saudita. O conflito não ocorreria diretamente entre Estados Unidos e Irã, mas sim entre os países aliados dos EUA e as milícias financiadas pelo Irã, em um conflito militar que se arrastaria por muito tempo na região.

12-Qual o impacto da crise na economia brasileira?

O risco para o Brasil é que uma escalada na crise Irã X EUA exerça grande impacto sobre o preço do petróleo. É importante lembrar que o Irã está entre um dos maiores produtores de petróleo e gás do mundo, além disso é responsável por controlar o Estreito de Ormuz, principal rota de escoamento marítimo do petróleo vindo de países como Arábia Saudita, Iraque e Catar. Pelo Estreito de Ormuz passa 30% da produção mundial de petróleo. Caso o Irã aplique dificuldades para a importação de petróleo no Oriente Médio o resultado seria uma escalada nos preços. Muitos países, como é o caso do Brasil, ajustam os valores da gasolina baseados na cotação internacional, uma elevação dos preços no exterior iria pressionar a Petrobrás a elevar o valor da gasolina e do diesel, o que acabaria sendo repassado ao consumidor final. O aumento do preço dos combustíveis pode impactar na produção industrial, tornando os produtos mais caros, pressionando a inflação e inviabilizando a redução das taxas de juros. Como é possível entender, tudo vai depender dos próximos acontecimentos da crise, para se ter uma ideia no dia que Qasem Soleimani foi assassinado o preço do barril de petróleo subiu de US$ 68,60 para US$ 71,75, entretanto, depois ele voltou a se estabilizar.

Tiago Levi Diniz Lima – cientista político e coordenador do Núcleo de Estudos e Debates do ILEC