Rússia x Ucrânia: Afinal, por que os países ainda recorrem à Guerra e quais são seus tipos?

Segundo Sun Tzu, filósofo chinês e tido como um dos maiores estrategistas da história: “O objetivo da guerra é a paz”. Tendo essa frase como premissa, apesar dos avanços em termos de diplomacia, os conflitos bélicos ainda são uma alternativa considerada pelos países. A crescente do liberalismo nas relações internacionais – como doutrina que prega resoluções de conflitos por meio de acordos e consensos – ainda é recente, e, diferentemente do que se pensava, tanto entre estudiosos políticos como entre cidadãos comuns, ainda é possível, mesmo em 2022, que guerras aconteçam.

Em tese, a complexa interdependência mundial, a evolução de normas internacionais contra o uso da força e a avançada tecnologia militar que se mostra poderosa, incapaz de ser usada na maioria dos conflitos locais ou regionais, como faz prova o incomensurável poder destrutivo das armas nucleares, seria fator determinante para o fim da beligerância.
No entanto, por mais que esses fatores sejam barreiras para conflitos armados, a simples existência de investimentos consideráveis em defesa e manutenção de uma força militar ativa são um alerta de que a possibilidade de guerra não deve ser descartada. Essa premissa é sustentada, sobretudo, por antagônicas concepções de ordenamento do cenário internacional. Ou seja, se de um lado, os países do Ocidente parecem estar mais alinhados ao liberalismo, os países do Oriente estão mais alinhados à ideologia realista.

O pensamento realista é uma das principais corrente teóricas para o estudo das relações internacionais. As premissas básicas do realismo são: uma visão pessimista da natureza humana; uma convicção de que as relações internacionais são necessariamente conflituosas e os conflitos internacionais são, em última análise, resolvidos por meio da guerra; apreço pelos valores da segurança nacional e da sobrevivência estatal; e o ceticismo básico com relação à existência de um progresso comparável ao da vida política nacional no contexto internacional.

O realismo é visto como uma visão mais herética do mundo devotando-se a analisar o comportamento dos estados de forma exclusiva no campo da segurança nacional e da sobrevivência estatal, levando sempre a crer que o universo da política acaba por refletir características da vivência humana, em que estes por estarem sempre preocupados com seu próprio bem-estar e segurança entrariam em relações competitivas e de conflito uns com os outros para poder sobreviver em uma sociedade anárquica.

Tendo isso em mente, é possível entender um pouco das posições e decisões política da Rússia, comandada por Vladimir Putin. Este embate, em específico, vai além dos interesses em primeira instância demonstrando uma visão antagônica do ordenamento das relações internacionais, e, de maneira mais profunda, de concepção de mundo – com valores e práticas próprias.
O presidente da Rússia utiliza do espirito nacionalista, ainda bastante presente no país como um todo, para não somente perpetuar sua caminhada na gestão doméstica por mais tempo, como também numa tentativa de consolidar uma imagem unitária do povo russo.

Assim, Putin enxerga o mundo sob os olhos do conceito de Esfera de Influência. Nesse sentido, isso explica a ação mais enfática da Rússia em relação à Ucrânia – de maneira bélica – porque essa nação está historicamente dentro de sua zona de interesse. A Rússia dispensa participação em diversos conflitos do Oriente Médio, assim como da América do Norte e América Central – como Cuba e México, que sempre terão maior relevância para os EUA.

Tendo isso entendido, e partindo do princípio de que não é possível olhar de maneira maniqueísta para o confronto na Ucrânia, é possível diz que Putin está alinhado com a concepção realista das relações internacionais.
De acordo com Goldstein, teórico e internacionalista, existem cinco tipologias de guerra interestatal/transnacional:

• Guerra Sistêmica ou Hegemônica: também conhecida como guerra mundial, guerra global ou guerra geral. São conflitos que controlam a ordem mundial, as regras do sistema internacional, propagando consequências no poder hegemônico dos países. Há declaração formal de estado de beligerância e alianças estratégicas. A última guerra hegemônica ocorrida foi a Segunda Guerra Mundial;

• Guerra Total: iniciada por um Estado com intenção de conquistar e ocupar o outro. O objetivo é atingir sua capital e forçar a rendição do governo, para restabelecê-lo com alguém da escolha do vencedor. O país vitorioso tenta anexar o território arruinado. Sua prática está conectada ao desenvolvimento industrial, onde a integração da sociedade e os interesses econômicos encontram-se exacerbados. Nessa categoria de conflito a sociedade se mobiliza para a luta, tomando a sociedade inimiga como um alvo legítimo. Nesse caso, há uma declaração formal de estado de beligerância por um dos poderes do Estado. A tentativa do Iraque em anexar o Kuwait, em agosto de 1990, exemplifica a guerra total;

• Guerra Limitada: é uma ação militar destinada à rendição e desocupação do inimigo invasor. Tomemos ainda como exemplo a Guerra do Golfo, em que os Estados Unidos e demais países da coalizão, autorizados pela S/RES 678 (1990), promoveram ataques militares contra o Iraque para retomar o território do Kuwait. A intenção era tão somente à volta ao status quo. Não foram tomadas medidas no sentido de destruir o Governo de Saddam Hussein. As guerras de fronteiras também apresentam essa característica, ou seja, após ocupar a terra desejada, o Estado invasor pára os ataques ofensivos e adota estratégia de defesa e de salvaguarda da territorialidade adquirida. Os atos belicosos possuem finalidade bem definida;

• Incursão militar: são guerras limitadas consistentes em uma única ação, bombardeio ou ataque militar. Podem ser classificadas também nessa tipologia intervenções militares de curta duração. Em 1982, por exemplo, aviões de guerra israelenses bombardearam um suspeito laboratório do Iraque para impedi-lo de progredir no desenvolvimento de armas nucleares. A guerra estava acabada em poucas horas. É um tipo de guerra distinta porque a destruição é limitada e acaba rapidamente. Os bombardeios norte-americanos na Líbia em 1986 e no Sudão em 1998 que atingiram a fábrica de medicamentos de Al-Shifa, em vez de alvos terroristas, são exemplos de incursões militares. Tais incursões quase nunca ocorrem com tropas em solo devido aos avanços da tecnologia das armas teleguiadas. As “intervenções cirúrgicas” são consideradas incursões limitadas. As incursões militares, quando cíclicas e recorrentes, transformam-se em guerra limitada;

• Ataques ou conflitos terroristas: Os ataques terroristas ocorrem por ato de meticulosa preparação, são de curtíssima duração e de longo impacto. Ocorrem pelo planejamento criminoso sob a égide da desterritorialização. Podem ser de cunho estatal (state-sponsored terrorism) ou de cunho paraestatal. Ataques terroristas em Bali ou Madri, por exemplo, são formas de abater alvos não combatentes com o intuito de manifestação político-ideológica. Na verdade, o novo terrorismo tem assumido, de forma crescente, níveis de violência contra civilizacional e que suas respostas retaliatórias, como ocorrera com os EUA no Afeganistão em 2001, logo após o 11 de setembro, são formas de tolher as células ou redes terroristas.

Em linhas gerais, os confrontos, nos dias de hoje, são mais destituir governos do que para aniquilar países. A determinação quantificada desse processo decisório envolve uma ampla gama de percepções, conhecimentos, preparo e estoque de recursos disponíveis. A manutenção de uma guerra é, via de regra, custosa.

Montesquieu, filósofo político francês, fundador da teoria de tripartição dos poderes, afirmava que “se uma república é pequena, vive ameaçada de destruição por um poder estrangeiro; se é grande, vive ameaçada de desagregação por condições internas.” Tal expressão mostra que a segurança interna juntamente com a segurança internacional e coletiva estão atreladas de forma indissociável, resultando na necessidade de manter o primado da estabilidade interna como meio de consolidar a confiança, a paz e a harmonia entre os Estados – há quem acredite que isso virá por meio de negociações e consensos e há quem ainda recorra ao conflito armado.

Fonte:

http://funag.gov.br/loja/download/931-Teoria_das_Relacoes_Internacionais.pdf