Quinhentos anos de Brasil: marco e futuro

Cadernos do PFL I

* Estamos a apenas quatro anos de não apenas mudar de século, mas também de ultrapassar o umbral do novo milênio, embora, cronologicamente, pelas regras do calendário gregoriano, isso só venha a ocorrer no início do ano 2001. Este momento único e singularíssimo- afinal, poucas gerações têm o privilégio de participar da virada dos séculos e raríssimas, como a nossa, a dos milênios leva a uma série de reflexões.

Nesse apagar de luzes do século XX, constata-se, de imediato, que não se cumpre a generalizada convicção do fim do primeiro milênio da era cristã da chegada do fim do mundo e, conseqüentemente, da história. No fim desses últimos dois mil anos, não estaremos comemorando
apenas o transcurso do novo século ou de um outro milênio, mas a própria continuidade, nesse mesmo período, do marco que dividiu a história e iniciou a era do cristianismo, representado pelo advento de uma fé que se perpetuou e se expandiu, sobretudo no mundo ocidental.

Esse novo milênio assinala o jubileu do nascimento de Cristo. Ao mesmo tempo, é uma confraternização que transcende o aspecto religioso para ganhar uma dimensão
humana universal, na medida em que o Cristianismo significa, mais do que uma fé, uma crença, uma rica, profunda e diversificada herança de uma série de conquistas nos campos filosófico, científico, ético, social, político, artístico e econômico, envolvendo os cristãos de todo o
mundo e a própria doutrina da Igreja. O jubileu do nascimento de Cristo, para o qual a
Igreja Católica prepara significativas comemorações, coincide com os primeiros 500anos da existência do Brasil como Nação. O marco, portanto, nos impõe o dever de indagar, como têm feito outros povos, o sentido – se é que ele existe – de nossa própria história. Além das solenidades que celebramos com os portugueses para evocar a epopéia que uniu nossos destinos, é hora de
aproveitar o marco para renovarmos o compromisso patriótico com nós mesmos, com as gerações que nos precederam e com as que vão nos suceder.
Sabemos até onde e como chegamos. Temos já uma longa e rica experiência de crítica e de severa autocrítica. Lamentamos nossos defeitos e, com menos freqüência, louvamos nossas virtudes. Dois livros emblemáticos – Porque me ufano do meu País, de Afonso Celso, e O Retrato do Brasil, de Paulo Prado, em que ufanismo e otimismo se confrontam com um pessimismo que, em geral,
costumamos pensar retrospectivamente – são exemplos dessas duas vertentes. Tal como fiz em 1983, quando, como senador, propus, com a indispensável antecedência, as
comemorações do centenário da República, creio ser dever promover, também com a mesma antecedência, uma conjuração de esforços para que todos, instituições e entidades das mais diferentes tendências, possam debruçar-se sobre os rumos que pretendemos imprimir e quais as
alternativas viáveis para atingirmos as metas que viermos a traçar.

Estaremos retomando, em última análise, o velho mas nunca superado debate sobre o curso que queremos dar à nossa própria história. É possível que, sob inúmeros aspectos, o Brasil do próximo século venha estar diferente do Brasil do século XX, do que hoje do século XIX. Impõe-se, desde já, mobilizar, ao lado do Governo, todos os segmentos representativos de nossa enorme diversidade e de nossas instituições, que compõem o patrimônio cultural de nosso processo civilizatório, para
dizermos não somente onde falhamos ou como corrigirmos nossos próprios erros, mas algo mais significativo: como podemos acertar e de que forma pode cada um contribuir para preparar o futuro de toda esta vasta e promissora nação de brasileiros, integrada por origens diversas, que,
de forma tão rica quanto criativa, se irmanaram no propósito de construir este País.

Resgate dos Cadernos do PFL.

*Texto Publicado no Correio Braziliense em 11/11/1996.

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CADERNOS DO PFL 1_MARCO MACIEL