Olimpíadas: afinal, por que alguns países sempre estão no pódio?, Por Ighor Branco.

Marcada por adiamento e protestos em decorrência da Covid-19, as Olimpíadas de Tóquio começaram. Após a turbulência inicial, o foco se voltou para os jogos e logo surgiu à cabeça dos telespectadores a seguinte questão: por que alguns países – como Estados Unidos, China, Rússia[1] e o próprio Japão – têm ocupado o pódio na maioria das vezes? Certamente, a primeira resposta dada faz referência ao tamanho do investimento financeiro de alguns países no esporte. O que é verdadeiro, porém, incompleto.

A maioria dos estudos em relação ao desempenho dos países apontam o PIB[2] ou PIB per capita[3] como os melhores previsores de sucesso olímpico. Não é pra menos, uma vez que os indicadores econômicos agem como uma proxy[4] para desenvolvimento do país, e o alto desenvolvimento, por sua vez, leva à existência de melhores instalações para treinamento, treinadores mais preparados e, portanto, melhor desempenho nas Olimpíadas.

No entanto, a relação com os investimentos não é direta. O Brasil, por exemplo, possui dois grandes programas de auxílio financeiro. São eles: o Bolsa Atleta, criado em 2005, com gestão do Ministério da Cidadania, que anexou a antiga pasta de Esportes, e que tem como objetivo garantir a manutenção pessoal aos atletas brasileiros de alto rendimento que não têm patrocínio; e, o Programa de Incorporação de Atletas de Alto Rendimento (Paar), fruto de uma parceria entre o Ministério da Defesa e o da Cidadania, onde os atletas são selecionados por meio de concurso público e passam a cumprir o serviço militar temporário (SMT)[5].

Nesse sentido, para além das particularidades de cada programa, é importante dizer que ambos são direcionados com mais intensidade para atletas com maior possibilidade de pódio olímpico. O que à primeira vista pode parecer acertado, mas que na prática, reitera uma lógica de atletas de exceção. Ou seja, não há uma produção em massa de atletas de alto rendimento, o que acontece, na maioria dos esportes, é que alguns atletas de destaque internacional recebem, proporcionalmente, mais incentivos para continuar competindo. Assim, é possível entender um dos porquês os Estados Unidos serem tão bem representados na maioria das modalidades, enquanto o Brasil só obtém destaque em algumas.

Essa questão ultrapassa o âmbito público, atingindo a esfera cultural. Enquanto alguns países buscaram diversificar a prática esportiva, o Brasil tem seus olhos e esforços voltados para o futebol, deixando de lado outros esportes. Assim, a cultura de exceção é perpetuada, seja com patrocinadores que aparecem, geralmente, apenas um ano antes dos jogos olímpicos para associar a sua marca aos atletas mais competitivos, ou, com jovens que só são estimulados a treinar futebol nas escolas. O resultado é um baixo investimento na base e na formação de talentos. Um exemplo disso é que todos lembram de Gustavo Kuerten, o Guga do tênis, mas poucos conseguem citar outro grande tenista brasileiro.

Outro fator que está correlacionado com a cultura de exceção é a visibilidade midiática. Uma vez que, dificilmente, um brasileiro se recorda de um dia de domingo com esporte televisionado que não fosse uma partida de futebol, corrida de Fórmula 1 ou um jogo de vôlei, com raras exceções.

Por outro lado, quando o assunto é performance olímpica, o fator sede também é relevante. Sediar os jogos olímpicos é uma das formas existentes para aumentar o apoio público aos esportes nos anos anteriores aos jogos. Deixando de lado as críticas aos gastos e organização do megaevento, o Brasil teve claro esse exemplo em 2016. O país conseguiu o melhor desempenho no quadro geral de medalhas[6] e isso se deu pelos massivos incentivos, tanto de infraestrutura, como de cultura olímpica e aumento da delegação.

Ademais, até o presente momento, o Japão lidera o ranking de medalhas e caminha para um dos seus melhores desempenhos da história. Salvo a discussão sobre o possível favorecimento dos juízes ao país-sede, o Japão segue a mesma lógica que impulsionou o desempenho de outros países quando sediaram as Olimpíadas. De acordo com estudos, o país-sede conquista, em média, 21 medalhas a mais do que esse mesmo país ganharia se não estivesse sediando os jogos.

Os jogos olímpicos também possuem uma dimensão política. Uma vez que, é de interesse das principais potências mundiais demonstrar força por meio do desempenho dos seus atletas. Nesse sentido, alguns pesquisadores apontam que regimes autocráticos também são um indicador para o sucesso no quadro de medalhas, tendo excessivo estímulo como regra e o objetivo de mostrar soberania na comunidade internacional. Por outro lado, como no caso da Rússia nos jogos de Tóquio, há possibilidade de punições e até banimentos mediante posturas antidesportivas, como o uso de doping[7].

Outros dois fatores das Olimpíadas, não tão lembrados comumente, são os gastos com a saúde e o tamanho da população de um país. É conhecido que a prática esportiva está relacionada com ganhos na qualidade de vida e saúde, e a correlação que se encontra nos estudos dessa proxy é de que, quanto mais um país investe na saúde, maiores são suas chances de conquistar medalhas. Em segundo plano, também com consequência lógica, o tamanho da população de um país está ligado à incidência de talentos, ou seja, quanto mais pessoas, maior a chance de medalhas.

Portanto, a conclusão é que o sucesso olímpico é dado por um conjunto de fatores. Não é possível, através de uma única condição, determinar o número de medalhas que serão conquistadas por um país. As potências olímpicas, como os Estados Unidos, China e Rússia, são o que são porque agregam inúmeras condições favoráveis. Ao Brasil, que se configura como país emergente[8] nas Olimpíadas, cabe repensar além do investimento financeiro, o papel de uma cultura olímpica de massa, uma maior diversificação esportiva nas escolas e a função da confederação, com o objetivo que o país forme, de maneira consistente, cada vez mais atletas medalhistas como Rayssa Leal, Rebeca Andrade e Ítalo Ferreira.

Fontes:

https://agenciabrasil.ebc.com.br/esportes/noticia/2021-06/agencia-brasil-explica-o-que-e-o-bolsa-atleta

BERNARD, Andrew B.; BUSSE, Meghan R. Who wins the Olympic Games: Economic Resources and Medal Totals. The Review of Economics and Statistics, MIT Press, v. 86, n.1, p. 413-417, 2004

VAGENAS, George; VLACHIKYRIAKOU, Eleni. Olympic medals and demo-economic factors: Novel predictors, theex-host effect, the exact role of team size, and the “Population-GDP” Model Revisited. Sport Management Review, vol. 15, p. 211-217, 2012.

Oliveira, Edimilson Torres de e Bertussi, Geovana Lorena. Do que é feito um país campeão? Análise empírica de determinantes sociais e econômicos para o sucesso olímpico. Nova Economia [online]. 2015, v. 25, n. 2 [Acessado 28 Julho 2021] , pp. 325-348. Disponível em: <https://doi.org/10.1590/0103-6351/2136>. ISSN 1980-5381.

[1] Banida das Olimpíadas de 2021 e disputando como Comitê Olímpico Russo (ROC).

[2] Produto Interno Bruto.

[3] Produto Interno Bruto por número de habitantes.

[4] Mecanismo intermediário entre duas condições.

[5] Atualmente, o Brasil possui 91 atletas militares dos 302 na delegação de Tóquio.

[6] https://www.torcedores.com/noticias/2021/07/olimpiadas-melhor-colocacao-brasil-ranking-medalhas

[7] Ingestão de substâncias com o objetivo de obter uma melhor ou pior performance durante uma competição.

[8] https://ge.globo.com/blogs/brasil-em-toquio/noticia/potencia-top-10-emergente-ou-dependente-qual-e-o-lugar-do-brasil-na-geografia-olimpica.ghtml

Ighor Branco, Acadêmico em Ciência Política pela UFPE