O quadro eleitoral no Peru,

Por Cesar Maia.

Apesar do país estar atravessando um dos seus piores momentos desde o início da pandemia, com cerca de 60 mil mortes, a Covid-19 não é o único motivo de preocupação atualmente no Peru. O país está no meio de uma eleição que definirá o quinto presidente em apenas
cinco anos. Com a difícil situação da economia, fruto de uma gestão desastrada no combate a pandemia e de seguidos casos de corrupção, a população do Peru escolheu dois opostos extremos para se enfrentarem nas urnas no segundo turno de 6 de junho. Um deles é representado pela filha de um ex-presidente preso por acusações de corrupção e violação de direitos humanos, Alberto Fujimori. O outro,
Pedro Castillo, é um professor com experiência política local que foi incentivado a concorrer por causa de suas lutas para manter as crianças aprendendo durante a crise do COVID, e por ter liderado uma greve nacional em 2017.
Pedro Castillo foi o primeiro colocado no 1º turno das eleições peruanas, e considerado a maior surpresa. Visto pela população como alguém que pode oferecer uma alternativa à elite política com a qual a maioria dos peruanos está profundamente decepcionada. Sua adversária é Keiko Fujimori, que apesar de ser conhecida pela associação com seu pai, desenvolve um trabalho no Congresso peruano há algum tempo. É a terceira vez que concorre a presidência, e na última eleição presidencial seu partido obteve uma grande maioria no Congresso, tendo uma postura obstrucionista que faz com que a população tenha a percepção de que ela não se comportou de uma forma que reflita qualquer preocupação com os problemas ou questões enfrentadas pelo país atualmente.
Por conta dessas características, podemos afirmar que a campanha será altamente polarizada. Os candidatos querem que as pessoas sintam que eles representam a mudança esperada por todos, mas uma mudança de fato, significativa. Principalmente por conta de pandemia que atingiu severamente a economia e causou uma terrível crise de saúde no Peru. Em relação a política externa, apesar de não ser realmente uma bandeira nesta campanha, no caso de vitória de Fujimori, provavelmente as relações continuariam as mesmas, já no caso de vitória de Pedro Castillo, ele defende em seu programa de governo que irá rever os atuais acordos de livre comércio assinados com com outros países.

O Peru foi uma das economias de crescimentos mais rápido da América Latina, mas a expectativa de que esse crescimento seria suficiente para evitar as reformas políticas institucionais necessárias, se mostrou mais uma esperança dentro da elite econômica do que necessariamente uma visão pragmática do que aconteceria. O Peru foi o exemplo mais recente das oscilações entre a extrema esquerda e a
extrema direita no mundo, e esse cenário sugere que a população tenta encontrar uma alternativa aos modelos tradicionais de governança, uma renovação total. Nesse sentido, ambos os candidatos, Castillo à esquerda e Keiko à direita, não ajudam a vocalizar esse sentimento, uma vez que aparentemente não são significativamente representativos da maioria das pessoas, mas terão que ir em busca desse voto que flutua entre um extremo e outro.

Cesar Maia,  economista, vereador e ex-prefeito do Rio de Janeiro, diretor de relações internacionais do ILEC.