Eleições legislativas no México mostraram um país polarizado,

Por Cesar Maia.

No último domingo, dia 07 de junho, cerca de 93 milhões de eleitores mexicanos votaram na maior eleição legislativa da história do país. No total, foram eleitos novos servidores públicos para 20.415 cargos. Entre eles, 500 deputados federais, 15 governadores e 1.063 deputados locais. E isso ocorreu em um contexto de pandemia, que, no entanto, não impediu uma grande mobilização popular, que
representou uma participação de 52% da população. Os resultados mostraram um país polarizado por suas preferências políticas.
Do ponto de vista do governo federal, os resultados obtidos mostram que o Morena, partido ao qual pertence o presidente Andrés López Obrador, aumentou seu domínio territorial, graças à vitória em 10 dos 15 estados em que disputava o  governo estadual, apesar de ter perdido terreno no plano federal, já que teve sua presença na Câmara dos Deputados diminuída, o que certamente limitará a capacidade do presidente em aprovar reformas amplas.

O Morena nasceu como partido em 2014, depois que seu líder, o atual presidente Andrés Manuel López Obrador, rompeu com o Partido da Revolução Democrática (PRD), após as eleições de 2012. Se o retrocesso na votação parlamentar era esperado, o mesmo não aconteceu com a eleição para os governos estaduais, uma vez que, segundo as pesquisas, era esperado um melhor desempenho da oposição. Algo semelhante, mas na direção contrária, aconteceu com os partidos tradicionais, o PAN e o PRI, que tiveram melhor desempenho nas eleições parlamentares do que naquelas para governadores.

Apesar do presidente manter a maioria absoluta da Câmara dos Deputados graças à ajuda de partidos aliados (Partido Verde Ecologista e Partido Trabalhista), ele não conseguiu a maioria qualificada com a qual contava para poder promover a reforma constitucional que pretende, bem como outras medidas necessárias para o seu mandato, e agora será forçado a negociar se quiser fazer alguma reforma
importante.

Em 2018, quando conquistou a presidência, seu partido conquistou a maioria na Câmara dos Deputados, com 253 dos 500 deputados. Com os partidos aliados ao governo, conquistou 332 votos, necessários para aprovar qualquer projeto de interesse do governo. Nessa eleição, Morena terá no máximo 203 deputados que, junto com seus aliados, poderão chegar a 290 votos no máximo. Porém, não é a mesma coisa depender de deputados alinhados à posição política do governo do que de partidos que tradicionalmente se caracterizam por saber negociar para conseguir um grande retorno da proximidade com o poder, seja qual for sua cor e orientação. Os líderes dos dois partidos aliados estão mais do que acostumados a pechinchar para obter o máximo de seu apoio político ao partido no poder.

De alguma forma, o resultado das eleições parlamentares já começa a marcar os limites da segunda parte do mandato do presidente. Algo semelhante ocorre com os resultados obtidos em algumas das principais cidades do país, como se viu em alguns prefeitos da Cidade do México, que mostram a rejeição de certos setores urbanos às políticas promovidas por López Obrador. Na Cidade do México, reduto da esquerda desde 1997, Morena perdeu várias prefeituras. Pela primeira vez, a capital mexicana terá vários prefeitos do Partido da
Ação Nacional (PAN), identificados com a direita.

É provável que, a partir de agora, o poder do presidente comece a diminuir, tanto fora quanto dentro de seu partido. Por fora, porque a deferência para com a instituição presidencial vai começar a ruir, e por dentro porque as lutas pela sucessão começarão muito em breve. Para lutar contra isso, Obrador precisará manter vivas suas principais políticas e demandas, como a reforma energética, e continuar levantando suas bandeiras nacionalistas e de defesa da soberania.

Cesar Maia, economista, vereador e ex-prefeito do Rio de Janeiro, diretor de assuntos internacionais do ILEC.