Eleições em Israel e a expectativa de encerramento da crise política,

Por Cesar Maia.

A formação de um novo governo foi confirmada pelo Parlamento israelense no último domingo (13), encerrando um ciclo de 12 anos consecutivos do primeiroministro Benjamin Netanyahu e criando uma expectativa de que a se encerre também a crise política que gerou quatro eleições em apenas dois anos. O novo governo é composto por 26 ministros, entre eles diversos veteranos da política
israelense e, pela primeira vez, oito mulheres. Essa ampla aliança abarca políticos árabes-israelenses e nacionalistas judeus.
Essa improvável aliança foi costurada por Yair Lapid, político de centro, ferrenho opositor do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu e líder do bloco anti-governo.

Ao conquistar o apoio de Naftali Bennett, político de extrema direita, Lapid viabilizou uma parceria que muitos acreditavam não ser possível. Basta dizer que pela primeira vez um partido que representa a minoria árabe, um quinto do país, vai fazer parte do governo.
Na esperança de manter unida essa coalizão multifacetada, a expectativa é que sejam evitados movimentos radicais em questões internacionais que causam divisão, como a dos palestinos, concentrando o foco para as reformas domésticas necessárias. Com pouca ou nenhuma esperança de progresso na questão do conflito que se arrasta há décadas com Israel, muitos palestinos devem permanecer impassíveis com a mudança de governo, imaginando que Bennett provavelmente seguirá a mesma agenda direitista de Netanyahu.

A crise na política de Israel se aprofundou no fim de 2018, quando a aliança comandada por Benjamin Netanyahu sofreu uma importante baixa, com a saída do então ministro da Defesa israelense, Avigdor Lieberman. A saída dele representava o descontentamento do grupo mais militarista e nacionalista do governo principalmente com a trégua anunciada a época com os palestinos, nos conflitos na
Faixa de Gaza. Assim, em dezembro de 2018, o governo foi obrigado a convocar novas eleições, para abril de 2019. Depois disso, mais três eleições foram convocadas, em setembro de 2019, março de 2010 e março de 2021.

O fato de que, nessas últimas quatro eleições, nenhum partido conseguiu alcançar o número mágico de 61cadeiras, necessário para se controlar o Parlamento, demonstra o aprofundamento da crise política no País. O julgamento de corrupção enfrentado pelo PrimeiroMinistro Netanyahu, sob acusações que ele nega, e as críticas de que conduziu de forma errada a crise do coronavírus, apenas aprofundaram esse abismo. Com a formação do novo governo confirmada pelo Parlamento Israelense, Naftali Bennett assume como Primeiro-Ministro pelos próximos dois anos, cedendo o espaço para Yair Lapid nos dois últimos anos do mandato, conforme acordado pela coalizão. Diversos analistas têm questionado a sustentação dessa aliança, justamente pelo seu caráter multifacetado.

O novo governo já assume com consideráveis desafios diplomáticos, de segurança e financeiros: Irã, um frágil cessar-fogo com militantes palestinos em Gaza, uma investigação de crimes de guerra pelo Tribunal Penal Internacional e recuperação econômica após a pandemia do coronavírus. Além disso, sua coligação de retalhos de partidos comanda apenas uma maioria mínima no parlamento, 61 das 120 cadeiras do Knesset, e ainda terá que lutar com Netanyahu que certamente certeza será um líder combativo da oposição. E que ninguém descarte um retorno de Netanyahu.

Cesar Maia é economista, vereador e ex-prefeito do Rio de Janeiro, diretor de assuntos internacionais do ILEC.